sábado, julho 09, 2005
Algum Brasil existe?
Gustavo,
Seu plano de aula me parece irretocável. Para minha frustração, não encontro nele uma só vírgula a demonizar. É pena que eu não o tenha lido há mais tempo; as poucas aulas em que falei sobre a Carta poderiam ter lucrado com seus insights. Há algumas semanas, o Matheus me encarregou de finalizar o assunto em duas turmas suas, e eu me limitei a abordar o item 6 do seu roteiro: repercussões do texto de Caminha sobre a literatura brasileira, especialmente aquela que se debruça sobre o problema de uma nossa suposta "identidade nacional". Antes de mais nada, fiz questão de frisar o caráter problemático da noção entre aspas. Não se trata de um ponto pacífico, independente do que a seleção da Copeve pareça indicar. Como se sabe, uma certa tradição hermenêutica quis enxergar na Carta a "certidão de nascimento" do Brasil. No entanto, do ponto de vista histórico, trata-se muito mais de uma notificação, de um relato sobre o "achamento" de uma potencial colônia de Portugal. Obviamente, para que uma identidade se estabeleça, é indispensável que uma alteridade seja demarcada. No nosso caso, cabe perguntar: quem é o nosso Outro? Quando foi, exatamente, que nossa diferença em relação a ele foi estabelecida (no momento mesmo do "Descobrimento", como quiseram muitos)? Tal diferença foi, de fato, estabelecida? E mais: é possível reconciliar nossas próprias diferenças internas, a ponto de que mereçamos aplicar a nós mesmos o termo "indentidade"?
Não acho ocioso salientar o desdém pela efetividade, por assim dizer, que caracterizou o nacionalismo oitocentista em seu projeto de forjar um espelho literário para o país, politicamente recém-nascido enquanto tal. Basta pensar no regionalismo de gabinete de um José de Alencar, alimentando-se muito mais da Literatura de Viagens encabeçada pela Carta do que por uma vivência concreta das realidades que prentendia descrever. O caso de Inglês de Sousa não é muito diferente. Apesar de nascido na região sobre a qual escrevia, passou pouquíssimo tempo em sua terra-natal. Não é à toa que o imaginário nacionalista tenha, desde sempre, sido marcado por lugares-comuns que podem ser retraçados até o texto de Caminha, como você bem observa. É claro que sua conversão de "observações interessadas de viés colonialista" em "constatações gratuitas de caracteres nacionais" não se dá sem uma boa dose de violência. Assim, o que, na Carta, é uma terra aparentemente fértil e potencialmente explorável, com o Romantismo, transforma-se na natureza exuberante e pródiga de que nunca deixamos de nos ufanar. Assim também ocorre com os nativos dóceis (e, portanto, facilmente domináveis, observa o escrivão real), que se metamorfoseiam, mais tarde, no nosso povo hospitaleiro e amante da paz; daí nossa história marcada pela ausência de conflitos, etc. Daí também a fusão de raças que nos engendra, simbolizada pelo filho de Iracema e seu amado português, o assim chamado "primeiro brasileiro". A atitude paródica de Oswald de Andrade, se o isenta de compor uma epopéia mitificante como "Martim Cererê", não o impede de enxergar, no comportamento de índios e portugueses descrito na Carta, certas características supostamente atribuíveis à nossa "índole nacional", tais como a malícia e o sensualismo (na verdade, gostaria muito de ouvi-lo(s) sobre a justiça - ou não - dessa última acusação). E, assim, o discurso da identidade vai se construindo. Talvez, caiba a nós descontruí-lo.
Enquanto isso, digam-me o que acham de:
SONETO
(Carlos Pena Filho)
Por trás do musgo silencioso e espesso,
que cresce no teu ventre desolado,
nasce um mundo obscuro e inusitado
que eu não sei se mereço ou desmereço.
Sei apenas que às vezes, quando teço
canções noturnas do prazer frustrado,
sou, nem sei por que sombras, exilado
para além do meu fim e meu começo.
Esse teu mundo, concha que é morada
de anêmonas e polvos, é mais raro
que a luz de Deus na noite abandonada.
E é por isso talvez que não se entrega
e me deixa a esperar teu corpo claro
de fêmea esquiva que ao prazer se nega.
Seu plano de aula me parece irretocável. Para minha frustração, não encontro nele uma só vírgula a demonizar. É pena que eu não o tenha lido há mais tempo; as poucas aulas em que falei sobre a Carta poderiam ter lucrado com seus insights. Há algumas semanas, o Matheus me encarregou de finalizar o assunto em duas turmas suas, e eu me limitei a abordar o item 6 do seu roteiro: repercussões do texto de Caminha sobre a literatura brasileira, especialmente aquela que se debruça sobre o problema de uma nossa suposta "identidade nacional". Antes de mais nada, fiz questão de frisar o caráter problemático da noção entre aspas. Não se trata de um ponto pacífico, independente do que a seleção da Copeve pareça indicar. Como se sabe, uma certa tradição hermenêutica quis enxergar na Carta a "certidão de nascimento" do Brasil. No entanto, do ponto de vista histórico, trata-se muito mais de uma notificação, de um relato sobre o "achamento" de uma potencial colônia de Portugal. Obviamente, para que uma identidade se estabeleça, é indispensável que uma alteridade seja demarcada. No nosso caso, cabe perguntar: quem é o nosso Outro? Quando foi, exatamente, que nossa diferença em relação a ele foi estabelecida (no momento mesmo do "Descobrimento", como quiseram muitos)? Tal diferença foi, de fato, estabelecida? E mais: é possível reconciliar nossas próprias diferenças internas, a ponto de que mereçamos aplicar a nós mesmos o termo "indentidade"?
Não acho ocioso salientar o desdém pela efetividade, por assim dizer, que caracterizou o nacionalismo oitocentista em seu projeto de forjar um espelho literário para o país, politicamente recém-nascido enquanto tal. Basta pensar no regionalismo de gabinete de um José de Alencar, alimentando-se muito mais da Literatura de Viagens encabeçada pela Carta do que por uma vivência concreta das realidades que prentendia descrever. O caso de Inglês de Sousa não é muito diferente. Apesar de nascido na região sobre a qual escrevia, passou pouquíssimo tempo em sua terra-natal. Não é à toa que o imaginário nacionalista tenha, desde sempre, sido marcado por lugares-comuns que podem ser retraçados até o texto de Caminha, como você bem observa. É claro que sua conversão de "observações interessadas de viés colonialista" em "constatações gratuitas de caracteres nacionais" não se dá sem uma boa dose de violência. Assim, o que, na Carta, é uma terra aparentemente fértil e potencialmente explorável, com o Romantismo, transforma-se na natureza exuberante e pródiga de que nunca deixamos de nos ufanar. Assim também ocorre com os nativos dóceis (e, portanto, facilmente domináveis, observa o escrivão real), que se metamorfoseiam, mais tarde, no nosso povo hospitaleiro e amante da paz; daí nossa história marcada pela ausência de conflitos, etc. Daí também a fusão de raças que nos engendra, simbolizada pelo filho de Iracema e seu amado português, o assim chamado "primeiro brasileiro". A atitude paródica de Oswald de Andrade, se o isenta de compor uma epopéia mitificante como "Martim Cererê", não o impede de enxergar, no comportamento de índios e portugueses descrito na Carta, certas características supostamente atribuíveis à nossa "índole nacional", tais como a malícia e o sensualismo (na verdade, gostaria muito de ouvi-lo(s) sobre a justiça - ou não - dessa última acusação). E, assim, o discurso da identidade vai se construindo. Talvez, caiba a nós descontruí-lo.
Enquanto isso, digam-me o que acham de:
SONETO
(Carlos Pena Filho)
Por trás do musgo silencioso e espesso,
que cresce no teu ventre desolado,
nasce um mundo obscuro e inusitado
que eu não sei se mereço ou desmereço.
Sei apenas que às vezes, quando teço
canções noturnas do prazer frustrado,
sou, nem sei por que sombras, exilado
para além do meu fim e meu começo.
Esse teu mundo, concha que é morada
de anêmonas e polvos, é mais raro
que a luz de Deus na noite abandonada.
E é por isso talvez que não se entrega
e me deixa a esperar teu corpo claro
de fêmea esquiva que ao prazer se nega.