sábado, maio 07, 2005
Esta vida é um pandeiro.
terça-feira, maio 03, 2005
Gustavo,
Gostei bastante do seu roteiro, de nítida inspiração josé-ameriquiana. Quanto a "pontos fracos", só identifiquei um, que, paradoxalmente, é também o ponto forte do negócio: uma certa pretensão tácita à totalização, oculta sob o rigor louvável com que você se lança ao exame minucioso do texto. Por um lado, escamoteia-se o quanto a interpretação de um texto é uma invenção pessoal do intérprete; por outro, deixa-se de levar em consideração aquilo que, talvez, nosso amantíssimo Gilles chamaria de "partículas assignificantes" (omnes viae...), isto é, aqueles componentes do texto que simplesmente não se prestam à leitura que queremos construir. Tenho certeza de que seu método funciona muito bem para um texto que se queira plenamente significante como é o caso de um soneto conceptista, mas o que aconteceria se tentássemos aplicá-lo a produções mais contemporâneas, já contaminadas pelo hermetismo desreferencializante de matriz simbolista?
Uma das grandes angústias que percebo entre os alunos advém da incapacidade em verter 100% do idioma elíptico de um determinado poema em linguagem convencional. Eis um dos conselhos que costumo dar a eles: Após ler o poema do início ao fim, decidir consigo mesmo em que consistirá basicamente a leitura que se vai fazer. Em seguida, retornar ao texto e extrair dele os elementos que contribuem para a construção da leitura escolhida, rejeitando os demais. É importante salientar essa última parte para deixar claro que, ao contrário do que os alunos tendem a pensar, interpretar um poema não significa traduzir com exatidão cada palavra, verso, imagem, etc. Aqueles elementos que não nos dizem nada simplesmente não farão parte de nossa leitura. É evidente que nossa leitura será tanto mais forte quanto mais elementos do texto formos capazes de aproveitar. Nem por isso é preciso despender minutos a fio quebrando a cabeça com a célebre pergunta: "Mas o que será que ele quis dizer com isso?!" O que interessa é o que você é capaz de dizer com isso. Ler é estabelecer uma relação pessoal com o texto. Nossa leitura emergirá dos elementos que nos instigam e desencadeiam em nós um processo mental de associações e interconexões. Daqueles a partir dos quais nos percebemos incapazes de produzir sentido, simplesmente passaremos por cima.
Também constumo comparar um dado texto a um conjunto de quatro varetas randomicamente espalhadas por uma mesa. Cabe a cada leitor construir a figura geométrica que melhor lhe aprouver com as varetas de que dispõe. É possível construir um quadrado, um losango, um trapézio, etc. - mas também um triângulo ou mesmo um V; por que não? Por outro lado, não é possível construir um pentágono, muito menos um hexágono ou um heptágono, e assim por diante. Moral da história: muitas leituras são possíveis, mas muito mais leituras são impossíveis. Plurisignificação não é sinônimo de Vale-Tudo.
Sobretudo, considero indispensável frisar o caráter ativamente criativo que é inerente à interpretação de um texto. Interpretar é atribuir sentido, e não descobrir ou desvendar um suposto sentido pré-determinado, porém oculto, como no caso de uma charada. É certo que, formulada dessa maneira, essa proposição é ponto pacífico no meio acadêmico e entre os profissionais da interpretação. Entretanto, muito mais raro do que achar quem a defenda assim, em termos abstratos, é se deparar com ela no "mundo da vida", materializada numa prática interpretativa factual. Nos melhores ambientes, os discursos ainda costumam se referir àquilo que o texto "significa", como se o texto fosse capaz de significar por si só. Por causa disso, mais do que repetir as antigas palavras de ordem pós-estruturalistas, o grande desafio me parece ser evitar o discurso "faça o que eu digo, não faça o que eu faço" e mostrar aos alunos, na prática, que ler é conferir significado ao que se lê.
Interpretar um texto é organizar um caos. Trata-se de um esforço verdadeiramente demiúrgico. É se postar diante de um emaranhado de elementos desconexos e impor a eles uma ordem que é, em grande medida, arbitrária. O texto nada mais faz do que fornecer os tijolos com que o intérprete erigirá um edifício (é isto um texto: uma pilha de tijolos). O imprescindível é assegurar a solidez da construção, o que, em termos concretos, se faz através de uma sucessão de argumentos coerentes, plausíveis, verossímeis e, trocando em miúdos, convincentes. Também é importante que não se utilize material impróprio, isto é, qualquer coisa que não seja os tijolos fornecidos pelo texto. Mas já vi que me estendi bem mais do que pretendia. Talvez, em futuras respostas, eu retorne ao assunto. Por hora, "Demônios, dai início à vossa contradança!", como disse o Alphonsus de Guimaraens. É favor também comentar o soneto:
INCONTENTAMENTO
(Francisco Filinto de Almeida)
Viste que tudo foi tempo perdido
E todo emprego foi mal empregado...
Mas foste - Poeta em vida desgraçado -
Pelo teu próprio gênio redimido.
Eu, que não posso a ti ser comparado,
Nem por tantas desgraças fui ferido,
Por infortúnios julgo-me oprimido
E não ando contente com o meu fado.
Incontentável trovador, que aspira
A erguer a grande altura a voz da lira
E só lhe arranca os sons tíbios e roucos,
Sem que o poder do gênio me redima,
Vou gemendo sem brilho, rima a rima,
Mágoas da vida - que se extingue aos poucos.
Gostei bastante do seu roteiro, de nítida inspiração josé-ameriquiana. Quanto a "pontos fracos", só identifiquei um, que, paradoxalmente, é também o ponto forte do negócio: uma certa pretensão tácita à totalização, oculta sob o rigor louvável com que você se lança ao exame minucioso do texto. Por um lado, escamoteia-se o quanto a interpretação de um texto é uma invenção pessoal do intérprete; por outro, deixa-se de levar em consideração aquilo que, talvez, nosso amantíssimo Gilles chamaria de "partículas assignificantes" (omnes viae...), isto é, aqueles componentes do texto que simplesmente não se prestam à leitura que queremos construir. Tenho certeza de que seu método funciona muito bem para um texto que se queira plenamente significante como é o caso de um soneto conceptista, mas o que aconteceria se tentássemos aplicá-lo a produções mais contemporâneas, já contaminadas pelo hermetismo desreferencializante de matriz simbolista?
Uma das grandes angústias que percebo entre os alunos advém da incapacidade em verter 100% do idioma elíptico de um determinado poema em linguagem convencional. Eis um dos conselhos que costumo dar a eles: Após ler o poema do início ao fim, decidir consigo mesmo em que consistirá basicamente a leitura que se vai fazer. Em seguida, retornar ao texto e extrair dele os elementos que contribuem para a construção da leitura escolhida, rejeitando os demais. É importante salientar essa última parte para deixar claro que, ao contrário do que os alunos tendem a pensar, interpretar um poema não significa traduzir com exatidão cada palavra, verso, imagem, etc. Aqueles elementos que não nos dizem nada simplesmente não farão parte de nossa leitura. É evidente que nossa leitura será tanto mais forte quanto mais elementos do texto formos capazes de aproveitar. Nem por isso é preciso despender minutos a fio quebrando a cabeça com a célebre pergunta: "Mas o que será que ele quis dizer com isso?!" O que interessa é o que você é capaz de dizer com isso. Ler é estabelecer uma relação pessoal com o texto. Nossa leitura emergirá dos elementos que nos instigam e desencadeiam em nós um processo mental de associações e interconexões. Daqueles a partir dos quais nos percebemos incapazes de produzir sentido, simplesmente passaremos por cima.
Também constumo comparar um dado texto a um conjunto de quatro varetas randomicamente espalhadas por uma mesa. Cabe a cada leitor construir a figura geométrica que melhor lhe aprouver com as varetas de que dispõe. É possível construir um quadrado, um losango, um trapézio, etc. - mas também um triângulo ou mesmo um V; por que não? Por outro lado, não é possível construir um pentágono, muito menos um hexágono ou um heptágono, e assim por diante. Moral da história: muitas leituras são possíveis, mas muito mais leituras são impossíveis. Plurisignificação não é sinônimo de Vale-Tudo.
Sobretudo, considero indispensável frisar o caráter ativamente criativo que é inerente à interpretação de um texto. Interpretar é atribuir sentido, e não descobrir ou desvendar um suposto sentido pré-determinado, porém oculto, como no caso de uma charada. É certo que, formulada dessa maneira, essa proposição é ponto pacífico no meio acadêmico e entre os profissionais da interpretação. Entretanto, muito mais raro do que achar quem a defenda assim, em termos abstratos, é se deparar com ela no "mundo da vida", materializada numa prática interpretativa factual. Nos melhores ambientes, os discursos ainda costumam se referir àquilo que o texto "significa", como se o texto fosse capaz de significar por si só. Por causa disso, mais do que repetir as antigas palavras de ordem pós-estruturalistas, o grande desafio me parece ser evitar o discurso "faça o que eu digo, não faça o que eu faço" e mostrar aos alunos, na prática, que ler é conferir significado ao que se lê.
Interpretar um texto é organizar um caos. Trata-se de um esforço verdadeiramente demiúrgico. É se postar diante de um emaranhado de elementos desconexos e impor a eles uma ordem que é, em grande medida, arbitrária. O texto nada mais faz do que fornecer os tijolos com que o intérprete erigirá um edifício (é isto um texto: uma pilha de tijolos). O imprescindível é assegurar a solidez da construção, o que, em termos concretos, se faz através de uma sucessão de argumentos coerentes, plausíveis, verossímeis e, trocando em miúdos, convincentes. Também é importante que não se utilize material impróprio, isto é, qualquer coisa que não seja os tijolos fornecidos pelo texto. Mas já vi que me estendi bem mais do que pretendia. Talvez, em futuras respostas, eu retorne ao assunto. Por hora, "Demônios, dai início à vossa contradança!", como disse o Alphonsus de Guimaraens. É favor também comentar o soneto:
INCONTENTAMENTO
(Francisco Filinto de Almeida)
Viste que tudo foi tempo perdido
E todo emprego foi mal empregado...
Mas foste - Poeta em vida desgraçado -
Pelo teu próprio gênio redimido.
Eu, que não posso a ti ser comparado,
Nem por tantas desgraças fui ferido,
Por infortúnios julgo-me oprimido
E não ando contente com o meu fado.
Incontentável trovador, que aspira
A erguer a grande altura a voz da lira
E só lhe arranca os sons tíbios e roucos,
Sem que o poder do gênio me redima,
Vou gemendo sem brilho, rima a rima,
Mágoas da vida - que se extingue aos poucos.