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domingo, julho 11, 2004

Saudações!
Como o Nietzsche parece monopolizar nossas atenções ultimamente (além do futuro grupo de estudos, três de nós - eu incluso - andamos fazendo trabalhos sobre ele), seguem algumas reflexões ligeiras acerca do mesmo, só para quebrar a monotonia deste momento "reta final" do semestre. É o meu trabalho final para a disciplina "A Noção de Sujeito na Filosofia Alemã". Desçam a lenha. No mínimo, pode servir como prólogo para certa tempestade que se avoluma furtivamente, enquanto estamos todos distraídos. Qualquer dúvida sobre esse último comentário enigmático, perguntem ao Fábio...

Nietzsche e a Linguagem

Friedrich Wilhelm Nietzsche foi talvez a primeira voz, na filosofia ocidental, a chamar atenção para o caráter ativo da linguagem enquanto condicionadora do pensamento. Em “Jenseits von Gut und Böse” (§ 20), Nietzsche defende a noção de que as construções lingüísticas constituem um fator estruturante decisivo para a configuração das idéias que expressam, chegando a atribuir a ênfase dada pelos filósofos do Ocidente ao Sujeito ao papel de destaque que este desempenha, como função gramatical, nos sistemas lingüísticos de raiz indo-européia. A partir de reflexões como essa, Nietzsche fundou toda uma linhagem de pensadores que, ao longo do século XX, demoliriam a idéia da linguagem como mera ferramenta de transmissão de conteúdo, a refletir passivamente o mundo apriorístico dos significados. Em vista desse dado histórico, é curioso observar até que ponto a linguagem desempenha papel ativo na construção do próprio pensamento nietzschiano, isto é, em que medida determinados usos lingüísticos, verificados na obra do filósofo alemão, mostram-se importantes para a mesma.

Se Nietzsche é revolucionário quanto às idéias que propõe, não deixa de ser inovador também quanto ao estilo com que o faz. Seus textos se caracterizam por uma assistematicidade e um tom ensaístico estranhos aos livros de filosofia seus contemporâneos e predecessores. Organizam-se em parágrafos mais ou menos independentes, cada qual um pequeno ensaio quase que autônomo, os quais, não obstante, interconectam-se num plano para além da mera linearidade. Não raro, lançam mão de recursos literários como metáforas, linguagem imagética, trocadilhos e ironias, isso quando não se convertem integralmente em literatura, tomando a forma de aforismos ou de poesia, como em “Also Sprach Zaratustra”. Em todo caso, é de se notar, em Nietzsche, um esmero e uma sofisticação no trato com a palavra que o aproximam do universo artístico e o singularizam no âmbito da filosofia.

Evidentemente, seria falso afirmar que Nietzsche foi o primeiro ou o único entre os filósofos a se aproveitar de procedimentos típicos da literatura em seus escritos. O que o distingue da maioria dos demais pensadores, além de sua aguda sensibilidade para as especificidades propriamente formais da linguagem, é a recorrência e o caráter não-ornamental com que tal aproveitamento se verifica em sua obra. Em Nietzsche, não se encontram firulas poéticas eventualmente enfeitando raciocínios prosaicos. Pelo contrário, longe de exercer qualquer função acessória ou lateral, o literário se revela como componente determinante do peculiar registro retórico em que se dá o pensamento nietzschiano - e, mais do que isso, como verdadeiro elemento articulador de tal pensamento.

Examine-se, a esse respeito, um estilema bastante característico do autor em estudo: a potencialização semântica de traços morfológicos e etimológicos dos vocábulos, de modo a que estes estabeleçam entre si relações mais complexas e ricas que as previstas pela pura discursividade. É o que se constata no parágrafo 34 de “Jenseits von Gut und Böse”, em que o adjetivo “bürgerlichen” (linha 26), aplicado a “vida” e ecoando a palavra “Bürgschaft” (linha 14), adquire propriedades polissêmicas que lhe permitem se referir tanto a “burguesia” quanto a “garantia” (Nietzsche, 1999: 309). Tal ambiguidade converte o parentesco entre os dois vocábulos alemães como que num testemunho etimológico do horror burguês pela incerteza, engendrando o argumento do filósofo através de uma operação própria do poeta.

Com efeito, como engendrar um argumento tão radicalmente novo em relação à tradição filosófica que o precede quanto o de Nietzsche sem a confecção desse idioma sui generis que se produz pelo privilégio do literário na escritura nietzschiana? Para compreender o sentido profundo da estratégia (anti)discursiva de que se vem tratando aqui, basta imaginar o quanto a estrutura rigidamente sistemática e ingenuamente logocêntrica em que se costumava exercer o pensamento desmentiria uma filosofia que tinha por escopo a desconstrução implacável das verdades estabelecidas e, em última instância, da própria noção de “Verdade”. A multivocidade, a plurisignificação, o relativo descompromisso com a dita “realidade”, assim como outros traços próprios da linguagem literária, constituem contribuição valiosa à viabilização de um projeto dessa natureza, senão sua condição sine qua non. À utilização de recursos literários na filosofia de Friedrich W. Nietzsche, portanto, corresponde seu desdém por qualquer verdade que se pretenda unívoca, o qual fica, dessa maneira, não só afirmado no plano do conteúdo, mas também atestado no plano da forma.


terça-feira, julho 06, 2004

Ôpa!
A propósito da mensagem do Eduardo, só gostaria de fazer um comentário rápido, retomando um velho tópico deste Blog e, ao mesmo tempo, prestando um serviço de inutilidade pública aos colegas: adivinhem como se chama "A Gaia Ciência" em inglês. "The Gay Science". Acreditem se quiser. Não sei se é influência dos Estudos Culturais ou coisa que o valha... Bom, agora, de volta à "ascese intelectual" de fim de semestre! Até!

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