Sábado, Maio 13, 2006
Infância
Publicado em 1945, Infância tem lugar de destaque na produção literária de Graciliano Ramos. Relato contundente dos seus primeiros anos de vida, a obra assinala um momento decisivo dentro do percurso artístico do escritor: ela é uma espécie de síntese, na qual amadurecem diversas questões latentes nos seus escritos anteriores.
No que diz respeito à linguagem, já é lugar-comum da crítica afirmar que Infância é o livro mais bem escrito de quantos realizou Graciliano Ramos, uma vez que aí estariam combinadas a concisão lingüística – marca inconfundível do autor – e um intenso lirismo, dificilmente encontrado em seus demais textos. Sem se esgotar, a luta sôfrega que o escritor sabidamente empreendeu com a língua parece aqui alcançar um ponto de equilíbrio, no qual a palavra flui mais natural (menos torturada), e seu potencial expressivo eleva-se enormemente, alcançando muitas vezes o poético.
Elemento importante, apontado também pela crítica, é o abandono que Graciliano faz, a partir desta obra, das narrativas ficcionais em detrimento de uma escrita memorialística, calcada na sua vivência pessoal. Essa espécie de transição foi, segundo as palavras de Antonio Candido, a passagem “da ficção para a autobiografia como desdobramento coerente e necessário de sua obra 1”, que marca o momento de elevação para o primeiro plano de elementos autobiográficos que se encontravam dispersos em seus romances, de Caetés a Vidas secas. O próprio autor, em entrevista concedida a Homero Senna em 1948, afirmava: “Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou 2”, palavras que ajudam a compreender a relação que seus livros memorialísticos, principalmente Infância, mantém com o restante de sua obra: dentro da ficção encontra-se a memória, e esta se aproxima, todo o tempo, da narrativa ficcional.
Por fim, destaca-se ainda o problema do compromisso ético da escrita de Graciliano, compromisso reafirmado em Infância e que se traduz no posicionamento do autor frente às contradições humanas que o texto busca representar e compreender. Aqui, é o relacionamento de um menino tímido e assustado (o próprio escritor) com seu “pequeno mundo incongruente 3”, formado por seus pais, professores e vizinhos, o que vai servir de base às suas constantes inquirições. Presente em praticamente todos os seus textos, o problema da reflexão ética vai alcançar, nos seus livros memorialísticos, relevância sem precedentes na literatura brasileira. Mais do que narrar o vivido e oferecer dele uma visão cristalizada, Graciliano Ramos busca entendê-lo no momento mesmo em que escreve, revendo a cada passo os conceitos que tem de si e dos outros. Segundo o ensaísta e professor Wander Melo Miranda, para Graciliano “o passado é eleito como um lugar de reflexão – no sentido simultâneo de retratar e reflexionar 4”.
Seus relatos autobiográficos não deixam dúvidas: se nas Memórias do cárcere o escritor reconstitui o tempo em que esteve preso para reencontrar-se com os companheiros de cela, os presos políticos, os guardas, e deixá-los falar através de seu relato – quebrando o silêncio que lhes foi imposto –, em Infância Graciliano Ramos se propõe a um reencontro com os seus primeiros anos, com o menino que foi e com as pessoas que o cercaram naquele tempo, tentando enxergar-se através delas. Narrativas de acontecimentos dolorosos, as memórias da criança e as do intelectual detido, embora distintas, unem-se na realização de um mesmo movimento: ambas reelaboram a experiência viva do passado e dela procuram extrair a imagem de um “eu” que se constrói a partir do contato com o outro, que se sabe distante dos demais mas que quer aproximar-se deles. Mais do que reconstituir o passado, trata-se de reavaliá-lo.
Em Infância se pode perceber uma nuance particular da junção ética/estética que promove a obra do autor de Insônia: além de dar visibilidade e voz aos seres marginalizados que habitam seus textos, como ocorre na maior parte de seus romances e, via de regra, é um procedimento associado ao posicionamento político do escritor, aqui Graciliano Ramos parece dar um passo a mais, ao abrir espaço e manifestar simpatia não só pelos oprimidos, mas também por aqueles que, circunstancialmente, oprimem. Perpassa o livro um desejo profundo de compreensão do outro, desejo que luta contra mágoas e preconceitos bastante arraigados. Ainda que o traço crítico do autor se mantenha constante, não o deixando deslizar para uma atitude compassiva para com o que relata, o resultado dessa mistura de denúncia e compreensão é uma obra ambígua, aberta: a um só tempo dura e terna.
Como se pode ver a partir desta breve discussão, Infância constitui obra fundamental para melhor compreender o universo artístico de Graciliano Ramos. Questões-chave de sua escritura e de sua complexa personalidade podem ser ali entrevistas, oferecendo ao pesquisador vasto campo de estudos. Porém, apesar de sua indiscutível riqueza, o livro tem merecido escassa atenção da crítica especializada. Existem poucos trabalhos de fôlego sobre a obra e, os que aí estão, ainda não exploraram todas as possibilidades significativas do texto. Resgatar o que, em essência, já foi dito sobre o livro pode iluminar pontos ainda obscuros da obra, ajudando a entendê-la.
Ao longo de seus mais de 60 anos de publicação, as leituras feitas da obra vêm seguindo, aproximadamente, algumas tendências comuns, válidas e importantes para seu entendimento, embora insuficientes. A primeira e mais típica forma de abordagem liga-se a certa tradição interpretativa excessivamente biográfica, que vez ou outra incorre em ingenuidades ao associar vida e obra do escritor. Tomando os relatos memorialísticos de Graciliano como registro veraz de fatos vividos, tal parcela da crítica lê Infância apenas como suporte para a produção ficcional do autor, acreditando que os episódios narrados ali explicam, por si só, a gênese de personagens, cenas e de uma certa “visão de mundo” supostamente comum aos seus textos. É o caso, por exemplo, de Graciliano Ramos e o sentido do humano, ensaio de Octavio de Faria, onde se lê:
“Em Graciliano Ramos, o menino (...) é tudo. Seus heróis são o menino, sua timidez é a do menino, seu pessimismo é o do menino... 5”
Este tipo de abordagem, apesar de possuir alguma validade – haja visto que determinados trechos de Infância podem ser associados com proveito à ficção graciliânica – é limitador, pois transforma o texto em mero apêndice dos romances do autor, retirando dele sua autonomia e validade próprias. Além, é claro, de desconsiderar o inevitável componente ficcional que todo relato memorialístico possui, dado que – como é impossível reconstituir à perfeição o passado – as frestas que a memória deixa vão sendo preenchidas pela imaginação, num jogo de lembranças e esquecimentos que reelabora a experiência vivida em fato literário. É como se as memórias formassem gênero a parte, menor, que não oferecesse material crítico analisável por si mesmo. Fazem parte dessa espécie de tendência interpretativa do livro obras como “Graciliano Ramos: reflexos de sua personalidade na obra”, de Helmut Feldmann, “O mandacaru e a flor”, de Regina F. de Almeida Conrado e, em menor grau, até o já citado “Ficção e confissão”, de Antonio Candido, entre outros.
Diferentemente dos que leram a autobiografia de Graciliano Ramos com os olhos voltados exclusivamente para os seus demais livros, há alguns estudos que se dedicaram a descrever e interpretar Infância como texto independente. Textos de matriz psicanalítica, sociológica, comparativista ou estilística dão conta da variedade de interesses sucitados pela obra. O que salta aos olhos, no entanto, é um traço comum a praticamente todas as leituras do livro, uma espécie de constante na diversidade: quase todas apresentam-no como relato terrível dos sofrimentos e angústias experimentados pela criança que foi Graciliano Ramos; concentram-se os críticos apenas na descrição sombria, tingida de elementos expressionistas, que o menino oferece dos castigos físicos e humilhações que suportou.
Uma rápida leitura de alguns dos títulos dos textos que se debruçam sobre Infância servirá de exemplo da tendência interpretativa a que aqui se faz referência: “O bezerro encourado ou As terríveis armas”, de Vera Maria de Matos Oliveira; “Infância: violência e iniciação”, capítulo da dissertação de Marcelo Magalhães Bulhões e “Uma aprendizagem dolorosa”, ensaio de Afonso Henrique Fávero, entre outros, títulos que falam por si e dão a medida do que foi destacado pelos críticos.
Sem discordar integralmente dessas duas formas de leitura apresentadas, que ressaltam – como ficou dito – aspectos decisivos de Infância, é possível apontar, entretanto, questões ainda não de todo analisadas pela crítica. Uma delas é a recorrência de um procedimento narrativo singular, fruto da complexa aproximação entre narração e reflexão empreendida por Graciliano Ramos. Este procedimento (assim chamado por falta de melhor definição) consiste na adoção, pelo narrador de Infância, de um ponto de vista ambíguo, a um só tempo crítico e compreensivo em relação aos fatos narrados. Seria um distanciamento solidário o que caracterizaria a atitude daquele que narra, pois ele denuncia a violência de que foi vítima e, no mesmo gesto, busca entender e até solidarizar-se com aqueles que o maltrataram.
Querendo apresentar o mundo hostil e violento em que viveu – pintando retratos terríveis da mãe e do ambiente escolar do interior nordestino, por exemplo – o autor preocupa-se também em pensá-lo, procurando descobrir através da aparência superficial dos seres e situações o real significado de seus atos. Graciliano Ramos, com isso, humaniza seus pais, professores e conterrâneos que o injustiçaram (e aos demais entes frágeis), descrevendo-os como pessoas cheias de ambigüidade e ignorância, mas nunca completamente bons ou absolutamente maus.
O olhar do memorialista identifica-se ao de um relativista. Ele busca refletir sobre os acontecimentos do passado sem idéias pré-concebidas sobre os mesmos; trata-se antes de uma luta contra tais idéias. Não há verdades fixas em sua narrativa. Os mesmos seres que o fazem sofrer surpreendem-no com gestos de inesperada bondade, perturbando-o na sua falta aparente de lógica. Em meio à descoberta da dualidade dos seres e de suas razões, a atitude do narrador das memórias será ela própria dual: nem a aceitação ingênua e idealista da infância – comum aos textos autobiográficos – nem a completa condenação do passado, que aproximaria Infância de um discurso ressentido. O “eu” construído por Graciliano aí impõe a si a difícil tarefa de andar na precária linha que se situa entre o eu e outro. Ao enxergar nos que o atormentaram não apenas a mão que agride e a voz que ameaça, mas também os traços humanos e sensíveis dos que, apesar de tudo, podem ser bons, Graciliano Ramos reafirma, com caracteres mais nítidos do que em seus romances, o compromisso ético de sua escrita.
Logo nos primeiros capítulos de Infância encontram-se exemplos deste complexo movimento empreendido pelo texto. Antes mesmo de apresentar ao leitor os pais, epicentros do mundo infantil que recompõe, o narrador já oferece suas reflexões sobre uma possível explicação do comportamento hostil que eles apresentam. Ao falar da mãe, observa:
“Se não existisse aquele pecado, estou certo de que minha mãe teria sido mais humana. De fato meu pai comportava-se bem. Mas havia aquela evidência de faltas antigas, evidência forte, de cabeleira negra, beiços vermelhos, olhos provocadores (...) Julgo que agüentamos cascudos por não termos a beleza de Mocinha. 6 ”
Aqui, a busca do distanciamento solidário é nítida. As ações da mãe, que no tempo do enunciado feriram o menino, no tempo da enunciação são reavaliadas, passando a figurar em outra ordem de acontecimentos que não privilegie somente o ponto de vista da vítima (o menino e, também, suas irmãs, que agüentaram “muito cascudo”), mas também o do algoz: o “pecado”, uma filha espúria do marido, magoava a mãe do escritor, que a revê assim mais real, também sujeita a desgostos, não apenas causadora deles.
Posicionamento semelhante encontra-se também em passagens que se referem ao pai do escritor (“Hoje acho naturais as violências que o cegavam 7”), ao Padre João Inácio – vigário de Buíque que, pela aparência incomum e pela aspereza de trato para com os paroquianos, infundia medo na criança, a qual só muito mais tarde percebeu a bondade de suas ações caridosas – chegando, até mesmo, a um estranho como o personagem Fernando, homem rude e temido, descrito como “bicho perigoso 8”, protegido do chefe político local, “dono dos corpos e das almas 9”. Ele é apresentado, após irônica reflexão do narrador, como ser capaz de importar-se com a segurança das crianças, apesar das crueldades que possivelmente já havia perpetrado:
“Então Fernando não era mau? Pensei num milagre. Julguei ter sido injusto. Fernando, o monstro, semelhante a Nero, receava que as crianças ferissem os pés. 10”
Relacionado a este movimento reflexivo que o texto empreende, é interessante notar também que as escolhas estilísticas e as técnicas narrativas empregadas por Graciliano Ramos se ajustam perfeitamente às idas e vindas de Infância. No intuito de abarcar tanto as experiências do passado quanto as reflexões e posicionamentos do presente, o autor utiliza um modo de narrar que se ajusta à natureza do gênero memorialístico e confere ao relato uma riqueza de matizes bastante ampla: referimo-nos aqui aos desdobramentos do narrador em duas vozes distintas num só movimento textual; uma mais ligada ao olhar da criança e outra ao olhar adulto. É como se houvessem dois narradores contidos num mesmo “eu”, que se alternam, imbricam e desdobram no corpo da obra. Nem sempre clara, a distinção entre as vozes narrativas de Infância é possível, no entanto, por algumas marcas lingüísticas particulares e pelos julgamentos que fazem das coisas que as rodeiam.
O primeiro desdobramento do narrador da obra configura-o como um narrador-infantil. Através de seus olhos, Graciliano Ramos apresenta a percepção da realidade que a criança tem, marcada pela fragmentação, pela desorientação espacial e pelo medo. As pessoas e objetos descritos a partir deste ponto de vista ganham novas conotações, já que são apresentados como se vistos pela primeira vez, despidos de seus nomes e conceitos habituais. É algo próximo ao que V. Chklóvski define como “singularização do olhar”, no célebre ensaio “A arte como procedimento” (Chklóvski, 1976). No capitulo “Chegada à vila”, encontra-se a descrição das casas de cidade, uma com azulejos na fachada e outra de dois andares, desconhecidas pela criança – que até aqui só havia morado na fazenda Pintadinho – ilustrativa do que se está tratando:
“De repente me vi apeado (...) num mundo estranho, cheio de casas (...) Havia duas maravilhosas: uma de quadrados faiscantes, uma que se montava na outra. 11”.
Nas passagens em que a sensação de angústia se faz presente em Infância, é também pelo olhar da criança que elas aparecem, como no capítulo “Um cinturão”, momento máximo da violência e do terror experimentados pelo menino. Este vê “paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita 11”, dentro das quais seu pai grita, fazendo-a sentir “a casa a girar, meu corpo a cair lento (...) abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos 13”, imagens e sons relacionados ao medo sufocante que sentia ante a surra que estava prestes a levar. Como se pode observar pelos fragmentos citados, a quebra da perspectiva realista é outro traço de Infância, especialmente presente quando o narrador aproxima seu olhar do ponto de vista infantil.
Propenso à reflexão, maduro, consciente do agressivo ambiente que o gerou, o segundo desdobramento da voz narrativa, que se combina o tempo todo à primeira, é o que aproxima o narrador do mundo adulto. Dele são as constantes digressões que constituem o tecido narrativo de Infância. Enquanto as impressões do menino situam-se no momento do enunciado, oferecendo uma visão parcial e emotiva dos fatos, o narrador-adulto está situado no tempo da enunciação, tentando enxergar os acontecimentos de seu passado do modo mais amplo e distanciado possível. A postura compreensiva em relação ao próximo e a crítica feroz à violência do seu mundo infantil misturam-se em sua voz, complexificando sua imagem e oferecendo dela um retrato tão ambíguo quanto o que ele mesmo traçou dos que povoaram sua meninice sertaneja.
Em suas palavras, os objetos e situações ganham concretude, têm seu peso e impacto medidos, mesmo quando se apresentam envolvidas pela distância que separa o narrador da matéria narrada. Além de reavaliar suas ações e as de seus semelhantes, o narrador questiona os limites da própria memória, conferindo densidade às suas reflexões, uma vez que não toma o passado como algo dado, pronto. Há a consciência de que ele (o passado) está sendo elaborado pelo discurso, no instante mesmo em que se produzem os juízos que são apresentados ao leitor.
Mas, uma vez colocada essa hipótese de leitura de Infância que busca tomá-la como relato dual, crítico e compreensivo em relação ao passado que retrata, é possível que venham outras questões à mente do leitor mais familiarizado com a obra e a fortuna crítica de Graciliano Ramos. Como acreditar que as memórias do escritor sejam simpáticas às pessoas que o espezinharam, de modo especial os pais, dos quais tantas vezes criou imagens rudes? Porque um escritor como ele, tido pela crítica como pessimista, voltaria – no auge da sua capacidade criativa – a uma infância tão traumática para revê-la de modo mais humano, para reaproximar-se dela? Sem se esquivar da complexidade destas perguntas e, mesmo sem ter respostas conclusivas para elas, talvez seja possível pensá-las a partir da aproximação de Infância a outras obras de Graciliano, no intuito de que esta mirada comparativa revele outras nuances de sua escritura e, também, outras circunstâncias de sua biografia que ajudem a esclarecer sua obra, já que não se pode perder de vista a ligação estreita existente entre o texto memorialístico e a vida do escritor.
Observando os demais livros do autor, chama atenção a existência de semelhanças entre as Memórias do cárcere e Infância. Além de constituírem a porção autobiográfica de sua obra e, por serem ambos volumes de memórias, possuírem traços estilísticos comuns, os aproxima, acima de tudo, o posicionamento que o escritor adota em relação às pessoas que com ele conviveram, seja nos primeiros anos de vida, seja no período em que esteve na cadeia. E não é outro esse posicionamento senão o que se apontou anteriormente a respeito de Infância: o narrador das Memórias do cárcere também parece querer acertar as contas com o passado, revendo a si e aos outros em busca de entender melhor as motivações e significados dos seus gestos e dos gestos alheios que o ajudaram ou feriram.
Preso no início de 1936, Graciliano Ramos passará 10 meses em poder da polícia política do governo Vargas. Sem nunca saber exatamente a natureza das acusações que pesavam sobre ele, o escritor transitará por presídios do Recife e do Rio antes de ser libertado em janeiro de 1937. Nesse tempo, convive com todo tipo de gente: presos políticos ligados ao PCB, militares rebelados, ladrões e assassinos comuns, além do corpo de funcionários do Estado responsáveis pelo encarceramento e repressão dos detentos. Dez anos depois de vivenciar essa experiência-limite, dá início a composição das Memórias do cárcere, publicadas após sua morte, em 1954.
Projetado inicialmente como testemunho das infamantes condições em que viviam, dentro da prisão, os opositores do regime, o livro – sem deixar de ser um ataque às instituições do nosso “pequeno fascismo tupiniquim 14” – transformou-se em espaço de auto-reflexão para o escritor, que terminou por narrar muito mais do que apenas os maus tratos a que ele e seus companheiros de destino foram condenados.
As Memórias do cárcere podem ser lidas como a narrativa do encontro de um homem com suas precárias certezas, que ruíram, uma após outra, a seus pés. À medida que avançam as páginas, as dúvidas tornam-se mais freqüentes no texto. Ao relatar minuciosamente seu trajeto na prisão, Graciliano depara-se com o que não imaginava encontrar: de onde menos esperava, recebeu solidariedade. Do primeiro carcereiro, do ladrão contumaz e do soldado, vieram-lhe oferecimentos e favores incomuns, contrariando a expectativa de que deles só desprezo e violência se poderia arranjar. Assim como o narrador de Infância se surpreende ao reavaliar, no presente, algumas atitudes que o intimidaram quando criança, o narrador das Memórias revê sua estadia na cadeia e surpreende-se com a bondade encontrada em alguns, num ambiente marcado pela opressão.
Tal surpresa advém da percepção de que os conceitos preestabelecidos, as verdades absolutas, não existem. A experiência no mundo, o contato com a alteridade e a necessidade da reflexão revelaram ao escritor a incerteza fundamental que cerca seres e juízos. Como análise mais detalhada pode mostrar, há uma co-incidência de procedimentos e indagações em Infância e Memórias do cárcere. O mesmo encontro com o outro que se dá na narrativa de 1945, estará – sob outras circunstâncias, é claro – também nos escritos finais de Graciliano Ramos.
Ao constatar-se a continuidade de uma mesma procura nos textos memorialísticos do autor, o crítico estará tentado a pensar que a escrita de uma obra (Infância) influenciou a composição da outra, posterior a ela. No entanto, apesar da aparente contradição, a hipótese que parece melhor explicar a relação entre os dois livros é a que segue o rumo contrário. Talvez as Memórias do cárcere possam iluminar Infância, pondo de lado a data de publicação das obras e trazendo à tona o componente biográfico para a interpretação do texto.
Não seria novidade afirmar que a experiência da cadeia provocou inúmeras mudanças na vida e na obra de Graciliano Ramos. Concentrando-se apenas no tocante à sua literatura, se pode afirmar, como outros analistas já o fizeram, que a produção artística de Graciliano nunca mais foi a mesma depois que o autor deixou as celas da detenção. E não se faz referência aqui às constantes mudanças estilísticas que o autor ia fazendo de romance para romance; experimentalista, a prosa de Graciliano sempre buscou novos meios de expressão, fazendo com que de Caetés a Angústia, cada um de seus livros fosse diferente do anterior. A mudança que se observa aqui é mais profunda, pois atinge tanto a forma literária quanto a visão de mundo do autor.
Uma análise mais detida de alguns de seus textos posteriores à cadeia revela que se modificou o modo de encarar o homem na obra de Graciliano Ramos. Se, segundo a crítica já assinalou exaustivamente, os três primeiros romances do autor estão carregados de uma visão amarga da humanidade, os seus escritos posteriores 1936 vão mostrar que – sem se transformar em uma literatura otimista, solar – cresce na obra de Graciliano um desejo mais profundo de entendimento do próximo; é um sentimento de solidariedade que se manifesta, como se afirmou acerca de Infância. Sem abrir mão de seus valores fundamentais, mantendo-se a uma distância segura em relação àquilo que narra, o autor parece querer humanizar o próprio homem, revelando seus “valores e misérias 15” e comovendo-se com eles.
O livro infantil A terra dos meninos pelados e o romance Vidas secas parecem ser os textos em que mais se explicitam as mudanças mencionadas dentro da obra de Graciliano Ramos, além, é claro, das próprias Memórias do cárcere, texto-base no qual se acredita estar a chave para o entendimento da postura assumida pelo autor ao relatar seus primeiros anos de vida no livro de 1945.
Primeiro trabalho literário do escritor redigido após sua saída da prisão, A terra dos meninos pelados é, segundo Wander M. Miranda, “uma pequena fábula contra a intolerância 16“, através da qual Graciliano demonstra, talvez sem o saber, uma predisposição grande à diferença, que marcará sua obra daí por diante. A história de Raimundo Pelado, menino que sofre por não ser como os demais (ele possui um olho azul e outro negro, além de não ter cabelo), pode ser tomada como exemplo do posicionamento ético do autor, apesar da simplicidade aparente do texto.
Após ser humilhado pelas crianças suas vizinhas, o pequeno protagonista da narrativa idealiza um mundo onde todos fossem como ele e nada oferecesse perigo. Os meninos desse lugar são “pelados” e vivem entre rios que mudam de lugar, plantas e bichos que falam, carros gentis. Ao se integrar a esse universo estranho, Pirundo (nome dado ao menino pelos novos amigos) se vê diante de proposta de um deles que o faz refletir. Uma das crianças possuía sardas no rosto, o que a diferenciava das demais. Incomodada com isso, dirigiu-se a Raimundo: “- Meu projeto é este: podíamos obrigar a toda a gente a ter manchas no rosto. (...) Ficava mais certo, ficava tudo igual 18”. A isso, a resposta de Raimundo/Pirundo é direta: “Não presta não. (...) gente não é rapadura 19”. Mais adiante, conclui: “Se todos fossem como o anãozinho e tivessem sardas, a vida seria enjoada 20”. Produz-se, assim, uma inversão no texto: o menino, triste por ser diferente, reconhece, por sua própria experiência, o valor da diversidade.
Ao mostrar que a vontade de suprimir a diferença é uma armadilha na qual até a consciência do oprimido pode cair a qualquer momento, Graciliano Ramos apresenta o problema da intolerância de modo não-maniqueísta, dizendo, implicitamente, que o erro em que os zombeteiros vizinhos incorreram em relação a Raimundo é humano, comum, embora condenável. O autor demonstra, enfim, que até numa terra em que tudo é diferente, a imaginária Tatipirum, o perigo da intransigência surge e deve ser afastado.
Já em Vidas secas a questão se complexifica, ganhando dimensões a que este texto, por ora, não se propõe a enfrentar. Mas, de qualquer modo, é possível vislumbrar em apenas algumas características do livro, a atitude ética e estética distinta que o autor assume em face dos dilemas humanos: diferente de seus outros romances, o livro pode ser visto, entretanto, como continuidade e aprofundamento do deslocar-se em direção ao outro que se inicia com “A terra dos meninos pelados” e vai alcançar sua plenitude nas memórias do escritor.
Parte da crítica concorda que Vidas secas é a mais “otimista” das obras de Graciliano Ramos, notando as consideráveis diferenças do texto em relação à sua ficção anterior. Sem discutir tal juízo, o que se constata é que há algo novo no livro. Narrado em terceira pessoa, conta a história de uma família de retirantes nordestinos que foge da seca. Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos e a cachorra Baleia são focalizados por um narrador que se coloca como intermediário entre eles e o leitor: as experiências dos personagens são apresentadas de modo extremamente objetivo, sem maiores análises. No entanto, mesmo no distanciamento do narrador em relação a suas criaturas, percebe-se uma discreta empatia entre eles, que se avoluma à medida que a história avança.
Apesar de entregues ao sofrimento que a natureza e a sociedade reservou para eles, os personagens de Vidas secas lutam – com a pouca consciência que têm da própria situação – contra as adversidades do meio. A representação de seu combate pela vida é, quem sabe, um dos modos encontrado pelo autor para afirmar o seu maior interesse pelos homens. Fabiano é diferente, portanto, de um personagem como Luís da Silva (Angústia), que se entrega à degradação e ao niilismo, e oferece do homem uma visão perversamente sombria.
Cabe destacar, ainda, que a divisão do livro em capítulos dedicados a cada um dos personagens e o uso intenso do discurso indireto livre constituem também recursos de Graciliano Ramos que visam fazê-lo aproximar-se dos homens que representa, uma vez que nos oferece, capítulo a capítulo da obra, a realidade tal qual a vêem os diferentes personagens, numa espécie de exercício no qual o narrador (e, por efeito do texto, também o leitor) se coloca no lugar dos meninos, da cadelinha, de Sinhá Vitória e seu marido, sentido o que eles sentem e sofrendo com o que eles sofrem. Um trecho da correspondência de Graciliano com sua esposa Heloísa, contemporânea da composição de Vidas secas, esclarece um pouco as intenções do autor, que parecem estar próximas as que se descreveu acima. Nele se explica a fatura do capítulo “Baleia”:
“Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil, como você vê: procurei adivinhar o que passa na alma duma cachorra. (...) O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente como nós desejamos. (...) 21”.
Passando por esses textos, finalmente, buscou-se desenhar um mapa em direção a Infância: profundamente abalado pela dolorosa experiência prisional, recriada em Memórias do cárcere, Graciliano Ramos reinventou-se, reinventando sua literatura e a visão da humanidade que ela carrega. Assumindo pela primeira vez a própria voz, falando em seu próprio nome em sua obra de memorialista – o escritor enfrenta seu passado, relatando seus sofrimentos e condenando-os sem, contudo, condenar integralmente as pessoas que com ele viveram. Marcado pela consciência dos fatos recentes (o cárcere e as reflexões que a partir dele surgiram), Graciliano Ramos se debruça sobre o vivido e o resgata, oferecendo dele uma visão dolorosa e honesta.
Compreender o próximo, abrir-se para ele. Deixá-lo falar quando sua voz é impossível. Colocar-se no lugar do outro sem abdicar dos próprios valores. Reavaliar cada uma das suas “verdades” através do diálogo com o ponto de vista e as motivações alheias, descobrindo a cada passo a relatividade do bem e do mal. Entre outras, essas parecem ser – segundo pensamos – algumas das lições que o autor de Infância apreende e repassa ao percorrer, com os olhos no presente, seus primeiros anos de vida.
NOTAS:
CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão. São Paulo: 34, 1992, p. 61.
SENNA, Homero. Revisão do modernismo. In: Fortuna crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p. 55.
RAMOS, Graciliano. Infância. São Paulo: Record, 2003, p. 21.
MIRANDA, Wander Melo. Graciliano Ramos. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 61.
FARIA, Octavio de. Graciliano Ramos e o sentido do humano. In: Fortuna crítica, p. 175.
Infância, p. 26.
Infância, p. 31.
Infância, p. 224.
Infância, p. 225.
Infância, p. 227.
Infância, p. 47.
Infância, p. 34.
Infância, p. 34.
RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. São Paulo: Record, 1986, p. 35.
LINS, Álvaro. Valores e misérias de Vidas secas. In: Vidas secas. São Paulo: Record,1988, p. 128.
MIRANDA, Wander Melo. Op. cit., p. 75.
RAMOS, Graciliano. A terra dos meninos pelados. In: Alexandre e outros heróis. São Paulo: Record, 1981, p. 122.
A terra dos meninos pelados, p. 122.
A terra dos meninos pelados, p. 122..
RAMOS, Graciliano. Cartas. São Paulo: Record, 1986, p. 201.
No que diz respeito à linguagem, já é lugar-comum da crítica afirmar que Infância é o livro mais bem escrito de quantos realizou Graciliano Ramos, uma vez que aí estariam combinadas a concisão lingüística – marca inconfundível do autor – e um intenso lirismo, dificilmente encontrado em seus demais textos. Sem se esgotar, a luta sôfrega que o escritor sabidamente empreendeu com a língua parece aqui alcançar um ponto de equilíbrio, no qual a palavra flui mais natural (menos torturada), e seu potencial expressivo eleva-se enormemente, alcançando muitas vezes o poético.
Elemento importante, apontado também pela crítica, é o abandono que Graciliano faz, a partir desta obra, das narrativas ficcionais em detrimento de uma escrita memorialística, calcada na sua vivência pessoal. Essa espécie de transição foi, segundo as palavras de Antonio Candido, a passagem “da ficção para a autobiografia como desdobramento coerente e necessário de sua obra 1”, que marca o momento de elevação para o primeiro plano de elementos autobiográficos que se encontravam dispersos em seus romances, de Caetés a Vidas secas. O próprio autor, em entrevista concedida a Homero Senna em 1948, afirmava: “Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou 2”, palavras que ajudam a compreender a relação que seus livros memorialísticos, principalmente Infância, mantém com o restante de sua obra: dentro da ficção encontra-se a memória, e esta se aproxima, todo o tempo, da narrativa ficcional.
Por fim, destaca-se ainda o problema do compromisso ético da escrita de Graciliano, compromisso reafirmado em Infância e que se traduz no posicionamento do autor frente às contradições humanas que o texto busca representar e compreender. Aqui, é o relacionamento de um menino tímido e assustado (o próprio escritor) com seu “pequeno mundo incongruente 3”, formado por seus pais, professores e vizinhos, o que vai servir de base às suas constantes inquirições. Presente em praticamente todos os seus textos, o problema da reflexão ética vai alcançar, nos seus livros memorialísticos, relevância sem precedentes na literatura brasileira. Mais do que narrar o vivido e oferecer dele uma visão cristalizada, Graciliano Ramos busca entendê-lo no momento mesmo em que escreve, revendo a cada passo os conceitos que tem de si e dos outros. Segundo o ensaísta e professor Wander Melo Miranda, para Graciliano “o passado é eleito como um lugar de reflexão – no sentido simultâneo de retratar e reflexionar 4”.
Seus relatos autobiográficos não deixam dúvidas: se nas Memórias do cárcere o escritor reconstitui o tempo em que esteve preso para reencontrar-se com os companheiros de cela, os presos políticos, os guardas, e deixá-los falar através de seu relato – quebrando o silêncio que lhes foi imposto –, em Infância Graciliano Ramos se propõe a um reencontro com os seus primeiros anos, com o menino que foi e com as pessoas que o cercaram naquele tempo, tentando enxergar-se através delas. Narrativas de acontecimentos dolorosos, as memórias da criança e as do intelectual detido, embora distintas, unem-se na realização de um mesmo movimento: ambas reelaboram a experiência viva do passado e dela procuram extrair a imagem de um “eu” que se constrói a partir do contato com o outro, que se sabe distante dos demais mas que quer aproximar-se deles. Mais do que reconstituir o passado, trata-se de reavaliá-lo.
Em Infância se pode perceber uma nuance particular da junção ética/estética que promove a obra do autor de Insônia: além de dar visibilidade e voz aos seres marginalizados que habitam seus textos, como ocorre na maior parte de seus romances e, via de regra, é um procedimento associado ao posicionamento político do escritor, aqui Graciliano Ramos parece dar um passo a mais, ao abrir espaço e manifestar simpatia não só pelos oprimidos, mas também por aqueles que, circunstancialmente, oprimem. Perpassa o livro um desejo profundo de compreensão do outro, desejo que luta contra mágoas e preconceitos bastante arraigados. Ainda que o traço crítico do autor se mantenha constante, não o deixando deslizar para uma atitude compassiva para com o que relata, o resultado dessa mistura de denúncia e compreensão é uma obra ambígua, aberta: a um só tempo dura e terna.
Como se pode ver a partir desta breve discussão, Infância constitui obra fundamental para melhor compreender o universo artístico de Graciliano Ramos. Questões-chave de sua escritura e de sua complexa personalidade podem ser ali entrevistas, oferecendo ao pesquisador vasto campo de estudos. Porém, apesar de sua indiscutível riqueza, o livro tem merecido escassa atenção da crítica especializada. Existem poucos trabalhos de fôlego sobre a obra e, os que aí estão, ainda não exploraram todas as possibilidades significativas do texto. Resgatar o que, em essência, já foi dito sobre o livro pode iluminar pontos ainda obscuros da obra, ajudando a entendê-la.
Ao longo de seus mais de 60 anos de publicação, as leituras feitas da obra vêm seguindo, aproximadamente, algumas tendências comuns, válidas e importantes para seu entendimento, embora insuficientes. A primeira e mais típica forma de abordagem liga-se a certa tradição interpretativa excessivamente biográfica, que vez ou outra incorre em ingenuidades ao associar vida e obra do escritor. Tomando os relatos memorialísticos de Graciliano como registro veraz de fatos vividos, tal parcela da crítica lê Infância apenas como suporte para a produção ficcional do autor, acreditando que os episódios narrados ali explicam, por si só, a gênese de personagens, cenas e de uma certa “visão de mundo” supostamente comum aos seus textos. É o caso, por exemplo, de Graciliano Ramos e o sentido do humano, ensaio de Octavio de Faria, onde se lê:
“Em Graciliano Ramos, o menino (...) é tudo. Seus heróis são o menino, sua timidez é a do menino, seu pessimismo é o do menino... 5”
Este tipo de abordagem, apesar de possuir alguma validade – haja visto que determinados trechos de Infância podem ser associados com proveito à ficção graciliânica – é limitador, pois transforma o texto em mero apêndice dos romances do autor, retirando dele sua autonomia e validade próprias. Além, é claro, de desconsiderar o inevitável componente ficcional que todo relato memorialístico possui, dado que – como é impossível reconstituir à perfeição o passado – as frestas que a memória deixa vão sendo preenchidas pela imaginação, num jogo de lembranças e esquecimentos que reelabora a experiência vivida em fato literário. É como se as memórias formassem gênero a parte, menor, que não oferecesse material crítico analisável por si mesmo. Fazem parte dessa espécie de tendência interpretativa do livro obras como “Graciliano Ramos: reflexos de sua personalidade na obra”, de Helmut Feldmann, “O mandacaru e a flor”, de Regina F. de Almeida Conrado e, em menor grau, até o já citado “Ficção e confissão”, de Antonio Candido, entre outros.
Diferentemente dos que leram a autobiografia de Graciliano Ramos com os olhos voltados exclusivamente para os seus demais livros, há alguns estudos que se dedicaram a descrever e interpretar Infância como texto independente. Textos de matriz psicanalítica, sociológica, comparativista ou estilística dão conta da variedade de interesses sucitados pela obra. O que salta aos olhos, no entanto, é um traço comum a praticamente todas as leituras do livro, uma espécie de constante na diversidade: quase todas apresentam-no como relato terrível dos sofrimentos e angústias experimentados pela criança que foi Graciliano Ramos; concentram-se os críticos apenas na descrição sombria, tingida de elementos expressionistas, que o menino oferece dos castigos físicos e humilhações que suportou.
Uma rápida leitura de alguns dos títulos dos textos que se debruçam sobre Infância servirá de exemplo da tendência interpretativa a que aqui se faz referência: “O bezerro encourado ou As terríveis armas”, de Vera Maria de Matos Oliveira; “Infância: violência e iniciação”, capítulo da dissertação de Marcelo Magalhães Bulhões e “Uma aprendizagem dolorosa”, ensaio de Afonso Henrique Fávero, entre outros, títulos que falam por si e dão a medida do que foi destacado pelos críticos.
Sem discordar integralmente dessas duas formas de leitura apresentadas, que ressaltam – como ficou dito – aspectos decisivos de Infância, é possível apontar, entretanto, questões ainda não de todo analisadas pela crítica. Uma delas é a recorrência de um procedimento narrativo singular, fruto da complexa aproximação entre narração e reflexão empreendida por Graciliano Ramos. Este procedimento (assim chamado por falta de melhor definição) consiste na adoção, pelo narrador de Infância, de um ponto de vista ambíguo, a um só tempo crítico e compreensivo em relação aos fatos narrados. Seria um distanciamento solidário o que caracterizaria a atitude daquele que narra, pois ele denuncia a violência de que foi vítima e, no mesmo gesto, busca entender e até solidarizar-se com aqueles que o maltrataram.
Querendo apresentar o mundo hostil e violento em que viveu – pintando retratos terríveis da mãe e do ambiente escolar do interior nordestino, por exemplo – o autor preocupa-se também em pensá-lo, procurando descobrir através da aparência superficial dos seres e situações o real significado de seus atos. Graciliano Ramos, com isso, humaniza seus pais, professores e conterrâneos que o injustiçaram (e aos demais entes frágeis), descrevendo-os como pessoas cheias de ambigüidade e ignorância, mas nunca completamente bons ou absolutamente maus.
O olhar do memorialista identifica-se ao de um relativista. Ele busca refletir sobre os acontecimentos do passado sem idéias pré-concebidas sobre os mesmos; trata-se antes de uma luta contra tais idéias. Não há verdades fixas em sua narrativa. Os mesmos seres que o fazem sofrer surpreendem-no com gestos de inesperada bondade, perturbando-o na sua falta aparente de lógica. Em meio à descoberta da dualidade dos seres e de suas razões, a atitude do narrador das memórias será ela própria dual: nem a aceitação ingênua e idealista da infância – comum aos textos autobiográficos – nem a completa condenação do passado, que aproximaria Infância de um discurso ressentido. O “eu” construído por Graciliano aí impõe a si a difícil tarefa de andar na precária linha que se situa entre o eu e outro. Ao enxergar nos que o atormentaram não apenas a mão que agride e a voz que ameaça, mas também os traços humanos e sensíveis dos que, apesar de tudo, podem ser bons, Graciliano Ramos reafirma, com caracteres mais nítidos do que em seus romances, o compromisso ético de sua escrita.
Logo nos primeiros capítulos de Infância encontram-se exemplos deste complexo movimento empreendido pelo texto. Antes mesmo de apresentar ao leitor os pais, epicentros do mundo infantil que recompõe, o narrador já oferece suas reflexões sobre uma possível explicação do comportamento hostil que eles apresentam. Ao falar da mãe, observa:
“Se não existisse aquele pecado, estou certo de que minha mãe teria sido mais humana. De fato meu pai comportava-se bem. Mas havia aquela evidência de faltas antigas, evidência forte, de cabeleira negra, beiços vermelhos, olhos provocadores (...) Julgo que agüentamos cascudos por não termos a beleza de Mocinha. 6 ”
Aqui, a busca do distanciamento solidário é nítida. As ações da mãe, que no tempo do enunciado feriram o menino, no tempo da enunciação são reavaliadas, passando a figurar em outra ordem de acontecimentos que não privilegie somente o ponto de vista da vítima (o menino e, também, suas irmãs, que agüentaram “muito cascudo”), mas também o do algoz: o “pecado”, uma filha espúria do marido, magoava a mãe do escritor, que a revê assim mais real, também sujeita a desgostos, não apenas causadora deles.
Posicionamento semelhante encontra-se também em passagens que se referem ao pai do escritor (“Hoje acho naturais as violências que o cegavam 7”), ao Padre João Inácio – vigário de Buíque que, pela aparência incomum e pela aspereza de trato para com os paroquianos, infundia medo na criança, a qual só muito mais tarde percebeu a bondade de suas ações caridosas – chegando, até mesmo, a um estranho como o personagem Fernando, homem rude e temido, descrito como “bicho perigoso 8”, protegido do chefe político local, “dono dos corpos e das almas 9”. Ele é apresentado, após irônica reflexão do narrador, como ser capaz de importar-se com a segurança das crianças, apesar das crueldades que possivelmente já havia perpetrado:
“Então Fernando não era mau? Pensei num milagre. Julguei ter sido injusto. Fernando, o monstro, semelhante a Nero, receava que as crianças ferissem os pés. 10”
Relacionado a este movimento reflexivo que o texto empreende, é interessante notar também que as escolhas estilísticas e as técnicas narrativas empregadas por Graciliano Ramos se ajustam perfeitamente às idas e vindas de Infância. No intuito de abarcar tanto as experiências do passado quanto as reflexões e posicionamentos do presente, o autor utiliza um modo de narrar que se ajusta à natureza do gênero memorialístico e confere ao relato uma riqueza de matizes bastante ampla: referimo-nos aqui aos desdobramentos do narrador em duas vozes distintas num só movimento textual; uma mais ligada ao olhar da criança e outra ao olhar adulto. É como se houvessem dois narradores contidos num mesmo “eu”, que se alternam, imbricam e desdobram no corpo da obra. Nem sempre clara, a distinção entre as vozes narrativas de Infância é possível, no entanto, por algumas marcas lingüísticas particulares e pelos julgamentos que fazem das coisas que as rodeiam.
O primeiro desdobramento do narrador da obra configura-o como um narrador-infantil. Através de seus olhos, Graciliano Ramos apresenta a percepção da realidade que a criança tem, marcada pela fragmentação, pela desorientação espacial e pelo medo. As pessoas e objetos descritos a partir deste ponto de vista ganham novas conotações, já que são apresentados como se vistos pela primeira vez, despidos de seus nomes e conceitos habituais. É algo próximo ao que V. Chklóvski define como “singularização do olhar”, no célebre ensaio “A arte como procedimento” (Chklóvski, 1976). No capitulo “Chegada à vila”, encontra-se a descrição das casas de cidade, uma com azulejos na fachada e outra de dois andares, desconhecidas pela criança – que até aqui só havia morado na fazenda Pintadinho – ilustrativa do que se está tratando:
“De repente me vi apeado (...) num mundo estranho, cheio de casas (...) Havia duas maravilhosas: uma de quadrados faiscantes, uma que se montava na outra. 11”.
Nas passagens em que a sensação de angústia se faz presente em Infância, é também pelo olhar da criança que elas aparecem, como no capítulo “Um cinturão”, momento máximo da violência e do terror experimentados pelo menino. Este vê “paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita 11”, dentro das quais seu pai grita, fazendo-a sentir “a casa a girar, meu corpo a cair lento (...) abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos 13”, imagens e sons relacionados ao medo sufocante que sentia ante a surra que estava prestes a levar. Como se pode observar pelos fragmentos citados, a quebra da perspectiva realista é outro traço de Infância, especialmente presente quando o narrador aproxima seu olhar do ponto de vista infantil.
Propenso à reflexão, maduro, consciente do agressivo ambiente que o gerou, o segundo desdobramento da voz narrativa, que se combina o tempo todo à primeira, é o que aproxima o narrador do mundo adulto. Dele são as constantes digressões que constituem o tecido narrativo de Infância. Enquanto as impressões do menino situam-se no momento do enunciado, oferecendo uma visão parcial e emotiva dos fatos, o narrador-adulto está situado no tempo da enunciação, tentando enxergar os acontecimentos de seu passado do modo mais amplo e distanciado possível. A postura compreensiva em relação ao próximo e a crítica feroz à violência do seu mundo infantil misturam-se em sua voz, complexificando sua imagem e oferecendo dela um retrato tão ambíguo quanto o que ele mesmo traçou dos que povoaram sua meninice sertaneja.
Em suas palavras, os objetos e situações ganham concretude, têm seu peso e impacto medidos, mesmo quando se apresentam envolvidas pela distância que separa o narrador da matéria narrada. Além de reavaliar suas ações e as de seus semelhantes, o narrador questiona os limites da própria memória, conferindo densidade às suas reflexões, uma vez que não toma o passado como algo dado, pronto. Há a consciência de que ele (o passado) está sendo elaborado pelo discurso, no instante mesmo em que se produzem os juízos que são apresentados ao leitor.
Mas, uma vez colocada essa hipótese de leitura de Infância que busca tomá-la como relato dual, crítico e compreensivo em relação ao passado que retrata, é possível que venham outras questões à mente do leitor mais familiarizado com a obra e a fortuna crítica de Graciliano Ramos. Como acreditar que as memórias do escritor sejam simpáticas às pessoas que o espezinharam, de modo especial os pais, dos quais tantas vezes criou imagens rudes? Porque um escritor como ele, tido pela crítica como pessimista, voltaria – no auge da sua capacidade criativa – a uma infância tão traumática para revê-la de modo mais humano, para reaproximar-se dela? Sem se esquivar da complexidade destas perguntas e, mesmo sem ter respostas conclusivas para elas, talvez seja possível pensá-las a partir da aproximação de Infância a outras obras de Graciliano, no intuito de que esta mirada comparativa revele outras nuances de sua escritura e, também, outras circunstâncias de sua biografia que ajudem a esclarecer sua obra, já que não se pode perder de vista a ligação estreita existente entre o texto memorialístico e a vida do escritor.
Observando os demais livros do autor, chama atenção a existência de semelhanças entre as Memórias do cárcere e Infância. Além de constituírem a porção autobiográfica de sua obra e, por serem ambos volumes de memórias, possuírem traços estilísticos comuns, os aproxima, acima de tudo, o posicionamento que o escritor adota em relação às pessoas que com ele conviveram, seja nos primeiros anos de vida, seja no período em que esteve na cadeia. E não é outro esse posicionamento senão o que se apontou anteriormente a respeito de Infância: o narrador das Memórias do cárcere também parece querer acertar as contas com o passado, revendo a si e aos outros em busca de entender melhor as motivações e significados dos seus gestos e dos gestos alheios que o ajudaram ou feriram.
Preso no início de 1936, Graciliano Ramos passará 10 meses em poder da polícia política do governo Vargas. Sem nunca saber exatamente a natureza das acusações que pesavam sobre ele, o escritor transitará por presídios do Recife e do Rio antes de ser libertado em janeiro de 1937. Nesse tempo, convive com todo tipo de gente: presos políticos ligados ao PCB, militares rebelados, ladrões e assassinos comuns, além do corpo de funcionários do Estado responsáveis pelo encarceramento e repressão dos detentos. Dez anos depois de vivenciar essa experiência-limite, dá início a composição das Memórias do cárcere, publicadas após sua morte, em 1954.
Projetado inicialmente como testemunho das infamantes condições em que viviam, dentro da prisão, os opositores do regime, o livro – sem deixar de ser um ataque às instituições do nosso “pequeno fascismo tupiniquim 14” – transformou-se em espaço de auto-reflexão para o escritor, que terminou por narrar muito mais do que apenas os maus tratos a que ele e seus companheiros de destino foram condenados.
As Memórias do cárcere podem ser lidas como a narrativa do encontro de um homem com suas precárias certezas, que ruíram, uma após outra, a seus pés. À medida que avançam as páginas, as dúvidas tornam-se mais freqüentes no texto. Ao relatar minuciosamente seu trajeto na prisão, Graciliano depara-se com o que não imaginava encontrar: de onde menos esperava, recebeu solidariedade. Do primeiro carcereiro, do ladrão contumaz e do soldado, vieram-lhe oferecimentos e favores incomuns, contrariando a expectativa de que deles só desprezo e violência se poderia arranjar. Assim como o narrador de Infância se surpreende ao reavaliar, no presente, algumas atitudes que o intimidaram quando criança, o narrador das Memórias revê sua estadia na cadeia e surpreende-se com a bondade encontrada em alguns, num ambiente marcado pela opressão.
Tal surpresa advém da percepção de que os conceitos preestabelecidos, as verdades absolutas, não existem. A experiência no mundo, o contato com a alteridade e a necessidade da reflexão revelaram ao escritor a incerteza fundamental que cerca seres e juízos. Como análise mais detalhada pode mostrar, há uma co-incidência de procedimentos e indagações em Infância e Memórias do cárcere. O mesmo encontro com o outro que se dá na narrativa de 1945, estará – sob outras circunstâncias, é claro – também nos escritos finais de Graciliano Ramos.
Ao constatar-se a continuidade de uma mesma procura nos textos memorialísticos do autor, o crítico estará tentado a pensar que a escrita de uma obra (Infância) influenciou a composição da outra, posterior a ela. No entanto, apesar da aparente contradição, a hipótese que parece melhor explicar a relação entre os dois livros é a que segue o rumo contrário. Talvez as Memórias do cárcere possam iluminar Infância, pondo de lado a data de publicação das obras e trazendo à tona o componente biográfico para a interpretação do texto.
Não seria novidade afirmar que a experiência da cadeia provocou inúmeras mudanças na vida e na obra de Graciliano Ramos. Concentrando-se apenas no tocante à sua literatura, se pode afirmar, como outros analistas já o fizeram, que a produção artística de Graciliano nunca mais foi a mesma depois que o autor deixou as celas da detenção. E não se faz referência aqui às constantes mudanças estilísticas que o autor ia fazendo de romance para romance; experimentalista, a prosa de Graciliano sempre buscou novos meios de expressão, fazendo com que de Caetés a Angústia, cada um de seus livros fosse diferente do anterior. A mudança que se observa aqui é mais profunda, pois atinge tanto a forma literária quanto a visão de mundo do autor.
Uma análise mais detida de alguns de seus textos posteriores à cadeia revela que se modificou o modo de encarar o homem na obra de Graciliano Ramos. Se, segundo a crítica já assinalou exaustivamente, os três primeiros romances do autor estão carregados de uma visão amarga da humanidade, os seus escritos posteriores 1936 vão mostrar que – sem se transformar em uma literatura otimista, solar – cresce na obra de Graciliano um desejo mais profundo de entendimento do próximo; é um sentimento de solidariedade que se manifesta, como se afirmou acerca de Infância. Sem abrir mão de seus valores fundamentais, mantendo-se a uma distância segura em relação àquilo que narra, o autor parece querer humanizar o próprio homem, revelando seus “valores e misérias 15” e comovendo-se com eles.
O livro infantil A terra dos meninos pelados e o romance Vidas secas parecem ser os textos em que mais se explicitam as mudanças mencionadas dentro da obra de Graciliano Ramos, além, é claro, das próprias Memórias do cárcere, texto-base no qual se acredita estar a chave para o entendimento da postura assumida pelo autor ao relatar seus primeiros anos de vida no livro de 1945.
Primeiro trabalho literário do escritor redigido após sua saída da prisão, A terra dos meninos pelados é, segundo Wander M. Miranda, “uma pequena fábula contra a intolerância 16“, através da qual Graciliano demonstra, talvez sem o saber, uma predisposição grande à diferença, que marcará sua obra daí por diante. A história de Raimundo Pelado, menino que sofre por não ser como os demais (ele possui um olho azul e outro negro, além de não ter cabelo), pode ser tomada como exemplo do posicionamento ético do autor, apesar da simplicidade aparente do texto.
Após ser humilhado pelas crianças suas vizinhas, o pequeno protagonista da narrativa idealiza um mundo onde todos fossem como ele e nada oferecesse perigo. Os meninos desse lugar são “pelados” e vivem entre rios que mudam de lugar, plantas e bichos que falam, carros gentis. Ao se integrar a esse universo estranho, Pirundo (nome dado ao menino pelos novos amigos) se vê diante de proposta de um deles que o faz refletir. Uma das crianças possuía sardas no rosto, o que a diferenciava das demais. Incomodada com isso, dirigiu-se a Raimundo: “- Meu projeto é este: podíamos obrigar a toda a gente a ter manchas no rosto. (...) Ficava mais certo, ficava tudo igual 18”. A isso, a resposta de Raimundo/Pirundo é direta: “Não presta não. (...) gente não é rapadura 19”. Mais adiante, conclui: “Se todos fossem como o anãozinho e tivessem sardas, a vida seria enjoada 20”. Produz-se, assim, uma inversão no texto: o menino, triste por ser diferente, reconhece, por sua própria experiência, o valor da diversidade.
Ao mostrar que a vontade de suprimir a diferença é uma armadilha na qual até a consciência do oprimido pode cair a qualquer momento, Graciliano Ramos apresenta o problema da intolerância de modo não-maniqueísta, dizendo, implicitamente, que o erro em que os zombeteiros vizinhos incorreram em relação a Raimundo é humano, comum, embora condenável. O autor demonstra, enfim, que até numa terra em que tudo é diferente, a imaginária Tatipirum, o perigo da intransigência surge e deve ser afastado.
Já em Vidas secas a questão se complexifica, ganhando dimensões a que este texto, por ora, não se propõe a enfrentar. Mas, de qualquer modo, é possível vislumbrar em apenas algumas características do livro, a atitude ética e estética distinta que o autor assume em face dos dilemas humanos: diferente de seus outros romances, o livro pode ser visto, entretanto, como continuidade e aprofundamento do deslocar-se em direção ao outro que se inicia com “A terra dos meninos pelados” e vai alcançar sua plenitude nas memórias do escritor.
Parte da crítica concorda que Vidas secas é a mais “otimista” das obras de Graciliano Ramos, notando as consideráveis diferenças do texto em relação à sua ficção anterior. Sem discutir tal juízo, o que se constata é que há algo novo no livro. Narrado em terceira pessoa, conta a história de uma família de retirantes nordestinos que foge da seca. Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos e a cachorra Baleia são focalizados por um narrador que se coloca como intermediário entre eles e o leitor: as experiências dos personagens são apresentadas de modo extremamente objetivo, sem maiores análises. No entanto, mesmo no distanciamento do narrador em relação a suas criaturas, percebe-se uma discreta empatia entre eles, que se avoluma à medida que a história avança.
Apesar de entregues ao sofrimento que a natureza e a sociedade reservou para eles, os personagens de Vidas secas lutam – com a pouca consciência que têm da própria situação – contra as adversidades do meio. A representação de seu combate pela vida é, quem sabe, um dos modos encontrado pelo autor para afirmar o seu maior interesse pelos homens. Fabiano é diferente, portanto, de um personagem como Luís da Silva (Angústia), que se entrega à degradação e ao niilismo, e oferece do homem uma visão perversamente sombria.
Cabe destacar, ainda, que a divisão do livro em capítulos dedicados a cada um dos personagens e o uso intenso do discurso indireto livre constituem também recursos de Graciliano Ramos que visam fazê-lo aproximar-se dos homens que representa, uma vez que nos oferece, capítulo a capítulo da obra, a realidade tal qual a vêem os diferentes personagens, numa espécie de exercício no qual o narrador (e, por efeito do texto, também o leitor) se coloca no lugar dos meninos, da cadelinha, de Sinhá Vitória e seu marido, sentido o que eles sentem e sofrendo com o que eles sofrem. Um trecho da correspondência de Graciliano com sua esposa Heloísa, contemporânea da composição de Vidas secas, esclarece um pouco as intenções do autor, que parecem estar próximas as que se descreveu acima. Nele se explica a fatura do capítulo “Baleia”:
“Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil, como você vê: procurei adivinhar o que passa na alma duma cachorra. (...) O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente como nós desejamos. (...) 21”.
Passando por esses textos, finalmente, buscou-se desenhar um mapa em direção a Infância: profundamente abalado pela dolorosa experiência prisional, recriada em Memórias do cárcere, Graciliano Ramos reinventou-se, reinventando sua literatura e a visão da humanidade que ela carrega. Assumindo pela primeira vez a própria voz, falando em seu próprio nome em sua obra de memorialista – o escritor enfrenta seu passado, relatando seus sofrimentos e condenando-os sem, contudo, condenar integralmente as pessoas que com ele viveram. Marcado pela consciência dos fatos recentes (o cárcere e as reflexões que a partir dele surgiram), Graciliano Ramos se debruça sobre o vivido e o resgata, oferecendo dele uma visão dolorosa e honesta.
Compreender o próximo, abrir-se para ele. Deixá-lo falar quando sua voz é impossível. Colocar-se no lugar do outro sem abdicar dos próprios valores. Reavaliar cada uma das suas “verdades” através do diálogo com o ponto de vista e as motivações alheias, descobrindo a cada passo a relatividade do bem e do mal. Entre outras, essas parecem ser – segundo pensamos – algumas das lições que o autor de Infância apreende e repassa ao percorrer, com os olhos no presente, seus primeiros anos de vida.
NOTAS:
CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão. São Paulo: 34, 1992, p. 61.
SENNA, Homero. Revisão do modernismo. In: Fortuna crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p. 55.
RAMOS, Graciliano. Infância. São Paulo: Record, 2003, p. 21.
MIRANDA, Wander Melo. Graciliano Ramos. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 61.
FARIA, Octavio de. Graciliano Ramos e o sentido do humano. In: Fortuna crítica, p. 175.
Infância, p. 26.
Infância, p. 31.
Infância, p. 224.
Infância, p. 225.
Infância, p. 227.
Infância, p. 47.
Infância, p. 34.
Infância, p. 34.
RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. São Paulo: Record, 1986, p. 35.
LINS, Álvaro. Valores e misérias de Vidas secas. In: Vidas secas. São Paulo: Record,1988, p. 128.
MIRANDA, Wander Melo. Op. cit., p. 75.
RAMOS, Graciliano. A terra dos meninos pelados. In: Alexandre e outros heróis. São Paulo: Record, 1981, p. 122.
A terra dos meninos pelados, p. 122.
A terra dos meninos pelados, p. 122..
RAMOS, Graciliano. Cartas. São Paulo: Record, 1986, p. 201.
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