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quarta-feira, setembro 28, 2005

Nenhum Sertão existe 

“Eu resguardava meu talvez.”

- Riobaldo

Amigos,

Agradeço pelos elogios ao meu texto. Sua aprovação tem, para mim, uma relevância imensa. Aguardo o texto do Gustavo e (com menos esperança) os de outros colegas que queiram participar da discussão. Concordo plenamente com as observações do Eduardo: o amor é mais do que insuficiente para resolver o conflito entre Riobaldo e mundo de forma definitiva, nem meu texto se quer mais do que a interpretação de um episódio – um entre inúmeros que se enveredam pelo Grande Sertão. Na verdade, eu iria até mais longe na minha própria demonização. Quando se trata de G.S.V., seria mesmo possível falar em Totalidade, ainda que do tipo heráclito-nitzscheana?

O moderno pensamento anti-platônico (chamemo-lo assim), como articulado por Nietzsche e asseclas a partir de uma tradição pré-socrática, por mais rizomático que se pretenda, é dotado de uma certa coerência. A prova disso é que, se lhe apontamos possíveis contradições, seus defensores se crispam contra nós. Eles têm certeza do que dizem. Com a possível exceção de “Por que sou tão inteligente?”, seu discurso não se articula sob a forma de perguntas em aberto, mas sim de respostas incisivas, agressivamente afirmadas em detrimento das convicções contra as quais se lançam. Riobaldo, por sua vez, é um personagem que se define pela incerteza e pela incoerência; quanto a isso, aliás, não resta dúvidas. A questão é: será que ele, de fato, se define? Será que “Grande Sertão: Veredas”, ao se fazer narrar e protagonizar por Riobaldo, afirma uma visão heraclitiana do mundo e do homem como fundamentalmente incoerentes e constantes na inconstância (visão essa, porém, ela mesma dotada de coerência, como dito) e, portanto, nega a visão de mundo contrária? Ao que parece, é assim que pensa a Walnice Nogueira Galvão.

Ou será que, pelo contrário, deixando-se contaminar pela incoerência radical de seu narrador-protagonista, a obra acaba se investindo de uma indecidibilidade irredutível? Nesse caso, não haveria ali propriamente afirmação nem negação de nada (em última instância, é claro), mas simplesmente dúvida, hesitação e incerteza. Ao longo da leitura, o que percebemos é um sem-número de visões de mundo e paradigmas distintos, que se vão alternando enciclopedicamente diante de nós, sem nunca se cristalizar num panorama coeso. Nem o deicídio é definitivo. Diante disso, como pretender uma “chave de leitura” para o romance como um todo? Estaríamos eternamente condenados ao exame de episódios. A mencionada “morte da univocidade de sentido” se situaria no livro em si, justamente porque este não a atribui à vida, ao homem e ao mundo de maneira convicta. Mais do que apresentar a “transformação como concepção central de mundo”, a obra estaria, dessa forma, abdicando de uma concepção central de mundo. É assim que Guimarães Rosa teria logrado evitar o despenhadeiro no qual Deleuze, por exemplo, se atira orgulhosamente, berrando suas palavras de ordem. Que me dizem?

***

SONETO DO QUINTAL
(Ruy Espinheira Filho)

Ao recordar a moça, eu me comparo
ao cão que vejo a interrogar a brisa.
O que é mal comparar: bem mais precisa
é a mensagem de odores que o faro

decifra. E então medito sobre o claro
ser desse cão, e invejo essa precisa
vocação de existir. E ausculto a brisa
e nada nela encontro. Nada. E paro

de lembrar e pensar. Há mais profícuas
ocupações. Exemplo: só olhando
estar. Cão. Nuvens. Ramos. E, dormindo,

um gato. E essas formigas — três — conspícuas,
vestidas a rigor, deliberando
em torno de uma flor de tamarindo.

segunda-feira, setembro 19, 2005

A Harmonia Secreta do Caos 

"A rosa não tem porquês:
Floresce porque floresce."
- Ângelus Silesius

Uma das maiores fontes de angústia para o ser humano é sua expectativa (em última análise, ilegítima) de que o mundo faça sentido. Ora, o que o confronto com o mundo constantemente nos revela é o Absurdo, isto é, a completa ausência de sentido. Na esperança de traduzir o Absurdo nos termos da racionalidade humana e, assim, torná-lo suportável, lançamos mão de, basicamente, dois expedientes: a explicação e a justificativa. Para isso, recorremos à ciência, à religião, à filosofia, etc. A um espírito livre como Riobaldo, entretanto, evidencia-se freqüentemente a precariedade desse tipo de artifício, bem como a conseqüente impossibilidade de se humanizar o Absurdo. A partir daí, gera-se um sentimento de alteridade irredutível entre homem e mundo, apartados como que por um abismo de estranheza. Impossibilitado de se comunicar com o mundo, o homem se vê, dessa forma, prisioneiro absoluto de si mesmo, hermeticamente emparedado dentro de sua própria individualidade.

Tal insulamento ontológico (psicológico? – pergunta não-retórica) só se poderá reverter através do amor. Transformando-se “na cousa amada”, isto é, identificando-se com o objeto do próprio amor, projeta-se “o amador” para fora de si mesmo, reencontrando, assim, o mundo (de que, anteriormente, se vira alijado) corporificado na figura do outro. Amar nada mais é do que fazer recair sobre o outro a imagem do mundo; esta a propriedade mitificante do amor. Mediante tal operação, o amado deixa de importar enquanto indivíduo empírico e particular para se converter, imaginariamente, em metonímia da Totalidade: “A amada é a abreviatura do mundo” – Novalis. Verifique-se, a esse respeito, o Diadorim fantasmático, “apartado completo do viver comum”, que se nos apresenta à página 307 de G.S.V. Amando-o, Riobaldo transpõe as fronteiras exíguas de seu ser individual, no que poderíamos chamar de uma Hybris erótica: “Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo que doía e prazia.” (307)

Esse tipo peculiar de desmesura consiste justamente no oposto do que acomete o chamado Herói Trágico, uma vez que não coloca o homem em desacordo com um Cosmos regido por uma harmonia rígida, mas sim, pelo contrário, reconcilia-o com um mundo desprovido de qualquer ordenação. Por outro lado, a simultaneidade paradoxal de dor e prazer referida pelo jagunço é típica do amor como concebido no Ocidente pelo menos desde o tempo dos trovadores, e o Romantismo alemão saberá extrair-lhe corolários metafísicos. O amante se compraz tanto na alegria alheia quanto no próprio sofrimento, testemunhando, assim, a supressão de si a que o amor o incita. Não por acaso, tal masoquismo aponta para a morte: “Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava.” (307) Enquanto via de superação dos limites individuais e refusão definitiva na Totalidade, a morte representa a culminação última de um processo inicialmente deflagrado pelo amor. Vide Werther.

É certo que Riobaldo não se mata. Contudo, quando primeiro se dá conta de seus sentimentos por Diadorim, surpreende-se num estado de conformidade com a natureza comparável ao do personagem de Goethe quando se enamora de Charlotte. Com efeito, tal conformidade se traduz aqui mediante um procedimento estilístico (ademais amplamente empregado pelo Romantismo) cuja invenção se pode talvez atribuir aos “Sofrimentos do Jovem Werther”: a projeção de dados subjetivos sobre quadros naturais, que passam, dessa forma, a funcionar como símbolos exteriores de realidades íntimas. Trata-se, como se vê, de uma modalidade específica de correlação objetiva. É assim que, enlevado pela paixão, Werther descreverá as paisagens radiantes de Wahlheim, concretizações de sua própria felicidade. Da mesma maneira, em G.S.V., cria-se uma especularidade evidente entre o estado de espírito em que o amor recém-descoberto deixa Riobaldo e a subseqüente descrição da Guararavacã do Guaicuí.

A princípio, ao deixar o bando dos jagunços, em que “se cumpria o grosso de uma regra” (202) de cujo referencial reconfortante agora se vê privado, Riobaldo se confronta com o Nada: “O mundo estava vazio.” (304) Condenado à liberdade, só lhe resta flutuar à deriva: “E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia.” (304) A tristeza “sem razão” que o aflige faz com que inveje os seres brutos – peças autômatas da máquina do mundo, a qual lhes reserva em si um nicho feito sob medida. Ele, por sua vez, observa tudo com uma exterioridade aflitiva. Por toda parte, pressente a presença alienante do “Outro”: o mundo lhe pertence, e não ao homem. O sono, entretanto, espécie de morte efêmera, afigura-se como via de reintegração ao Todo: “Quando a gente dorme, vira de tudo” (304). Ao despertar, descobre que Diadorim o seguira. É a partir daí que seus sentimentos pelo companheiro afloram, motivando uma transformação profunda em sua relação com aquilo que o cerca.

Afetado pela virtude mágica do amor, o “mundo vazio” se transmuta na “Guararavacã do Guaicuí”, oásis pulsante de vida, pleno de pássaros, plantas e bois. Lá, Riobaldo aprende a apreciar o Belo. Onde antes só se deparava com o “vago” (304), seu olhar descobre agora uma profusão de pequenos milagres. Deleita os ouvidos com o canto dos pássaros; enche os pulmões com o cheiro benfazejo do gado. Está em harmonia com seu entorno: “na Guararavacã, eu estava bem.” (306) Revelando-lhe a beleza do mundo, seus sentidos humanizam o Absurdo sem suprimi-lo, como em vão tentara o intelecto. Aguçados pelo amor, surpreendem nele um misterioso sentido estético, para além de explicações e justificativas: “tudo o que é bonito é absurdo” (304). Súbito, um macuco se aproxima: trazendo quebrantos? Uma nova metamorfose do Outro? Mas já não há mais Outro. Tal como Werther, Riobaldo olha ao redor e se reconhece em tudo quanto vê, amorosamente identificado com o mundo por intermédio da figura mítica de Diadorim.

Trata-se, portanto, de uma autêntica Unio Mystica, estado que, paradoxal por excelência já que fusão de contrários (indivíduo e Totalidade), expressa-se tradicionalmente sob a forma de paradoxos, como confirmam as obras de poetas místicos tais como Sóror Juana Inez de la Cruz, San Juan de la Cruz e Ângelus Silesius. Enamorado, Werther por vezes também recorre ao paradoxo (veja-se, a esse respeito, a carta de 22 de novembro de 1771). Sintomaticamente, o discurso de Riobaldo se distingue pela presença abundante de formulações paradoxais, dentre as quais a mais explicitamente anti-parmenidiana é talvez a célebre: “Tudo é e não é.” Diante de uma realidade que já não se rende às leis da razão, o paradoxo se afigura como solução expressional alternativa à insatisfatória linguagem convencional. Só ele se presta à verbalização do Inefável, categoria que se adequa à experiência extática pela qual se elide o intervalo entre o Ser e o Não-Ser, pressuposto fundamental do pensamento lógico.

Outro procedimento estilístico de que Riobaldo se vale uma vez tocado pelo amor, também ele indicativo de uma percepção supralógica e mística do real, é a sinestesia: “O vento é verde.” (306), diz na Guararavacã, tomado de saudade dos Gerais (sentimento, aliás, de que o Romantismo extrapolará notórias repercussões metafísicas). Ao identificar correspondências sub-reptícias entre informações sensoriais distintas, a sinestesia permite pressupor uma unidade oculta, como que subjacente à diversidade de tais informações. Riobaldo parece concluir que, por detrás da multiplicidade diabólica do mundo, há sim um princípio unificador: “Deus estável” (304); porém, não o atingiremos pela força da abstração violentadora e deformadora da imanência (como pretendem os adeptos de explicações e justificativas), mas sim, pelo contrário, deixando que a imanência nos impregne pela via imediata dos sentidos, revelando-nos extaticamente, em sua beleza para além da razão, a harmonia secreta do caos.

Santo Agostinho já se dera conta dessa, por assim chamá-la, eficácia religiosa do Belo. Em suas “Confissões”, afirma que, ao interrogar com os olhos as coisas do mundo, recebera como resposta a Beleza, indício indubitável da mão do Criador. De fato, mais do que justificado enquanto fenômeno estético, como queria Nietzsche, o mundo se encontra aqui sacralizado. A Beleza é a presença de Deus no mundo, “misturado em tudo”, estável na própria instabilidade – a qual se vê, dessa forma, desprovida de seu caráter diabólico. Cristão ateu e cético, Riobaldo, a princípio, perde Deus para encontrar o diabo. Pela graça do amor, entretanto, Deus absorve o diabo. Ser e Não-Ser se identificam numa só Totalidade. Transfigurado pelo amor de Riobaldo, Diadorim se converte na instância eucarística em que Riobaldo e mundo absurdo se religam, entremesclando-se mediante o poder do Belo. O amor desperta para a Beleza, e a Beleza redime o Absurdo.

*****

CARLOS GOMES
(Francisca Júlia)

Essa que plange, que soluça e pensa,
Amorosa e febril, tímida e casta,
Lira que raiva, lira que devasta,
E que dos próprios sons vive suspensa,

Guarda nas costas uma escala imensa,
Que, quando rompe, espaço fora, arrasta
Ora do mar as queixas ora a vasta
Sussurração de uma floresta densa.

Ei-la muda, mas tal intensidade
Teve a música enorme do seu choro,
O dilúvio orquestral dos seus lamentos,

Que muda assim, rotas as cordas, há de
Para sempre vibrar o eco sonoro
Que sua alma lançou aos quatro ventos.

terça-feira, setembro 06, 2005

Bloggerdämmerung? 

Num surto de nostalgia, andei revisitando as "contendas" históricas do Lit. e Afins, travadas num tempo longínquo, em postings extensos e cheios de entusiasmo. Alguns de seus protagonistas são hoje figuras semi-legendárias, de cuja existência real as novas gerações duvidam: Anselmo, Matheus, André, etc. As constatações que Gustavo nos apresenta em seu último posting me parecem tristemente verdadeiras. Só devo recusar o determinismo alienante de seu raciocínio. Não, a "vida" não nos tem "feito de joguetes". Por mais apertados que estejamos, sempre sobra algum tempo ao longo do dia, que nós, e não a vida, escolhemos despender com atividades outras que não a composição de textos para este blog (desconfio que alguns nem mesmo o lêem mais). Eu mesmo não posso fugir à responsabilidade de ter deixado sem comentários: o texto do Fábio sobre o Pessoa (que prometi demonizar); a lista de melhores poemas do século, proposta pelo Gustavo; e os poemas de Paul Celan e Octavio Paz, postados também pelo Gustavo. De modo que é preciso admitir: se o blog chegou a esta lastimável situação crepuscular, a culpa cabe inteiramente a nós. A nós e à nossa inércia.

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