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quinta-feira, maio 20, 2004

Cavalheiros,
Com efeito, a palavra "membros", nas mãos do André (esse samurai do trocadilho), converte-se numa arma potencialmente mortífera. Não sei onde eu estava com a cabeça quando a empreguei em mensagem a ele. Repondendo à pergunta dele, o programa de estudos de poesia está em permanente metamorfose. Uma das coisas que ficaram decididas, entretanto, é que só planejaremos a segunda parte do "curso" depois de concluírmos a primeira, o que nos permitirá começar a estudar o quanto antes. Além disso, a experiência acumulada certamente nos ajudará a elaborar um plano mais adequado. No mais, o Gustavo já estabeleceu mais alguns textos críticos e poéticos que ainda estavam por ser definidos. Estou elaborando antologias suscintas de Bandeira, Drummond, Mário e Murilo Mendes para contrastar com as dele e chegar a uma versão final. Quem quiser participar desse processo nos encontrará na FALE, aos sábados, às 08:00. Quanto mais gente vier, melhor. Acho que, no pé em que a coisa está, ainda não vale a pena postar uma versão virtual do programa aqui.

Agora, quanto ao encucamento do Matheus. Primeiramente, gostaria de colocar em questão o vínculo estabelecido entre os modernistas e "uma produção livre das amarras de programas". Apesar da pretensão modernista a uma poética espontânea e independente de programas, expressa, por exemplo, no "Prefácio Interessantíssimo" (aliás, um programa dos mais programáticos - e esse paradoxo, por si só, dá a medida de quão furado era aquele espontaneísmo e quão ingênua aquela pretensão), é difícil pensar num movimento literário que tenha produzido tantos manifestos quanto o Modernismo. Com exceção, é claro, das vanguardas subsequentes, mas isso apenas demonstra que também a herança modernista não foi a legitimação da diversidade; muito antes pelo contrário. O arrefecimento do impulso modernista ensejou o advento de uma geração cuja visão da literatura era extremamente estreita e seletiva, para não dizer excludente, intolerante, autoritária. Ou seja, um pessoal completamente avesso à diversidade. Por isso, não acho possível falar em legitimação da mesma a partir do Modernismo. Pelo contrário, acho que essa legitimação ainda está por se consumar, e cabe a nós fazê-lo. Garanto que a ingenuidade da intolerância não é assim tão evidente quanto parece ao Matheus, a mim e a muitos de nossos colegas. Definitivamente, trata-se de um cachorro bastante vivo, que ainda merece muitos chutes e cotoveladas.

Na verdade, a violência dessa metáfora não traduz bem o espírito da tarefa a que me referi. Pois não se trata de "combater" a vanguarda e nem de "demonstrar a falibilidade" desta ou daquela proposta, mas sim de tolerar irrestritamente. E o que significa isso em termos práticos? Significa que, ao examinar determinada obra literária, o crítico não a avaliará orientando-se por valores estéticos e/ou ideológicos pré-determinados, supostamente absolutos e universais, mas sim tentará compreendê-la pelo que ela é, perguntando-se pelo universo de valores em que ela se inscreve e em que sua composição se fundamenta. Significa, em última instância, abandonar o juízo de valor em favor da análise. E qual a alternativa a isso, diante da comprovada impossibilidade de estabelecer-se um critério de avaliação absoluto e universal, isto é, sem incorrer em arbitrariedade ou ingenuidade? Tal como aconteceu com o antigo calcanhar de Aquiles da pretensa "Ciência da Literatura": a questão do método (que, uma vez superada, permitiu o surgimento da "Teoria da Literatura"), a questão da valoração deve "deixar de ser um problema". Isso para parafrasear o nosso brilhante Prof. Pedro Dolabella.

Espero que a coisa tenha ficado mais fácil de se visualizar. Caso contrário, mandem novas mensagens apontando os pontos obscuros. Abraços.

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