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segunda-feira, novembro 01, 2004

TENTATIVA DESESPERADA DE REVITALIZAÇÃO DO BLOG!
(Antes, era “campanha”, mas, agora, já virou “tentativa desesperada”)

No último sarau (em que o colega André nos presenteou com um formidável cano, que, aliás, mandou pelo correio, já que não podia ir entregar pessoalmente, uma vez que se encontrava numa “cervejada”, segundo as más línguas), discutiu-se a questão do homem na modernidade, seu descompasso com o mundo – ou, mais do que isso, sua falta de lugar no mundo, etc... Assim sendo, senti-me inspirado a colocar na roda um dos trabalhos que produzi para a disciplina Barroco Brasileiro, ministrada pelo José Américo, na esperança de que suscite aí algum comentário da parte de vocês. O trabalho tem muito a ver com o que estávamos falando. A possíveis plagiadores que penetrem nosso querido Blog sem o conhecimento ou a permissão de seus legítimos integrantes, aviso que está tudo errado: tirei zero no trabalho e o professor ainda me xingou. Além disso, esse trabalho é amaldiçoado: quem quer que o copie e cole com segundas intenções ficará impotente pelo resto da vida.

Também retomando um assunto discutido no sarau, postei, em seguida, duas traduções para o inglês de poemas em português. A do “Versos Íntimos” é do Nelson Ascher, e a do Camões é de um outro camarada aí, provavelmente inglês. São traduções que considero boas, mas que, quando cotejadas com seus originais, deixam bem claro para um falante nativo do português o quanto uma tradução constitui, de fato, um texto autônomo. Aguardo as respostas entusiásticas.

Análise do poema

À Instabilidade das Coisas do Mundo, de Gregório de Matos

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

O presente estudo parte da seguinte premissa: quando o espírito da Modernidade se infiltra no fazer artístico e se metamorfoseia em obras, surge o Barroco. Examinando-se, por exemplo, a produção poética barroca, percebe-se com relativa facilidade as marcas da transição de uma visão de mundo antiga para aquela que caracteriza a Era Moderna, tanto no plano da forma quanto no do conteúdo. À Instabilidade das Coisas do Mundo, de Gregório de Matos, não constitui exceção para essa regra. Por essa razão, uma reflexão sobre as feições da Modernidade nascente, bem como sobre o modo como tais feições se articulam em linguagem poética, parece uma estratégia adequada para a elucidação desse poema.

É possível pensar que a Era Moderna se inicia por uma alteração radical na relação entre homem e mundo, isto é, quando uma certa conformidade que, até então, preponderava entre estes se desfaz. Em tempos pré-modernos, o mundo era pensado como um Todo perfeito e sem incongruências, composto de partes harmonicamente coordenadas, regidas por uma ordem justa. O homem, enquanto uma dessas partes, sentia-se confortavelmente inserido em seu entorno, que o envolvia por inteiro, num abraço maternal, reservando-lhe, dentro de si, um espaço feito sob medida. O lugar do homem no mundo, dessa forma, era tão aproblemático quanto a função de uma peça na máquina a que pertence. As revoluções culturais e intelectuais que fundariam a Modernidade, entretanto, viriam a perturbar essa harmonia de maneira irreversível, como que extirpando o homem de seu antigo nicho no corpo do mundo.

Enquanto perdurou a mentalidade pré-moderna, contudo, a linguagem desempenhou um papel importante na manutenção de um relacionamento estreito entre homem e mundo. Em primeiro lugar, concebia-se a linguagem não como criação humana, mas como produto da natureza, pertencente ao domínio do dado. Imaginava-se que os nomes fossem inerentes às coisas que designavam. O uso da linguagem era orientado pela noção de justiça, que rezava que a expressão devia ser absolutamente adequada à coisa expressa (daí a sintaxe clara, a adjetivação pouco imaginativa e as metáforas modestas da poesia clássica). Em outras palavras: o mundo determinava a expressão de maneira integral; quando falava ou escrevia, o homem pré-moderno não agrupava vocábulos de forma livre e a seu bel-prazer, mas sim deixava que o ritmo universal, que emanava das coisas e a tudo presidia, conduzisse sua língua ou sua mão de modo a produzir frases justas. Frases justas não eram construções autônomas ou sequer representações arbitrárias de elementos da realidade, mas manifestações diretas desses mesmos elementos, tão natural e aprioristicamente próprias deles quanto seus atributos visuais, sonoros, etc. Utilizar a linguagem, dessa maneira, era não um ato de vontade, mas uma forma de comunhão com o universo.

Além disso, percebia-se o mundo, em todas as suas dimensões, como uma vasta rede de significados, um sistema lingüístico, regido pelo mesmo ritmo que orientava a linguagem humana, em permanente comunicação com o homem. Tudo que existia ou acontecia possuía sentido; tudo transmitia uma mensagem. Nenhuma coruja piava sem que algo nefasto se prenunciasse, nem a chuva caía, nem o sol brilhava, sem manifestar a vontade de algum deus. Nada se dava que não comunicasse uma certa intenção universal. O universo, portanto, não era ainda o abismo inanimado e alheio cujo silêncio amedrontaria Pascal, mas um ente vivo de que o homem participava e que se comunicava com o homem, fazendo conhecer sua intenção através dos fenômenos naturais. Caso rendesse a própria vontade a tal intenção e harmonizasse seus movimentos com o ritmo do mundo, o homem asseguraria para si uma existência plena, realizando-se no cumprimento de seu destino. Caso falhasse em interpretar os signos da intenção universal ou se rebelasse deliberadamente contra esta, sobreviria a tragédia ou a danação. Ambas as alternativas, porém, têm como pressuposto a existência de uma intenção universal, expressa pela linguagem das coisas, bem como a noção de que o homem tem, no mundo, um lugar reservado para si.

Para melhor compreendermos a concepção pré-moderna da linguagem, convém lembrarmos que, naqueles tempos, os homens se congregavam em pequenas comunidades, partilhando, portanto, de visões de mundo e experiências de vida comuns, o que (é possível) produzia uma comunicação praticamente plena e sem entraves. Mais tarde, entretanto, a urbanização e a ampliação do mundo (motivada pelas Descobertas e pela intensificação das relações entre diferentes localidades) fizeram com que divergentes visões de mundo e experiências de vida se confrontassem e fossem forçadas a coexistir num mesmo espaço, o que, provavelmente, deu origem a problemas de comunicação inéditos. Era natural que tais problemas fossem, gradualmente, evidenciando a existência de um intervalo entre linguagem e realidade. Cada vez mais, tornava-se clara a inadequação do esquema de Aristóteles que descrevia a comunicação como sendo composta simplesmente por um produtor e por um receptor. Emergia a consciência de que, entre esses dois elementos, interpunha-se a mensagem, algo que possuía uma existência autônoma e potencialmente problemática.

No século XVII, a Gramática de Port Royal desfere o golpe de misericórdia contra a noção de expressão justa, ao descrever a palavra como uma união arbitrária entre significado e significante. É o fim da crença num vínculo natural e apriorístico entre nomes e coisas. Já não é o ritmo universal quem conduz a fala e a escrita, mas o arbítrio do homem e suas escolhas subjetivas. Ao mesmo tempo, a ciência elucida os fenômenos naturais em termos de causas e efeitos lógicos, esvaziando-os, assim, de seus significados transcendentes. Subitamente, o universo se cala. Nenhuma intenção anima o cosmos. O pio da coruja é só o pio da coruja; a configuração dos astros é randômica. O homem perdera sua via privilegiada de contato com o mundo. Outrora parte integrante de um organismo pleno de sentidos, encontrava-se agora sozinho diante de uma esfinge indiferente e muda.

Anônimo e perdido em meio à multidão heterogênea das cidades, despojado dos códigos culturais anteriormente partilhados por toda uma coletividade, o homem experimenta seu caráter individual com intensidade inédita. Na medida em que seu raciocínio abstrato se sofistica, intensifica-se sua desconfiança quanto às informações que lhe chegam pelos cinco sentidos. Sua consciência individual é sua única garantia de realidade. Pensa, logo, existe.

Definida pelas medidas desse novo homem, entidade independente em contraste (e em conflito) com seu entorno, a justiça desabita o mundo para instalar-se nos planos supra-terrenos da razão ou da divindade. A ordem natural das coisas, com que, anteriormente, o homem se encontrava em absoluta sintonia, agora se lhe afigura absurda e imperfeita. Avaliada por critérios alheios a si mesma, contrastada à coerência dos sistemas lógicos e à imutabilidade do divino, a realidade já não se justifica, da maneira como se apresenta à percepção. Para salvá-la, será preciso violentá-la no leito de Procusto da inteligência, aparando suas arestas e deitando fora o que parecer excesso ao crivo severo da razão e da moral superiores. Assim, da forma como aparece diante de nossos olhos, entretanto, não possui razão de ser.

Daí o estranhamento suscitado pela “instabilidade das coisas do mundo”, tema extremamente privilegiado pela poesia barroca. Como se um visitante nativo de outro planeta, o homem se espanta ante o comportamento natural dos fenômenos terrestres, incapaz de encontrar sentido em sua imanência. O poema de Gregório de Matos trabalha, de forma particularmente habilidosa, essa tensão entre a expectativa humana e a realidade das coisas, bem como o estranho espanto e a subsequente violência intelectual que dela resultam. Para comprovar essa afirmação, basta o exame do primeiro verso: “Nasce o Sol e não dura mais que um dia”. Ora, não é menos que natural que a duração do sol seja de um dia, uma vez que a própria medida “dia” é definida pela duração do sol. No entanto, que o sol, havendo nascido, dure “apenas” um dia é percebido como incoerência injustificável por esse primeiro verso, que engendra, dessa forma, como que uma “tautologia espantosa”.

O poema avança pelo desenvolvimento desta mesma premissa: há algo de errado com a configuração natural do mundo. Enquanto o primeiro quarteto constata, chocado, que a vida é movimento incessante em que cada coisa dá lugar ao seu contrário e vice-e-versa, o segundo interroga duramente a natureza, com os instrumentos próprios do racionalista: o “por que” e o “como”, intrigado pela sua inexplicável inconstância. Ao mesmo tempo, no plano da forma, a simetria rigorosa do soneto parece tentar fazer frente a essa incômoda carência de sentido.

O primeiro terceto reitera as constatações do primeiro quarteto, desprovendo-as, contudo, de parte do estranhamento que as vinha caracterizando, como que prenunciando alguma reconciliação com a instabilidade do mundo. No último terceto, porém, verificamos como se dá tal reconciliação: não pela conformação à realidade das coisas em seu aspecto sensível, mas sim por sua redução, através do raciocínio lógico, a um princípio abstrato. O caráter universal de tal princípio suprime (ou mascara) a variabilidade de tudo, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, a afirma.

À “tautologia espantosa” do primeiro verso, opõe-se este “paradoxo apaziguador” do último: “A firmeza somente na inconstância”. Nele, refugia-se a consciência perturbada, quase que moralmente ofendida pela inadequação da natureza às suas expectativas alienígenas. Perturbada pelo óbvio e apaziguada pelo inusitado (demonstrando-nos, portanto, seu completo descompasso com a ordem natural das coisas), tal consciência testemunha o nascimento do Indivíduo, recém-emerso da universalidade com que antes comungava e se confundia. O homem adentrava a Modernidade, auto-exilando-se do mundo.

Originais seguidos de suas traduções:

VERSOS ÍNTIMOS

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

INTIMATE VERSES

No one attended, as you 've seen, your last
Chimera's awe-inspiring funeral.
Ingratitude — that panther — has been all
Your company, but it has been steadfast!

Get used to mud: soon it will hold you fast!
Man living among wild beasts on this foul
And sordid earth cannot resist the call
To turn himself as well into a beast.

Here, take a match. Now light your cigarette!
A kiss is but the eve of being spat,
A stroking hand, my friend, may stone you too.

If your great wound still saddens anyone,
Cast at that vile hand stroking you a stone,
Spit straight into the mouth that kisses you!

Alma minha gentil, que te partiste

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.

My gentle spirit! thou who hast departed

My gentle spirit! thou who hast departed
So early, of this life in discontent,
Rest thou there ever, in Heaven's firmament,
While I live here on earth all broken-hearted;

In that Ethereal Seat, where thou didst rise,
If memory of this life so far consent,
Forget not thou my ardent love unspent,
Which thou didst read so perfect in mine eyes.

And if, perchance, aught worthy there appears
In my great cureless anguish for thy death,
Oh! pray to God who closed so soon thy years,
That He will also close my sorrowing breath,

And swiftly call me hence thy form to see,
As swiftly he deprived these eyes of thee.

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