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terça-feira, agosto 30, 2005

L'Anti-Oedipe (ou "Especulações de um Helenista Amador") 

Colegas! Não se desesperem (ainda)! Não se trata de mais uma ressurreição do bom e velho "Dêlla", cujo fantasma tanto assombra nosso Blog. Nem todos os caminhos conduzem ao Rizoma! Omnes viae R(iz)omam NON ducunt! Na verdade, o título deste posting se deve a uma hipótes que me ocorreu há pouco acerca da origem do nome "Antígona", assunto que discutimos recentemente. Conforme especulávamos, "Anti" transmitiria a idéia de negação ou contrariedade, enquanto que "gona" talvez se ligasse a origem, nascimento, etc. Pois bem. É possível que Antígona tenha sido assim batizada justamente para assinalar o contraponto que ela representa em relação ao pai/irmão, no que tange à atitude dos dois personagens diante do Destino e da Lei Divina. Ao saber do fado inglório que lhe fora reservado, Édipo tenta passar a perna nas Moiras e tomar as rédeas da própria vida, com o que, ironicamente, termina por prescipitar sua desgraça, como se sabe. Já Antígona aceita os desígnios da Sorte com serenidade, muito embora lamente a injustiça de Creonte. Mais do que isso, dispõe-se a morrer em defesa das leis divinas, que o pai burlara. Nesse sentido, ela seria uma espécie de "Anti-Édipo". Daí minha impressão de que a personagem Creonte se encaixa melhor do que a própria Antígona no perfil do que se costuma chamar de "herói trágico". Sua falha trágica consistiria no desgarramento em relação a uma totalidade ético-cósmica típico do homem desmesurado. Haja vista o fato de que dialoga com Antígona, Hémon e Tirésias - três porta-vozes dessa mesma totalidade na medida em que advogados da Lei Divina em contraposição à interpretação arbitrária que o tirano faz da lei da pólis - e não consegue chegar a um consenso com eles. Obviamente, tal desgarramento não se deve a um ato deliberado; trata-se antes de um fator constitutivo do homem enquanto ser individual. É certo que essa concepção da condição humana soa anacronicamente moderna, mas talvez seja possível enxergar, na própria emergência do gênero dramático, um sintoma de seu surgimento no seio mesmo da Antigidade. Pensemos na função estrutural desempenhada pelo diálogo nesse gênero, em contraposição à Dialética, por exemplo. Como "Antígona" deixa muito claro, o que a Tragédia Clássica nos apresenta é o confronto das individualidades via diálogo não como método de depuração da Doxa e consequente obtenção de uma Verdade totalizante, como queria Platão, mas sim como conversa de surdos, embate infrutífero e, em última instância, catastrófico. A individualidade aparece como uma solidão irredutível, que já não se reconcilia com a totalidade, mas está condenada a ser esmagada por ela.

Senhor Matheus! Sua resurreição é uma alegria inesperada. Não, não somos a mesma pessoa, garanto-lhe (felizmente para você). Aluno inventa muito boato. Perdeu bonde nem meio bonde nem coisa nenhuma; deixe de frescuras. Vai perder é a desculpa para não postar aqui com mais frequência, tão logo defenda a aguardada dissertação. André, o mesmo vale para você, onde quer que esteja. Abraços para todos.

sábado, agosto 06, 2005

O Problema do Medo 

Amigos,

A seguir, poema impressionante de Carlos Drummond de Andrade e breve comentário sobre o mesmo. Avaliem:

O Medo

(Carlos Drummond de Andrade)

A Antonio Candido.

“Porque há para todos nós um problema sério...
Este problema é o do medo.”

- Antonio Candido. Plataforma de uma geração

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas;
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto. (5)

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos. (10)

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes. (14)

Refugiamo-nos no amor,
Este célebre sentimento,
E o amor faltou: chovia,
Ventava, fazia frio em São Paulo. (18)

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
Nos dissimula e nos berça. (22)

Fiquei com medo de ti,
Meu companheiro moreno.
De nós, de vós, e de tudo.
Estou com medo da honra. (26)

Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos? (30)

Vem, harmonia do medo,
Vem ó terror das estradas,
Susto na noite, receio
e águas poluídas. Muletas (34)

Do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se. (38)

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo, e calma. (42)

E com asas de prudência
Com resplendores covardes,
Atingiremos o cimo
De nossa cauta subida. (46)

O medo com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema, outras vidas. (50)

Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus. (54)

Adeus: vamos para a frente,
Recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo, (58)

Eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
Dançando o baile do medo. (62)

Comentário:

O medo, no poema homônimo de C.D.A., parece ser enxergado sob dois ângulos distintos: por um lado, é atributo inato de nossa condição, limitação inerente à natureza humana (versos 2, 11 e 12); por outro, é fruto de um condicionamento calculado, construto socialmente produzido para servir aos interesses de uma determinada classe (versos 6, 27, 29 e 30). De uma forma ou de outra, concorre para a paralisação de nossos projetos pessoais e coletivos (versos, respectivamente, 17 a 25 e 28 a 30, 55 e 56) e se investe de um caráter inescapável. Tal caráter, entretanto, não nos exime da culpa por nosso próprio medo, uma vez que, inato ou aprendido, é a ele que acorremos (e com nossas próprias pernas) em busca de refúgio e justificativa para a inação (versos 29 a 46). Da mesma maneira, sua inescapabilidade, embora afirmada no plano do conteúdo (e sugerida no plano da forma, através da repetição obsessiva do termo “medo”), parece querer ser subvertida pelo tom sarcástico com que o poema a trata. Afora isso, porém, nenhuma solução se afigura para o “problema” do medo e seu implacável determinismo: nossos pais foram suas vítimas; nossos filhos serão seus herdeiros (versos 52 a 58).

O poema dá a impressão de um esforço filosófico de compreensão do fenômeno que lhe dá nome. Percorrendo diferentes aspectos e manifestações do medo, parece propô-lo como uma espécie de fator definitivo da condição humana, força ambígua capaz de engendrar a civilização e frear a marcha da história (versos, respectivamente, 39 a 50 e 29, 30, 55 e 56). Para onde quer que volte os olhos, enxerga a presença poderosa do medo, a exercer seus efeitos, a um tempo, imobilizantes e propulsores. Impelido pelo medo, o homem avança, ganha a “cidade”, o “mundo” e as “estrelas”, mas, para onde quer que vá, carrega consigo seu fardo de pavor. De fato, todo movimento, mesmo o de sentido ascendente e progressivo, parece ser encarado aqui como mero momento de um movimento maior: o “baile do medo”.

É, portanto, a uma conclusão terrível que “O Medo” nos conduz: o desespero ante nossa própria fragilidade, bem como nosso horror ao outro (versos, respectivamente, 11 e 23), são as forças motrizes da civilização e da cultura (estrofes 10, 12, 14 e 15). Para fugirmos, avançamos; para nos escondermos, construímos. Tal constatação parece aqui antes depor contra nossas conquistas que reabilitar o medo, reconhecendo-lhe essa propriedade positiva. Sim, avançamos, mas “recuando de olhos acesos”, conservando a mesmice que nosso medo não nos permite revolucionar. Conquistaremos as estrelas, mas, do ponto de vista moral, não há salvação: seremos sempre os mesmos medrosos.

*****

E agora, mais um soneto obscuro:

CORPO ANTERIOR
(Jorge Eduardo Figueiredo de Oliveira Wanderley)

Que faço aqui, neste meu corpo, amando,
Outro corpo, doado - e estranho a mim?
Dois corpos desiguais e no comando
O que eu decido. E quem decide assim?

Estranho todos os departamentos
E eu sou um outro, que não pousa aqui.
Cada nervura, poro, o tegumento
- Desconheço de todo, nunca vi.

Altura que não quero, mãos esquerdas,
O que está velho e não forjou memórias,
O gesto alheio, o olhar sobre tropeços,

São crônicas já pálidas, a perda
Do nunca possuído: alguma história
Que espera no futuro o seu começo.

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