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domingo, maio 30, 2004

Conjunção cósmica! Adivinhem qual é o destaque da edição de hoje do Caderno Mais? Ninguém menos que: Gilles Deleuze!!! O universo está nos mandando uma mensagem! Ou então é o próprio Deleuze se comunicando do além! Ainda não li a reportagem, mas vi que estão lançando um DVD com uma entrevista de mais de SETE horas com o homem! Isso não é entrevista; isso é um desrespeito aos direitos humanos! "Escândalo em Abu Graib! Soldados americanos forçam prisioneiros a assistir sete horas de Deleuze!"

sábado, maio 29, 2004

Ôpa! Só agora vi a mensagem inaugural do Eduardo postada lá embaixo! Muito embora ela tenha sido postada oficialmente antes da minha... Eu não entendo a lógica deste Blogger. O link "comments", por exemplo, apesar de todos os meus esforços, até hoje não deu as caras...

Bom, mas o importante é que mais um colega conseguiu efetuar seu ingresso no Blog, depois de um longo e tenebroso inverno. O Eduardo, para quem não sabe, é um ex-estudante de filosofia que, recentemente, transferiu seu curso para a FALE (não sabia onde estava entrando, coitado). Seja bem-vindo, Eduardo. Sua chegada só vem provar que as dificuldades técnicas não abolirão jamais o Hasard. Agora, por caridade, socorra-nos desta selva rizômica onde o Pedro nos atirou!

Esse Matheus fica queimando o filme dos outros só porque não dá para fazer apelido com o nome dele. Eu sabia que o "Rafito" ia suscitar algum comentário engraçadinho. Estava aqui só esperando. Só podia vir do André mesmo. Ia até dizer que o meu próximo comentário era para entrar para os anais do Lit. e Afins, mas desisti por motivos óbvios.

O comentário é acerca da aula de hoje do Pedro, que foi sobre "Rizoma", de Deleuze e Guatarri. Na verdade, são dois. O primeiro é menos um comentário do que uma manifestação de indignação diante do pagamento de pau, por assim dizer, do nosso colega Eduardo, que nos sonegou seus conhecimentos filosóficos justamente no dia em que mais precisávamos deles.

O segundo é o comentário propriamente dito. Vejam só que ironia: no exato momento em que Deleuze e Guatarri fazem sua crítica ao pensamento binarista-dicotômico, eles mesmos instituem uma dicotomia, qual seja, "Árvore-Raiz" de um lado versus "Rizoma" do outro - dicotomia esta a que não falta sequer o aspecto valorativo, diga-se de passagem. É por isso que eu digo: "Esta vida é um pandeiro!"

quinta-feira, maio 27, 2004

Por acaso, o link "comments" apareceu para alguém? Porque, para mim, nada!

Testando o "comments".

quarta-feira, maio 26, 2004

Olá, companheiros! Este posting é para informá-los sobre um novo recurso deste Blogger que acabo de descobrir e que poderá facilitar a dinâmica de futuras discussões sobre textos específicos. Trata-se do link "comments", que permite (inclusive a não-membros do Blog)fazer comentários acerca de um determinado posting. A vantagem é que os comentários aparecem abaixo do texto a que se referem, o que torna mais fácil relacioná-los ao mesmo. Isso posto, proponho que continuemos a usar o posting convencional para discussões livres, como as que vêm acontecendo até agora, e o link "comments" para comentar sobre textos específicos, postados com essa finalidade. Respondendo à pergunta do André, a próxima reunião de sábado ainda será dedicada ao aperfeiçoamento do programa de estudos. Outra coisa: no meu último posting, esqueci de informar os horários do curso do Pedro e do nosso grupo de estudos, caso os colegas mestrandos decidam participar apesar de seus problemas de tempo (o que representaria uma grande contribuição para ambas as turmas). Lá vai: turma do Pedro - 09:00- 11:30; turma de estudos de poesia - 08:00-09:00 / 11:30-12:30. O segundo módulo do curso do Pedro deve começar em breve, de modo que ainda não é tarde demais. Abraços e até breve.




sábado, maio 22, 2004

Senhores,

Antes de mais nada, vou fazer alguns esclarecimentos, conforme requisitado nos seus últimos postings. Matheus é um camarada de seus 20 e poucos anos, mestrando (oh, inveja) na nossa amada FALE, noivo, fã do Chaves, bom poeta e mau escolhedor de nomes para jornais literários que ameaçam e ameaçam, mas nunca transcendem a famigerada prancheta de planos. Fábio é um colega da Fale, um mísero graduando como eu; se é poeta ou prosador bom ou mau, ainda estamos por descobrir; sabe-se, contudo, que sua antiga militância concretista não o impede de reconhecer as fragilidades dos ex-ídolos, o que faz em ensaios formidáveis como o que foi postado aqui às 19:30:16 da sexta-feira, dia 21 de maio. Gustavo é outro que renega militâncias antigas, só que, no caso dele, de natureza política. Acaba de reingressar na FALE após um período de dois anos (se não me engano) em que esteve trabalhando num jornal no Rio de Janeiro. Trata-se de um indivíduo dotado de invejável carga de leituras, bem como da aguda capacidade de estabelecer relações entre as referências que possui, o que é o mais importante, a meu ver. Conheci os dois últimos num grupo de estudos sobre Teoria Literária organizado pelo Prof. Pedro Dolabella, para o qual fui chamado pelo João Eustáquio. Entusiasmados pela descoberta de interesses em comum, alguns dos membr... digo, participantes desse grupo decidiram criar um outro, para estudo da poesia brasileira, que se reúne uma hora antes e uma hoa depois das aulas do Pedro. Nem considerei a possibilidade de convidar meus colegas mestrandos para tais grupos, porque tenho consciência do grave problema de tempo enfrentado pelos três. Qualquer dia desses, devem aparecer por aqui Kaio, Jairo, Eduardo, Pollyanna e Fernando (se é que não estou me esquecendo de ninguém). Quando - e se - esse dia chegar, faço as devidas apresentações. Entre outras coisas, deixei de falar que o Matheus é orientado pelo monstruoso Murilo Marcondes (oh, inveja dupla, tripla, quádrupla, etc...!!!) Presumo que todos os outros também sejam fãs do Chaves, já que têm me dado provas de que sabem apreciar as coisas boas da vida.

Retomando nosso eterno assunto, concordo com o Fábio quando diz que o autoritarismo dos concretos é um comportamento recorrente na Modernidade. Inclusive, com terríveis repercussões extra-literárias. Na verdade, acho que ele é uma consequência direta de uma certa ilusão moderna: a de que seria possível atingir uma verdade universal e incontestável, a partir da qual seria legítimo passar por cima de toda e qualquer divergência. Vejam o que o Alexei Bueno diz sobre a questão, em entrevista ao Luís Antônio Cajazeira Ramos (não sei se concordo com tudo, mas o texto é divertido e vale, no mínimo, como provocação):

"O manifesto da poesia concreta, também conhecido como o AI-5 da poesia brasileira, foi lançado em 1956, declarando extinto o ciclo histórico do verso. É a mesma declaração de Mussolini nos anos 20 declarando extinto o tempo das democracias fracas. O que é o 'estado forte' para os fascistas é o 'rigor poético' para essas figuras, que jamais o exerceram. Enquanto os fascistas tomavam os sindicatos, os concretistas tomavam as universidades, gordos e felizes, no vácuo de um sem número de intelectuais presos ou exilados. O horror dos primeiros pela liberdade é o mesmo dos outros pelo indivíduo. Enquanto os fascistas surravam, davam purgantes ou matavam, esses tentam desmoralizar ou desempregar, através dos órgãos de imprensa que controlam. Como seita, criaram uma ficção genealógica e manias-senhas, compartilhadas por todos os seus asseclas. Ao se falar de cinema brasileiro, citarão Júlio Bressane. De Romantismo brasileiro, Sousândrade. De Modernismo, Oswald de Andrade. De música popular, Caetano Veloso. Qualquer outra citação seria heterodoxia ou blasfêmia. O mais curioso é declarar extinto o 'ciclo histórico do verso' em 1956, quando em 1951 foi lançado Claro enigma, em 1952 a Invenção de Orfeu, em 1953 o Romanceiro da Inconfidência, etc., ou seja, não depois de qualquer estagnação do verso, mas num óbvio apogeu. Além de tudo, são os responsáveis pela má ou nula divulgação no Brasil de uma série de poetas admiráveis fora do eixo Rio-São Paulo, muitos deles no Nordeste, enquanto os epígonos mais ordinários das mesmas correntes - metástases malcheirosas de um notório câncer obeso - são arremessados por todo o país."

Também estou de acordo que o calcanhar de Aquiles dos concretos "não reside na poesia em si", mas sim, como já disse e repeti, no paradigma crítico intolerante perpetuado por eles. O que nos conduz a um ponto crucial, indicado por você, Matheus. Você aponta a contradição de uma proposta que se pretende irrestritamente tolerante, mas se recusa a aceitar a intolerância ela mesma. O que eu acho é o seguinte: diante da impossibilidade de se fixar um critério valorativo absoluto, toda e qualquer estética deve ser tolerada. O mesmo não vale para toda e qualquer crítica. Para a crítica, há um critério valorativo passível de ser absolutamente fixado: a tolerância. Dizer que "o sujeito tem o direito de fazer uma má crítica se ele assim quiser", desde que se entenda "má crítica" por "crítica intolerante", é como defender o direito ao racismo. O limite da tolerância é a própria intolerância; esta não poderá ser tolerada nunca, sob pena de implodir-se o princípio da não-contradição, fazendo com que o cadáver de Parmênides se revolva dentro de seu túmulo. Por outro lado, é possível tentar viabilizar o projeto de uma crítica tolerante de uma maneira mais pró-ativa do que simplesmente tentando concretizá-lo em nossa própria produção crítica pessoal, qual seja, afirmando-o reiteradamente, defendendo-o com argumentos e desenvolvendo-o sob a forma de conceitos, em discussões como esta. E trata-se de uma coisa urgente, porque pode até ser verdade que "ninguém deixa de (...) fazer boa poesia porque fulano ou beltrano falou mal dele no Mais! ou na Cult", mas muita gente deixa de ler boa poesia por causa disso.

O preconceito contra a poesia metrificada e rimada está tão vivo quanto o cachorro do nosso debate, e pode ser identificado em "camaradas" do mais alto gabarito - apesar da guinada clássica de Claro Enigma e tudo o mais. Acho inegável a existência de uma presunção tácita de que o Modernismo e seus sucessores estão num patamar de qualidade superior a tudo que veio antes, principlamente o Parnasianismo. E quem retoma metro e rima nos dias de hoje é taxado de passadista, prolixo, verboso, discursivo e, é claro, parnasiano, bem como todos os demais palavrões do arsenal minimalista-pós-cabralino. Mesmo que logre algum sucesso de público, até porque, como você bem exemplifica com o Concurso do Vinicius de Moraes, a aversão à estética pré-modernista nunca chegou a extrapolar os círculos mais eruditos. E você me entendeu mal: não acho em absoluto que a descrença na tradição tenda a se fortalecer. Pelo contrário, acho que ela tem se enfraquecido sensivelmente nos últimos tempos, e pretendo contribuir para esse processo de todas as formas que puder.

No mais, agradeço pelos vário trechos lisongeiros da sua última mensagem.

sexta-feira, maio 21, 2004

Seja bem-vindo, cabeludo colega. Estamos à espera dos seus veneráveis pitacos.

Agora, voltando à vaca fria (ou ao cachorro morto(?), como queiram): você, Matheus, tem toda a razão quando diz que "o que o modernismo deixou de interessante e produtivo (...) é a abertura de campo à produção literária que não existia antes dele". Se "o que havia de autoritário em suas propostas 'libertárias' ficou no tempo", já não tenho tanta certeza. A possibilidade, instarurada pela "revolução", de se fazer literatura de uma determinada maneira, antes proibida, terminou por implicar a impossibilidade (oficial, é claro) de se fazer literatura de qualquer outra maneira, especialmente da maneira como se vinha fazendo até então. E essa atitude preconceituosa não foi superada pelas revisões de 30 e 45, mas sobreviveu e se perpetuou, transformando-se em verdadeiro ponto pacífico acadêmico e crítico. Repare como, desde a consolidação do Modernismo até os dias de hoje, o adjetivo "parnasiano" nunca deixou de ser um palavrão. Digo isso literalmente: não é incomum topar com resenhas críticas em que se acusa (e o termo é esse) determinada obra de "parnasianismo". A própria crítica que se começa a fazer atualmente ao Concretismo, por vezes, o aproxima do condenável formalismo "parnasiano".

Ao longo do século, cristalizou-se a noção de que a literatura séria começa no Modernismo, e o que se salva em períodos anteriores são justamente aquelas obras excepcionais em que, de um modo ou de outro, já se entrevê algum tipo de "modernidade avant la lètre". E quem não reconhece nessa idéia uma manifestação da ideologia do progresso, tipicamente moderna, da qual também provém a concepção concretista de história literária mencionada alguns postings atrás? Não, meu caro: infelizmente, o cachorro está bem vivo, ladrando e mordendo os outros por aí. A obviedade da obrigação de "deixar sobretudo falar a obra que está sendo analisada (...) sem usá-la como pretexto para a confirmação ou a demolição de uma idéia" não a impede de ser negligenciada por uma parcela vultuosa da produção crítica atualmente veiculada na academia, em suplementos literários e em publicações especializadas. Daí o caráter imperioso da "batalha" por uma crítica lúcida e livre de pré-noções.

Quanto à possibilidade ou não de uma consumação plena de tal proposta, penso o seguinte: em primeiro lugar, uma utópica auto-anulação integral não seria necessária para levá-la a cabo. Sim, "estamos sempre vinculados (...) a um tipo de abordagem do material literário" - pelo menos no momento específico em que abordamos tal material - mas não a uma determinada ideologia, seja ela estética, existencial, etc. Calma: não sugiro que seja possível prescindir de toda e qualquer ideologia, abordando a obra a partir de uma perspectiva puramente externa e objetiva. Nossa ideologia, mais do que os óculos através dos quais olhamos para as coisas, são os próprios olhos com que as enxergamos, parte fisiológica de nosso aparato conoscente e condição mesma de qualquer conhecimento. Entretanto, tão ingênua quanto o objetivismo é a pressuposição de que, a cada indivíduo, corresponde uma única ideologia específica, a "sua", como que inscrita a priori no mámore da sua personalidade. Se fosse assim, não teria sido possível ao Antonio Candido afirmar que, quando critica um romance naturalista, torna-se darwinista; quando critica uma obra sócio-realista, torna-se marxista; etc. Esse princípio, ampliado às esferas estética, existencial, filosófica e quantas mais, constitui a operação central da "minha" proposta crítica: a substituição momentânea da ideologia do analista pela que se manifesta no texto analisado.

É claro que, para substituir sua própria ideologia pela do texto, o analista precisará, antes, identificar a ideolgia do texto, o que sempre será feito a partir de um determinado ponto de vista. Entretanto, por mais precariamente que se dê a substituição, eu tendo a acreditar que o que quer que dela advenha já será melhor que rechaçar ou entronizar obras literárias de maneira automática e sistemática, unicamente em função da presença ou da ausência de determinados valores.

quinta-feira, maio 20, 2004

Cavalheiros,
Com efeito, a palavra "membros", nas mãos do André (esse samurai do trocadilho), converte-se numa arma potencialmente mortífera. Não sei onde eu estava com a cabeça quando a empreguei em mensagem a ele. Repondendo à pergunta dele, o programa de estudos de poesia está em permanente metamorfose. Uma das coisas que ficaram decididas, entretanto, é que só planejaremos a segunda parte do "curso" depois de concluírmos a primeira, o que nos permitirá começar a estudar o quanto antes. Além disso, a experiência acumulada certamente nos ajudará a elaborar um plano mais adequado. No mais, o Gustavo já estabeleceu mais alguns textos críticos e poéticos que ainda estavam por ser definidos. Estou elaborando antologias suscintas de Bandeira, Drummond, Mário e Murilo Mendes para contrastar com as dele e chegar a uma versão final. Quem quiser participar desse processo nos encontrará na FALE, aos sábados, às 08:00. Quanto mais gente vier, melhor. Acho que, no pé em que a coisa está, ainda não vale a pena postar uma versão virtual do programa aqui.

Agora, quanto ao encucamento do Matheus. Primeiramente, gostaria de colocar em questão o vínculo estabelecido entre os modernistas e "uma produção livre das amarras de programas". Apesar da pretensão modernista a uma poética espontânea e independente de programas, expressa, por exemplo, no "Prefácio Interessantíssimo" (aliás, um programa dos mais programáticos - e esse paradoxo, por si só, dá a medida de quão furado era aquele espontaneísmo e quão ingênua aquela pretensão), é difícil pensar num movimento literário que tenha produzido tantos manifestos quanto o Modernismo. Com exceção, é claro, das vanguardas subsequentes, mas isso apenas demonstra que também a herança modernista não foi a legitimação da diversidade; muito antes pelo contrário. O arrefecimento do impulso modernista ensejou o advento de uma geração cuja visão da literatura era extremamente estreita e seletiva, para não dizer excludente, intolerante, autoritária. Ou seja, um pessoal completamente avesso à diversidade. Por isso, não acho possível falar em legitimação da mesma a partir do Modernismo. Pelo contrário, acho que essa legitimação ainda está por se consumar, e cabe a nós fazê-lo. Garanto que a ingenuidade da intolerância não é assim tão evidente quanto parece ao Matheus, a mim e a muitos de nossos colegas. Definitivamente, trata-se de um cachorro bastante vivo, que ainda merece muitos chutes e cotoveladas.

Na verdade, a violência dessa metáfora não traduz bem o espírito da tarefa a que me referi. Pois não se trata de "combater" a vanguarda e nem de "demonstrar a falibilidade" desta ou daquela proposta, mas sim de tolerar irrestritamente. E o que significa isso em termos práticos? Significa que, ao examinar determinada obra literária, o crítico não a avaliará orientando-se por valores estéticos e/ou ideológicos pré-determinados, supostamente absolutos e universais, mas sim tentará compreendê-la pelo que ela é, perguntando-se pelo universo de valores em que ela se inscreve e em que sua composição se fundamenta. Significa, em última instância, abandonar o juízo de valor em favor da análise. E qual a alternativa a isso, diante da comprovada impossibilidade de estabelecer-se um critério de avaliação absoluto e universal, isto é, sem incorrer em arbitrariedade ou ingenuidade? Tal como aconteceu com o antigo calcanhar de Aquiles da pretensa "Ciência da Literatura": a questão do método (que, uma vez superada, permitiu o surgimento da "Teoria da Literatura"), a questão da valoração deve "deixar de ser um problema". Isso para parafrasear o nosso brilhante Prof. Pedro Dolabella.

Espero que a coisa tenha ficado mais fácil de se visualizar. Caso contrário, mandem novas mensagens apontando os pontos obscuros. Abraços.

terça-feira, maio 18, 2004

Paulo Valério... Quanta falta de noção, meu Deus. Já viu o "Livro dos Nossos Filhos", uma enciclopédia pré-histórica que traz resumos de clássicos da literatura? Trata-se de um tesouro de nomes de autores traduzidos. É lá que se encontra o campeão deles todos, a meu ver: o grande Guilherme Shakespeare, acompanhado de ninguém menos que Jônatas Swift, Henriqueta Breecher Stowe (autora da "Cabana do Pai Tomás"), Joaquim Rossini (xará do Lacan), Frederico Schiller (xará do Nietzsche), Carlos Dickens, Téofilo Gautier e - o mais surpreendente - Mark Twain! Depois disso tudo, só o Mark Twain os desgraçados não traduzem, sabe-se lá por que! Vai entender esse povo doido.

Mas você tem razão: o texto do Hansen tem mesmo alguns méritos inegáveis. Para além de qualquer polêmica, é simplesmente muito divertido assistir à deflação do Gregório "Herói Nacional Bahiano", esse gênio romântico erigido às custas de tanta instrumentalização ideológica. E os exageros do sincronismo têm que ser tolhidos, sim. Por outro lado, considero a vinculação genealógica (por assim dizer) do Barroco às vanguardas do séc. XX (ademais, levada a cabo pela primeira vez não por manifestistas como os Fields, mas sim por poetas modernistas como Frederico Garcia Lorca) uma constatação fundamental para a compreensão da literatura na Era Moderna.

Minha leitura sobre a compreensão renascentista da "Poética" é também bastante limitada, mas tenho a impressão de que a sua "tendência a encarar os tratados como propagadores da imitatio" tem fundamento. O que sei é que os tratadistas que sistematizaram a estética barroca no séc. XVII não enxergavam nela uma ruptura com o cânone classicista. Na verdade, eles se queriam mais clássicos do que os próprios clássicos, herdeiros dos valores da Renascença e seus continuadores, daí insistirem em defender a mímesis como finalidade da literatura e da arte. Entretanto, é importante perceber que isso se dava no plano da teoria. Na prática, a produção poética barroca dava claros sinais de que se havia operado uma transformação profunda na relação entre linguagem e mundo. Sem que os tratados dessem conta disto, já não se supunha mais um vínculo apriorístico e necessário entre palavra e coisa. Descobrira-se a maleabilidade da linguagem, isto é, a possibilidade de explorá-la artisticamente para além dos limites da representação mimética mais estrita. É o que se pode depreender das construções sintaticamente retorcidas dos textos barrocos; do aproveitamento estético do sofisma, que constitui o "conceito" agudo; da adjetivação altamente inusitada e inconcebível num regime clássico autêntico, em que a "água" é sempre "fria" e a "pedra" é sempre "dura"; etc. Todos esses procedimentos apontam para a então recém-descoberta autonomia da linguagem em relação à realidade. Descobrira-se o oxímoro. E, mais do que o oxímoro, a fusão de campos semânticos totalmente distintos, operação que produziu imagens como "Maio errante de sortidas cores", "Íris parlero, Abril organizado", etc. Se elevarmos esse afastamento do referente à sua enésima potência, chegaremos aos experimentos mais radicais do século passado, todos eles devedores daquelas primeiras liberdades que os barrocos, inconscientemente, tomaram em relação à mímesis enquanto valor artístico. É por isso que não acho a presença de Gregório de Mattos no Paideuma concreto tão absurda quanto o João Adolfo Hansen.

No mais, quem tem que agradecer pelo debate constante sou eu - e aproveito para exultar os demais colegas a tomarem parte nele. Abraços.

segunda-feira, maio 17, 2004

André,

"Hanseníase" foi demais! Cada vez me convenço mais de que a grande contribuição deste Blogger para a cultura ocidental será o registro para a posteridade de trocadilhos como esse! Você tem é que registrar esses negócios em cartório antes que alguém te plagie.

Eu não diria que o texto do Hansen me provoca "repúdio". Acho útil e saudável ressaltar a dimensão histórica do Barroco, impondo o freio da lucidez ao entusiasmo exagerado de algumas leituras sincronistas. Acho mesmo que manter em mente o aspecto contextual de um determinado texto é uma atitude imprescindível a qualquer análise que não se queira deformante. Entretanto, afirmar que a estética barroca tinha como única diretriz a imitatio aristotélica é confiar demais na visão necessariamente limitada e parcial que uma época tem sobre si mesma. É verdade que os tratados poéticos seiscentistas seguiam afirmando a mimesis como valor absoluto da criação artística. Contudo, o exame da produção poética contemporânea a esses mesmos tratados, aparelhado com todos os instrumentos acumulados ao longo dos quatro séculos que nos separam deles, conduz a uma conclusão diametralmente oposta. Quero desenvolver essa afirmação em postings futuros. Por enquanto, limito-me a tentar contestar (na minha arrogância quase concretista) um argumento que me parece capenga no texto do Hansen. Ele compara a imporância do sujeito para a criação literária durante o Barroco, o Romantismo e o Modernismo, chegando à óbvia conclusão de que era menor no Barroco. Ora, se partirmos da premissa (rejeitada por Hansen) de que o papel do sujeito começou a ganhar importância durante a vigência do Barroco e que esse processo apenas se intensificou ao longo da Modernidade, não seríamos forçados a conclusão idêntica? É simplesmente lógico presumir que as características de um determinado processo sejam menos intensas no início do que no fim do mesmo, é ou não é?

domingo, maio 16, 2004

André,
A morte do Haroldo é recente; ainda podemos “cotovelá-lo” um pouco! Você se pergunta pela razão dessa hostilidade. Fico pensando o seguinte: por mais que as vanguardas sejam (ou tenham sido) um fenômeno internacional, é difícil pensar em alguma figura estrangeira que encarne em si, de forma tão acabada quanto os Irmãos, os aspectos mais antipáticos desse fenômeno. Os Irmãos e o agregado, é claro. Talvez isso se deva à militância incansável a que os três se entregaram desde o início da coisa, aproveitando cada oportunidade para manifestar bombasticamente o quanto eles eram o supra-sumo da Literatura Ocidental, e que tudo que fora feito até então (tudo de “bom” e de “importante”, obviamente) não passava de estágios intermediários conduzindo àquela hiperculminação definitiva: eles mesmos. É a crença no “triunfante fim”, como você bem coloca. Acho que essa arrogância de atitude dos concretistas irritou e irrita mais do que a Poesia Concreta em si, com todas as suas rupturas, detonações e estilhaçamentos.

Estou começando a me repetir, mas, para mim, o grande problema é o aspecto valorativo, a crítica intolerante mais do que o “esfacelamento do verso”. Temos que concordar que o Concretismo e demais vanguardas de meados do séc. XX representam, de fato, uma espécie de “ponto de chegada” para um movimento de autonomização e auto-centramento da linguagem poética, iniciado, talvez, no Barroco (daí Gregório de Mattos). As figuras de proa desse movimento compõem o Paideuma concreto, e identificá-las não deixa de constituir uma contribuição interessante, como você ressalta. Nesse sentido, a “noção linear dos valores estéticos” tem alguma lógica: a dissolução do referente progride linearmente ao longo da Era Moderna e culmina na “linguagem explodida” do experimentalismo recente. O que não tem lógica alguma é atribuir a tais valores o caráter de “verdade única”, como pretendem tantos manifestos e planos-piloto. A partir dessa atribuição, encontra-se justificado o conceito reducionista de “presente” que entroniza o experimental e afirma que “todo o resto contemporâneo é ultrapassado, é ‘couraça medieval’, é realismo ingênuo”. É evidente que a poesia de Drummond é mais discursiva que a de José Lino Grünnewald. Entretanto, a partir dessa constatação, será legítimo afirmar a precedência do segundo sobre o primeiro, em termos de qualidade e de valor artístico? Excluindo-se o mais estrito voluntarismo, não me parece haver nada que nos conduza a uma reposta afirmativa para essa pergunta.

sábado, maio 15, 2004

Aleluia! Agora, se não me engano, só faltam mais cinco futuros membros. Bom saber que o Blogger é desprovido de preconceitos étnicos. Só que o negócio é o seguinte: e o seu respectivo pitaco com relação à corrente "contenda"? Essa pergunta vale também para o Gustavo - e, claro, para quantos forem conseguindo consumar suas entradas no Lit. e Afins.

sexta-feira, maio 14, 2004

Caro Anselmo,
Agradeço pela parte dos elogios que me toca. Concordo com você quanto à seriedade e ao nível dos nossos colegas. Já a questão da adesão me preocupa um pouco. Tenho a impressão de que alguns dos convidados estão tendo problemas técnicos para consumar sua entrada no Blog, semelhantes aos que o Gustavo enfrentou a princípio. De qualquer forma, amanhã, na aula do Pedro, esse assunto será esclarecido, e talvez alguma providência possa ser tomada.

Retomando a referida “contenda” e respondendo à sua pergunta, acho que o destino da vanguarda é, sim, transformar-se em clássico – no mínimo, no sentido institucional do termo, isto é, exatamente da maneira como você descreveu: integrando-se à anterioridade que ela, inicialmente, combatia. Trata-se da boa e velha (mais velha que boa, a meu ver) “tradição da ruptura”, motivada pela “pequena ilusão temporal” a que você se refere. Só não acredito que a separação entre joio e trigo possa acontecer “naturalmente”, ou melhor, temo o convite à passividade, por assim dizer, que essa crença enseja. Cabe a nós estabelecer conscientemente os critérios para tal separação, bem como levá-la a cabo de maneira pró-ativa. Entretanto, o mais importante de tudo é fazê-lo de modo a não recair na ingenuidade absolutista de nossos predecessores modernos. Isso significa que, a partir de agora, não será rejeitada esta ou aquela estética porque “ultrapassada”, nem tampouco esta ou aquela ideologia porque “perversa” ou o que o valha. Repare que, em nenhum momento, minha objeção à vanguarda se dirige à sua produção literária ou aos princípios por que esta se pauta, mas sim à atitude autoritária com que a crítica vanguardista decreta a invalidade de tudo quanto não seja espelho de seus credos. Essa atitude é que deve ser o “joio” do nosso tempo. É dela que devemos nos livrar de uma vez por todas, pondo fim ao ciclo vicioso da “tradição da ruptura” e, junto com ele, à Modernidade.

“É um abuso a autoproclamação das vanguardas, ao desvalorizarem automaticamente toda sua anterioridade.” – De fato. Contudo, abuso maior encontramos na raiz do próprio conceito vanguardístico de “anterioridade”. A vanguarda coroa a si mesma como representante por excelência de seu momento presente. Tudo o mais que se produza contemporaneamente a ela é rechaçado sob a acusação de “passadismo”. Essa prática intolerante se fundamenta na seguinte falácia formalista: o advento de um novo proceder estético acarreta a “ultrapassagem” de todos os demais, em outras palavras: quando se avança um passo no movimento de auto-centramento da linguagem, tudo o que vinha sendo feito até então (e que continua a ser feito, veja bem) torna-se, imediatamente, “ultrapassado”. Todo julgamento valorativo da vanguarda remonta ao seguinte princípio: quanto mais experimental, quanto mais auto-referencial o uso da linguagem, melhor. Para reconhecer a necessidade de um novo paradigma crítico para a contemporaneidade, basta constatar a arbitrariedade flagrante de tal equação.

terça-feira, maio 11, 2004

A.S.: A primeira metade deste posting é destinada ao Dr. Matheus e aos demais colegas que queiram contribuir para o debate sobre vanguardas. A segunda se dirige ao recém-chegado Gustavo. Claro que isso não significa que ninguém mais pode ler, já que todas as mensagens postadas aqui têm caráter público. Digo isso só para evitar mal-entendidos.

Matheus,
Você chama atenção para um aspecto especialmente caricato do cânone experimentalista: a grotesca desproporção entre teoria e prática que se verifica em suas obras. Entretanto, para mim, mais ingênua (e mais condenável) que esse desequilíbrio (que, ademais, parece caracterizar não as vanguardas em geral, mas uma específica, i.e. a de meados do século XX, refratada em Concretismo, Poesia Práxis, Grupo Tendência, etc.), é a noção de que certas opções estéticas (e, por vezes, ideológicas) são absolutamente certas e boas -e que, por conseguinte, todas as opções alternativas são absolutamente erradas e más. A arbitrariedade e, o que é pior, o autoritarismo de tal raciocínio me causam muito mais mal-estar do que o eventual descompasso entre projetos faraônicos e suas realizações bem mais modestas. Concordo que o tempo possua propriedades seletivas implacáveis. Porém, se paro para pensar, chego à conclusão de que “o tempo”, na prática, somos nós. Nesse sentido, acho cabível tomar a demolição dos preconceitos modernos como nossa tarefa. Pois não será possível pensar essa mesma tarefa como sendo a própria expressão concreta (com o perdão do trocadilho) do nosso tempo?

Gustavo,
Fico feliz que você finalmente tenha conseguido “se juntar aos bons” aqui no nosso Blogger. Estamos todos aqui só na expectativa do seu prometido texto. Bom, nem todos: ainda falta chegar bastante gente. Só espero que eles não tenham voltado a ter problemas com o cadastro. Gostei bastante do seu roteiro para o grupo de estudos; achei-o bem abrangente e “completo”, se é que essa palavra se aplica. Provavelmente amanhã, postarei uma versão modificada dele, acrescida dos meus pitacos. Aos poucos, vamos chegando a uma versão definitiva. No mais, enquanto o texto sobre o Oswald não chega, seria ótimo se você contribuísse para o debate ora em curso, a bem da verdade, iniciado no seu próprio quarto, algumas semanas atrás! Até a próxima.

Concordo que certa arrogância deva ser perdoada à vã guarda (reparem como, certos trocadilhos infames, apenas a língua escrita nos permite fazer). Afinal de contas, como já dizia o grande Murilo, a sabedoria não faz parte do universo de valores das vanguardas, e é a partir desse universo que elas desempenham sua função específica. Porém, o que eu fico me perguntando é o seguinte: será que, após cinco séculos de Era Moderna, essa função já não se tornou obsoleta? Uma coisa é compreender a petulância de certos movimentos artísticos inseridos em seus devidos contextos. Outra é seguir tolerando o aspecto valorativo-excludente do discurso vanguardístico: "eu = bom / não-eu = ruim". Isso é o que realmente me incomoda quando penso em vanguardas, e o repúdio a esse tipo de atitude me parece ser a grande tarefa da contemporaneidade.

segunda-feira, maio 10, 2004

Anselmo,
“No princípio era a vanguarda” foi boa. Escolhi este soneto justamente porque tem tudo a ver com o que estávamos discutindo no outro dia, sobre a chamada “tradição da ruptura” e que tais. A “língua barda” é a forma que toma, neste poema, algo que quase poderíamos chamar de uma convenção dos sonetos do Glauco Matoso. Um bom número deles segue um esquema parecido com o deste: desenvolve um tema “sério” nas três primeiras estrofes e, no terceto final, avacalha tudo, caindo no deboche. A coisa sempre se resolve por uma piadinha envolvendo podolatria, a tara confessa do poeta. Não sei se poderíamos classificar esse procedimento como non sequitur. O fato é que, no fim, ele sempre dá um jeito de enfiar podolatria na coisa – “enfiar” no mau sentido mesmo, é claro.

domingo, maio 09, 2004

Olá, camaradas! Bom saber que vocês se cadastraram sem problemas. E, enquanto os outros não chegam, só para matar o tempo, vejam só este sonetinho do admirável Glauco Matoso (não sei se já conhecem):


43 VANGUARDISTA

Vanguarda é classicismo, e a prova disso
está nos manifestos: em que pese
o mau comportamento, viram tese,
tratados como o texto mais castiço.

Não nego que elas prestam bom serviço,
mostrando algo de novo que se preze.
O mal é quando espalham catequese,
querendo impor que o resto está cediço.

Aqui nem há razão pra que me queixe:
Quer seja ou não vanguarda ou velha guarda,
não deixo de vender meu mixo peixe.

Não viso academia, chá nem farda;
só peço a cada membro que me deixe
lamber seu pé com minha língua barda...

sexta-feira, maio 07, 2004

Atenção, pessoas: a seguir, o procedimento de inclusão no Blogger segundo as sábias palavras de Matheus:

"Acabei de me registrar e o procedimento é o seguinte: o convite vem acompanhado de um link que o sujeito precisa clicar para entrar no Blogger. Caso o link venha quebrado na página, ele deve copiá-lo e colá-lo na barra de endereços do explorer. Uma nova janela
vai se abrir, perguntado se vc já tem uma conta no
site. Caso não (que parece ser o caso de todos), vc
clica nesse link e outra janela se abrirá, pedindo para
que vc invente um login, um password e preencha alguns
dados como nome e sobrenome. Feito isso, vc já cai na
janela do Blogger e escolha se vc quer entrar no
Literatura e afins. Entrei e postei testando, como vc
tinha pedido."


quarta-feira, maio 05, 2004

Olá, pessoal! É o seguinte: a partir de agora, dispomos deste espaço para troca de idéias sobre literatura, crítica e teoria da mesma. Acho que, com o tempo, a coisa desenvolverá uma dinâmica própria, mas, só para começar, talvez seja interessante adotarmos o seguinte procedimento: alguém posta um determinado texto, de sua autoria ou não, sobre o qual gostaria de discutir (o tamanho do texto será ditado pelo bom-senso do postante). A seguir, os outros vão postando seus comentários, etc. Na verdade, a mensagem inicial não precisa nem ser um texto no sentido tradicional do termo. Pode ser simplesmente uma idéia esboçada em linhas gerais ou coisa que o valha. O que acham? Também seria bom que cada um que completasse o processo de inclusão no Blog postasse uma mensagem, confirmando a própria entrada.

Outra coisa: Penso que este Blog deveria se rebatizado e agradeceria sugestões nesse sentido (menos de um certo camarada chamado Matheus, que não entende nada de nome). Até mais.

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