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terça-feira, abril 03, 2007

Sexualidade e Super-Heroísmo 

Pode-se ler o nome “Super-Homem” de quatro maneiras distintas. Isso, por dois motivos. Primeiro: o prefixo “super-” possui duas acepções: a culta e a informal. Na língua culta, o prefixo indica superioridade ou ascendência; já na informal, funciona como partícula intensificadora. Segundo: também a palavra “homem” possui dois sentidos, podendo se referir tanto a um ser humano, independente de gênero, quanto a um membro do sexo masculino. Assim sendo, pode-se pensar o Super-Homem das seguintes maneiras: 1 – como um ente superior à humanidade de modo geral; 2 – como um ente superior aos seres humanos do sexo masculino; 3 – como um ser extremamente humano; 4 – como um ser extremamente masculino. A primeira e a quarta maneira parecem de fato dizer respeito ao personagem: a primeira, por razões óbvias; a quarta, pelo que se segue.

Há, no Super-Homem, como que uma recusa radical do Feminino. Não se percebe, no super-herói, nenhum dos atributos comumente associados à feminilidade, quais sejam: a passividade, a abertura, a flexibilidade, a inconstância, a multiplicidade, etc. À passividade, o Super-Homem contrapõe sua “missão sagrada”, isto é: a imposição ativa da justiça e da ordem. Em outras palavras: endireitar à força o que está torto. À abertura, opõe a invulnerabilidade física e moral. Trata-se de um ser ocluso e denso. Originário de um planeta supra-terreno, existe como que fora de contato com a Terra, porque nada deste mundo o pode penetrar. À flexibilidade, contrapõe uma adesão absolutamente rígida e incondicional ao próprio Ethos. Falta-lhe qualquer perspectivismo: de um lado há o Bem; do outro, o Mal. À inconstância, à multiplicidade, opõe integridade e coerência impecáveis.

Essa rejeição da feminilidade se evidencia também nos – digamos – hábitos sexuais do Super-Homem (ou na falta deles). Sua relação com a mulher se define pela irrealização e pela inconcretude: ama Lois Lane, mas não a toca. De fato, a sexualidade não participa de seu ser. Seu refúgio secreto, sintomaticamente batizado de “Fortaleza da Solidão”, é uma espécie de templo da abstinência, uma réplica nostálgica da sobre-humana Krypton, onde tudo é rígido, reto, branco e gelado, como o próprio Kal-El. Se a recusa (como que enojada) da mulher não se resolve aqui em perda de virilidade, é porque a rigidez fálica se transfere de seu lugar natural (a genitália) para todo o ser do herói, produzindo uma espécie de Homem-Falo (nesse sentido, um Super-Homem). A castidade, assim, masculiniza.

Falta ao kryptoniano a aquiescência feminina para com a Terra. Este mundo está errado, e ele o vai consertar à força. A noção de erro com que se trabalha aqui também é extremamente masculina. É errado o que desafie a ordem vigente. É errado o que transgrida diretrizes éticas que se querem absolutas. O Super-Homem é, sobretudo, um homem que se leva a sério. Ele é incapaz de variar a própria perspectiva em relação à Ordem, o que talvez o conduzisse à percepção de que uma ocasional subversão da ordem vigente é indispensável à criação do Novo – e, portanto, à vida. Sua cosmofilia é anti-vida; sua adesão irrestrita à Ordem tende à paralisia e à esterilidade. Sua postura em relação ao que percebe como erro também traz as marcas do Masculino em seu grau mais extremo. Essa postura consiste em corrigir o erro com violência, sem transigência, sem concessões.

Há, no projeto super-heróico, uma seriedade, uma retidão, uma vontade de controle e de pureza, que o tornam tipicamente masculino. Não é de se espantar que a super-heroína por excelência, a Mulher-Maravilha, seja uma espécie de lésbica. Como Kal-El, Diana não é deste mundo. Sua terra-natal é a distante Ilha Paraíso (talvez uma versão ficcional da ilha de Lesbos), habitada exclusivamente por mulheres – portanto, dessexualizada, como Krypton. Diana é a princesa das Amazonas, isto é: uma mulher masculina. Não por acaso, foi batizada em honra à deusa de seu povo, a caçadora virgem e lunar. Assim, sua relação com o sexo é similar à do Super-Homem (e talvez típica do super-herói). Em ambos, lê-se uma recusa masculinizante do sexo. Para o Super-Homem, rejeitar a mulher é um modo de rejeitar o Feminino. Para a Mulher-Maravilha, rejeitar o homem é tornar-se homem.

Há ainda uma terceira opção: aderir ao homem (sexualmente) como um modo de aderir ao Masculino. É essa a atitude do Batman. Bruce Wayne é deste mundo. Talvez por isso não lhe seja possível dessexualizar-se de todo, como fazem seus dois colegas. Para se super-masculinizar como eles, isto é: para tornar-se o super-homem que não é por natureza, sua solução é dúplice: como playboy, transforma-se em conquistador; como super-herói, adquire um efebo. O homossexualismo tem aqui como função evitar o contato com o Feminino e intensificar o contato com o Masculino. O preterimento da mulher em prol do homem diz de uma adesão ao Masculino que se quer absolutamente pura e sem fissuras. No casamento entre Batman e Robin, lê-se um pacto incondicional do homem consigo mesmo.
No entanto, a origem terrena do Batman tem seu custo. Super-Homem e Mulher-Maravilha são, por natureza, seres sobre-humanos e supra-mundanos. Seus poderes provêem de esferas supra-terrenas, respectivamente, do sol e da lua. São, portanto, seguidores e propagadores da luz, o que é dizer: da ordem, da razão, da hierarquia, da pureza, etc. (Kal-El, uma espécie de Apolo, irmão gêmeo de Diana). Batman, pelo contrário, é o super-herói das trevas (i.e. da desordem, da loucura, da confusão, da impureza, etc.). Ademais, Batman é um homem-morcego, um homem-animal, ou seja: por um lado, um ser de carne, nativo da Terra; por outro, um ser compósito, impuro, não-idêntico a si mesmo (nesse sentido, o oposto de um Super-Homem). Sua animalidade e seu caráter noturno funcionam, assim, como fatores de subversão de sua super-humanidade.
Sobretudo, o pacto homossexual pelo qual Bruce Wayne se super-masculiniza e se torna super-herói se vê ameaçado pela sedução de uma mulher-animal: a Mulher-Gato. Não se trata exatamente de uma super-heroína, mas sim de uma figura moralmente ambígua, uma espécie de vilã simpática (sobretudo, sedutora). Essa mesma ambigüidade moral, bem como sua flexibilidade felina, sua sensualidade evidente (e heterossexual), sua impureza de ser híbrido, situado entre o homem e o animal, fazem dela o emblema perfeito do Feminino. Flertando com a Mulher-Gato, Batman flerta também com o Feminino, ocupando assim a posição de um super-herói marginal e subversivo, desconcertantemente deflatório quanto a seu colega kryptoniano. Há, em Batman, uma espécie de Devir-Mulher, o qual lhe confere a perspectiva crítica ideal para relativizar a retidão fálica e mainstream do Super-Homem.

Comments:
Gostaria de usar alguns trechos de um texto seu em um trabalho da faculdade (http://literaturaeafins.blogspot.com.br/2005/10/primeira-leitura-de-macau-de-paulo.html) mas não sei como dar os créditos a você, pois não encontrei seu nome, etc...
 
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