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quinta-feira, março 01, 2007

O Autoritarismo da Razão 

Acontece, em O Labirinto do Fauno, algo semelhante ao que se passa em Match Point. Este, a princípio, parece um drama romântico ou uma crônica de costumes. Contudo, uma guinada súbita o transforma num filme sem gênero. O Labirinto é ainda mais surpreendente. Desde as primeiras cenas, não sabemos em que categoria situá-lo. Trata-se de um conto de fadas, de uma narrativa mítica? Ou, pelo contrário, de um drama histórico de forte matiz realista-naturalista? Ambas as coisas e nenhuma delas. O espectador não sabe o que pensar do que está vendo. Não conta com um horizonte pré-dado de expectativas de gênero, que o auxilie não apenas a prever o curso da trama, mas também a avaliar e a produzir sentido a partir do que vê. Tudo pode acontecer; todos os sentido são possíveis.

Esse efeito interessante se obtém sobretudo pelo modo sui generis (literalmente) como os dois planos da narrativa se articulam. Não há hierarquia entre eles. A fábula não é alegoria da história; a história não é mera circunstância da fábula. Ambas têm importância central. Os planos narrativos não se inserem um no outro; antes transcorrem rigorosamente paralelos. Trata-se, a princípio, de duas realidades, duas séries de eventos que nada têm que ver uma com a outra, e as eventuais intersecções entre elas se devem a meras coincidências. A alternância entre os fatos, núcleos dramáticos, preocupações temáticas e tonalidades narrativas próprias a cada série não se dá de modo a que uma se subordine à outra, adquirindo nesta uma funcionalidade qualquer. Tendo Ofélia por fio condutor, as séries se dispõem contiguamente uma em relação à outra, compondo assim um mesmo patamar.

Dessa forma, a dualidade do filme é ilusória. Tudo se dá numa mesma realidade (a única), num mesmo plano. O que se narra é a estória de Ofélia. Essa estória se desenrola no mundo real, com toda a sua carnalidade histórica – o que, entretanto, não a impede de se sediar também em instâncias do Real não previstas pelo chamado “realismo”. O Fantástico não se opõe ao realismo, mas o complementa, iluminando suas lacunas. Ao contrário do que se pode pensar, o mítico, no filme, é ponte para o Real, e não via de escape do mesmo. Do contrário, Ofélia seria uma covarde, e não a heroína que é. Seu heroísmo se revela em seu inconformismo e em sua disposição para o sacrifício, que a aproximam dos rebeldes anti-franquistas. Outro pilar dessa aproximação é a inventividade. Criativos e imaginativos, Ofélia e rebeldes se opõem ao verdadeiro antagonista da estória: o autoritarismo da razão.

Em O Labirinto do Fauno, não há alteridade radical entre magia e vida cotidiana. O feitiço da mandrágora cura a mãe de Ofélia; o giz mágico a ajuda a escapar do Capitão. Ou seja: o sobrenatural atua efetivamente sobre o natural. Assim, o mundo fantástico em que Ofélia se introduz não pode ser visto como uma esfera absolutamente transcendente, a que se possa recorrer por escapismo. Aventurando-se em tal mundo, a menina não busca escapar ao Real, e sim em direção a ele. Isso porque (assim como a Espanha) se vê refém de um regime castrador e desrealizante. O mundo desmesuradamente comedido em que lhe é dado viver extirpa ao Real a sua imprescindível parcela de Caos e Outridade, componentes sem os quais não pode ser completo e não é digno do próprio nome. Desmesurado, o impulso ordenador se resolve em monstruosidade. Vide o Capitão Vidal.

Seria muito fácil fazer de um militar fascista e sádico um vilão bidimensional desprovido de maior interesse. O Capitão Vidal, pelo contrário, é um personagem dos mais intrigantes. Sua finalidade é erradicar o Outro. O que o investe dessa missão sagrada é a sua própria força em relação aos inimigos – qual seja a força da Ordem, da hierarquia e da disciplina. Para o Capitão, o homem, a sociedade, a nação compõem juntos uma máquina de cujo bom funcionamento incumbe-lhe se assegurar. O militar é o relojoeiro do mundo. Se lança mão da violência mais extrema, é para re-estruturar o que se desorganizou. No entanto, o Capitão é mais do que isso. É também alguém em dívida com um legado paterno com que desenvolve uma relação conflituosa. E é, sobretudo, alguém que quer morrer.

O campo de batalha em que se encontra deveria servir ao Capitão de palco para uma morte gloriosa e meticulosamente calculada. Contudo, isso não ocorre, assim como não funcionam os planos dos militares para sufocar a resistência anti-franquista. O fracasso de tais projetos diz da transcendência do Real em relação aos diagramas geométricos a que o tenta reduzir o autoritarismo da razão. É justamente nessa zona transcendente do Real que Ofélia se insinua, ao descobrir o Labirinto do Fauno. É significativo que comece a fazê-lo ao se desviar da estrada (rasgada na mata pelos homens) e penetrar na floresta, domínio do Mistério e do Não-Humano. Mais significativo ainda é que a sua jornada pela Alteridade (que só pode culminar na morte) termine por a conduzir a ela mesma, à sua própria ascendência subtérrea e sobrenatural. Mergulhando no Outro, atinge o cerne do próprio ser.

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