domingo, dezembro 10, 2006
Apontamentos sobre Herberto Helder
Devir-Silêncio
Em Herberto Helder, o poema é o lugar onde homem e coisa se encontram. Para cantar, é preciso entrar em sintonia com o mundo das coisas. Quando canta, o poeta canaliza a voz das coisas. Por isso, sua linguagem tensiona seus limites humanos em direção à linguagem das coisas, que não é outra senão o silêncio. Poesia: linguagem às margens do silêncio. Trata-se de uma linguagem que tende ao silêncio, que bate perigosamente às portas do silêncio, sob o risco de abolir-se como via de comunicação.
***
A poesia de Herberto Helder supera a oposição linguagem X metalinguagem. Falar da poesia é falar do mundo e vice-e-versa, porque tudo é reversível em tudo. Tudo equivale a tudo. É nisso, aliás, que se resume o Ethos da poética helderiana. É certo que questões propriamente morais, sócio-políticas ou antropológicas não se colocam para tal poética; a Ética, contudo, não lhe é indiferente, uma vez que, dela, emerge um valor: a equivalência radical, a horizontalidade axiológica absoluta. Nada se afirma; nada se nega. Isto é, em última instância, já que, em nenhum momento, uma agonia aguda deixa de se fazer presente. A fraternidade universal, a consangüinidade entre todas as coisas, não as impede de se entrechocarem infinitamente, num movimento eterno que ora lembra a luta, ora a dança. Como se vê, trata-se de uma agonia heraclitiana, o que é dizer, uma agonia redimida, exaltada, sacralizada. Em todo caso, nada tem precedência sobre nada. Por fim nos encontramos realmente para além de bem e mal: os valores dos “fracos” seriam aqui tão bem-vindos quanto os dos “fortes”.
A relatividade irredutível de qualquer valor lança a contemporaneidade num impasse inédito. Note-se que a velha expressão “crise de valores” não se presta a descrevê-lo. Não são os “valores estabelecidos” que ora se vêem em xeque, mas a noção mesma de valor. Como orientar nossas escolhas num mundo em que todo e qualquer referencial se desvanece? O problema não se restringe à esfera ética, mas se estende também à estética, à política, à existencial... A enumeração poderia prosseguir longamente.
Em Herberto Helder, não se faz escolhas: abraça-se a totalidade das alternativas com generosidade fraternal. Transportada do plano da arte para o da vida, a equivalência radical (como proposta pela poética helderiana) resolveria o impasse contemporâneo?
Em primeiro lugar, é difícil imaginar como se operaria tal transporte. A vida cotidiana nos confronta com encruzilhadas incontornáveis, e as contingências fatalmente nos obrigam a forjar hierarquias, por mais impermanentes que as saibamos. Na raiz desse dilema, está nossa insuficiência ôntica constitutiva: a Plenitude nos é interdita (sabemos disso desde o Romantismo). Para falar com Deleuze, nossa molaridade é inescapável. Presos a nós mesmos e descridos da Verdade, só nos resta nortear nossas condutas por critérios que sabemos provisórios e insubstanciais (o que resvala na má-fé).
Contudo, e se nos reconciliássemos com a provisoriedade e com a impermanência? E se extraíssemos dessa reconciliação nossa axiologia? Seria essa a chave para atualizar a equivalência radical e convertê-la em diretriz pragmática?
Valores assumidamente provisórios e impermanentes não se prestam à legitimação da violência – e a violência legitimada está nos fundamentos da civilização. O cumprimento da Lei só se assegura mediante a violência: contra nossos próprios impulsos egoístas; contra o egoísmo alheio que se traduz em crime. Por que cercear nossa própria liberdade em nome de valores insubstanciais? Como fazê-lo em relação à liberdade alheia? Sobretudo, como lidar com a insubstancialidade do próprio relativismo enquanto valor, se ele se nega no momento mesmo em que pretende se afirmar como tal?
Com efeito, se a poética de Herberto Helder afirma a equivalência radical como valor, só pode fazê-lo negando-a paradoxalmente. Afirma-a em detrimento das opções em contrário, isto é, valoriza-a e, implicitamente, desvaloriza o que nela não consista. Da mesma forma, tal poética se fundamenta em determinados valores estéticos, aos quais adere em detrimento de quaisquer outros (como não poderia deixar de ser). Assim sendo, embora proponha a horizontalidade axiológica absoluta, não consegue se furtar à escolha, o que é dizer, à seleção e à exclusão – que se interpõem entre ela e a totalidade a que aspira.
Em Herberto Helder, o poema é o lugar onde homem e coisa se encontram. Para cantar, é preciso entrar em sintonia com o mundo das coisas. Quando canta, o poeta canaliza a voz das coisas. Por isso, sua linguagem tensiona seus limites humanos em direção à linguagem das coisas, que não é outra senão o silêncio. Poesia: linguagem às margens do silêncio. Trata-se de uma linguagem que tende ao silêncio, que bate perigosamente às portas do silêncio, sob o risco de abolir-se como via de comunicação.
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A poesia de Herberto Helder supera a oposição linguagem X metalinguagem. Falar da poesia é falar do mundo e vice-e-versa, porque tudo é reversível em tudo. Tudo equivale a tudo. É nisso, aliás, que se resume o Ethos da poética helderiana. É certo que questões propriamente morais, sócio-políticas ou antropológicas não se colocam para tal poética; a Ética, contudo, não lhe é indiferente, uma vez que, dela, emerge um valor: a equivalência radical, a horizontalidade axiológica absoluta. Nada se afirma; nada se nega. Isto é, em última instância, já que, em nenhum momento, uma agonia aguda deixa de se fazer presente. A fraternidade universal, a consangüinidade entre todas as coisas, não as impede de se entrechocarem infinitamente, num movimento eterno que ora lembra a luta, ora a dança. Como se vê, trata-se de uma agonia heraclitiana, o que é dizer, uma agonia redimida, exaltada, sacralizada. Em todo caso, nada tem precedência sobre nada. Por fim nos encontramos realmente para além de bem e mal: os valores dos “fracos” seriam aqui tão bem-vindos quanto os dos “fortes”.
A relatividade irredutível de qualquer valor lança a contemporaneidade num impasse inédito. Note-se que a velha expressão “crise de valores” não se presta a descrevê-lo. Não são os “valores estabelecidos” que ora se vêem em xeque, mas a noção mesma de valor. Como orientar nossas escolhas num mundo em que todo e qualquer referencial se desvanece? O problema não se restringe à esfera ética, mas se estende também à estética, à política, à existencial... A enumeração poderia prosseguir longamente.
Em Herberto Helder, não se faz escolhas: abraça-se a totalidade das alternativas com generosidade fraternal. Transportada do plano da arte para o da vida, a equivalência radical (como proposta pela poética helderiana) resolveria o impasse contemporâneo?
Em primeiro lugar, é difícil imaginar como se operaria tal transporte. A vida cotidiana nos confronta com encruzilhadas incontornáveis, e as contingências fatalmente nos obrigam a forjar hierarquias, por mais impermanentes que as saibamos. Na raiz desse dilema, está nossa insuficiência ôntica constitutiva: a Plenitude nos é interdita (sabemos disso desde o Romantismo). Para falar com Deleuze, nossa molaridade é inescapável. Presos a nós mesmos e descridos da Verdade, só nos resta nortear nossas condutas por critérios que sabemos provisórios e insubstanciais (o que resvala na má-fé).
Contudo, e se nos reconciliássemos com a provisoriedade e com a impermanência? E se extraíssemos dessa reconciliação nossa axiologia? Seria essa a chave para atualizar a equivalência radical e convertê-la em diretriz pragmática?
Valores assumidamente provisórios e impermanentes não se prestam à legitimação da violência – e a violência legitimada está nos fundamentos da civilização. O cumprimento da Lei só se assegura mediante a violência: contra nossos próprios impulsos egoístas; contra o egoísmo alheio que se traduz em crime. Por que cercear nossa própria liberdade em nome de valores insubstanciais? Como fazê-lo em relação à liberdade alheia? Sobretudo, como lidar com a insubstancialidade do próprio relativismo enquanto valor, se ele se nega no momento mesmo em que pretende se afirmar como tal?
Com efeito, se a poética de Herberto Helder afirma a equivalência radical como valor, só pode fazê-lo negando-a paradoxalmente. Afirma-a em detrimento das opções em contrário, isto é, valoriza-a e, implicitamente, desvaloriza o que nela não consista. Da mesma forma, tal poética se fundamenta em determinados valores estéticos, aos quais adere em detrimento de quaisquer outros (como não poderia deixar de ser). Assim sendo, embora proponha a horizontalidade axiológica absoluta, não consegue se furtar à escolha, o que é dizer, à seleção e à exclusão – que se interpõem entre ela e a totalidade a que aspira.