quarta-feira, junho 22, 2005
Gustavo,
"Braços" está, sem dúvida, entre os meus poemas favoritos de Cruz e Souza, e a sua leitura ficou à altura desse grande texto, acho eu. Ainda que de forma um tanto breve, como você mesmo diz e como não poderia deixar de ser, dadas as condições em que o trabalho foi produzido, ela dá conta da problemática básica do Simbolismo, percorrendo todos os seus pontos-chave nossos velhos conhecidos: a musicalidade, a desreferencialização, a dualidade cristã, etc... O interessante é como você situa essas coisas todas no poema em questão, identificando a forma específica que elas nele assumem. Um ponto alto a se destacar é a interpretação semiótica do "arranjo lânguido" dos versos: "Estes (...) podem ser vistos - em sua flexibilidade - como braços de mulher em estranha dança, em perpétuo movimento de deslocar-se nervosamente para cima e para baixo, para frente e para trás, numa agitação incontrolável e sensual, agitação presente na imagem evocada e na tessitura mesma do texto souziano."
Há, naturalmente, alguns trechos mais demonizáveis. Exemplo: as proposições: "Cada uma de suas estrofes é formada por uma única oração" e "não há nem um só verbo na primeira estrofe" contradizem uma à outra, uma vez que a ausência de verbo na primeira estrofe nos impede de considerá-la uma oração. Pelo mesmo motivo, não é possível dizer que, "na primeira estrofe, tínhamos o desejo derramado numa longa adjetivação de um só sujeito", já que, para que se possa falar em "sujeito", é preciso haver oração. Na verdade, a primeira estrofe do poema se compõe de sete sintagmas nominais avulsos, que, portanto, não se prendem a qualquer predicado e não constituem orações. É o que Mário de Andrade mais tarde chamaria de "Verso Harmônico", em seu "Prefácio Interessantíssimo", reivindicando para o Modernismo a invenção do procedimento inovador (injustamente, segundo Ivan Teixeira). Assim sendo, logo a partir de uma análise meramente sintática da primeira estrofe, não estamos autorizados a "pensar que a estrutura de 'Braços' é convencional, adequada ao fazer poético do período parnasiano". Também não é verdade que, na primeira estrofe, encontramos "12 adjetivos associados a apenas um substantivo". Na verdade, são oito substantivos: "braços", "opulências", "brancuras", "alvuras" e "lactescências" (já que os três últimos aparecem, cada um, duas vezes); e "apenas" sete adjetivos: "nervosos", "brancas", "brumais", "fúlgidas", "castas", "virginais" e "raras". Evidentemente, de uma forma ou de outra, seu argumento sobre o efeito desreferencializante dos qualificativos em excesso se mantém.
Outro trecho digno de comentário: "A partir desta dualidade dolorosa dos braços, todo o corpo do poema, sua forma e linguagem, vai também se fazer por ambivalências. Se, na primeira estrofe, tínhamos o desejo derramado numa longa adjetivação de um só sujeito, teremos, a partir do 6º verso do poema, uma proliferação de imagens duais, de paralelismos sintático/semânticos e de antíteses". A primeira frase traz uma percepção aguda que aponta para um dos estilemas mais recorrentes na poesia de Cruz e Souza, sempre articulando dualismo cristão e procedimentos formais binários. No entanto, é de se notar que, em "Braços", tais procedimentos são verificáveis já a partir da primeira estrofe, única que apresenta paralelismo sintático, além de versos bimembres e anáforas duplas abundantes. A diferença que, de fato, existe entre a primeira estrofe e o que a sucede é que, até o verso 5, tem-se o que poderíamos chamar de um binarismo reiterativo, em que um mesmo substantivo se duplica em cada verso, em que "brancuras" rima com "alvuras" e em que, com exceção de "nervosos", todos os vocábulos são extraídos mais ou menos de um mesmo campo semântico e tudo concorre para sugerir brancura e castidade, como se as duas coisas estivessem intimamente relacionadas, uma implicando na outra; na segunda estrofe, por outro lado, passamos da reiteração à oposição oximórica, quando a fascinação se conjuga com a morbidez, a tortura com o desejo e os "abraços" são "letais". Na terceira estrofe, estamos interiamente no domínio da carne e do pecado, muito embora retornem os "Braços nervosos" da primeira. Na última, a carne se opõe ao mármore e, o Amor, à Morte.
A repetição é a Lei Geral da poética cruz-e-souziana. Ela se dá nos mais variados níveis: no dos vocábulos, no dos sintagmas, das estruturas sintáticas, dos campos semânticos, dos ritmos, etc... Tudo se reduplica e se espelha. E o interessante, como ficou dito, é que, no plano do conteúdo, isso vem frequentemente associado a uma suposta dualidade do ser humano ou da existência. Mas Eros e Tânatos se identificam na repetição. A repetição é o eterno retorno do Mesmo, que suprime o múltiplo e, por isso, tende para o Uno. Pois bem: tanto o amor quanto a morte servem à reinstauração do Uno, com a consequente superação dos limites individuais, seja pela refusão erótica no corpo do outro, seja pela reintegração ao "Corpo ubiquitário do Criador", a que conduz a morte. Talvez resida aí uma nova chave interpretativa para a compulsão repetitiva de Cruz e Souza, para além da leitura ortodoxamente cristã, que tenderia a simplesmente opôr Amor e Morte. Enfim, espero que a discussão não termine aqui.
NOSTALGIA PANTEÍSTA
(Augusto de Lima)
Um dia interrogando o níveo seio
De uma concha voltada contra o ouvido,
Um longínquo rumor, como um gemido
Ouvi plangente e de saudades cheio.
Esse rumor tristíssimo escutei-o;
É a música das ondas, é o bramido
Que ele guarda por tempo indefinido
Das solidões marinhas donde veio.
Homem, concha exilada, igual lamento
Em ti mesmo ouvirás, se ouvido atento
Aos recessos do espírito volveres.
É de saudade esse lamento humano,
De uma vida anterior, pátrio oceano
Da unidade concêntrica dos seres.
P.S.: perdi o endereço eletrônico do Thiago. Será que um de vocês poderia enviá-lo ao meu e-mail?
"Braços" está, sem dúvida, entre os meus poemas favoritos de Cruz e Souza, e a sua leitura ficou à altura desse grande texto, acho eu. Ainda que de forma um tanto breve, como você mesmo diz e como não poderia deixar de ser, dadas as condições em que o trabalho foi produzido, ela dá conta da problemática básica do Simbolismo, percorrendo todos os seus pontos-chave nossos velhos conhecidos: a musicalidade, a desreferencialização, a dualidade cristã, etc... O interessante é como você situa essas coisas todas no poema em questão, identificando a forma específica que elas nele assumem. Um ponto alto a se destacar é a interpretação semiótica do "arranjo lânguido" dos versos: "Estes (...) podem ser vistos - em sua flexibilidade - como braços de mulher em estranha dança, em perpétuo movimento de deslocar-se nervosamente para cima e para baixo, para frente e para trás, numa agitação incontrolável e sensual, agitação presente na imagem evocada e na tessitura mesma do texto souziano."
Há, naturalmente, alguns trechos mais demonizáveis. Exemplo: as proposições: "Cada uma de suas estrofes é formada por uma única oração" e "não há nem um só verbo na primeira estrofe" contradizem uma à outra, uma vez que a ausência de verbo na primeira estrofe nos impede de considerá-la uma oração. Pelo mesmo motivo, não é possível dizer que, "na primeira estrofe, tínhamos o desejo derramado numa longa adjetivação de um só sujeito", já que, para que se possa falar em "sujeito", é preciso haver oração. Na verdade, a primeira estrofe do poema se compõe de sete sintagmas nominais avulsos, que, portanto, não se prendem a qualquer predicado e não constituem orações. É o que Mário de Andrade mais tarde chamaria de "Verso Harmônico", em seu "Prefácio Interessantíssimo", reivindicando para o Modernismo a invenção do procedimento inovador (injustamente, segundo Ivan Teixeira). Assim sendo, logo a partir de uma análise meramente sintática da primeira estrofe, não estamos autorizados a "pensar que a estrutura de 'Braços' é convencional, adequada ao fazer poético do período parnasiano". Também não é verdade que, na primeira estrofe, encontramos "12 adjetivos associados a apenas um substantivo". Na verdade, são oito substantivos: "braços", "opulências", "brancuras", "alvuras" e "lactescências" (já que os três últimos aparecem, cada um, duas vezes); e "apenas" sete adjetivos: "nervosos", "brancas", "brumais", "fúlgidas", "castas", "virginais" e "raras". Evidentemente, de uma forma ou de outra, seu argumento sobre o efeito desreferencializante dos qualificativos em excesso se mantém.
Outro trecho digno de comentário: "A partir desta dualidade dolorosa dos braços, todo o corpo do poema, sua forma e linguagem, vai também se fazer por ambivalências. Se, na primeira estrofe, tínhamos o desejo derramado numa longa adjetivação de um só sujeito, teremos, a partir do 6º verso do poema, uma proliferação de imagens duais, de paralelismos sintático/semânticos e de antíteses". A primeira frase traz uma percepção aguda que aponta para um dos estilemas mais recorrentes na poesia de Cruz e Souza, sempre articulando dualismo cristão e procedimentos formais binários. No entanto, é de se notar que, em "Braços", tais procedimentos são verificáveis já a partir da primeira estrofe, única que apresenta paralelismo sintático, além de versos bimembres e anáforas duplas abundantes. A diferença que, de fato, existe entre a primeira estrofe e o que a sucede é que, até o verso 5, tem-se o que poderíamos chamar de um binarismo reiterativo, em que um mesmo substantivo se duplica em cada verso, em que "brancuras" rima com "alvuras" e em que, com exceção de "nervosos", todos os vocábulos são extraídos mais ou menos de um mesmo campo semântico e tudo concorre para sugerir brancura e castidade, como se as duas coisas estivessem intimamente relacionadas, uma implicando na outra; na segunda estrofe, por outro lado, passamos da reiteração à oposição oximórica, quando a fascinação se conjuga com a morbidez, a tortura com o desejo e os "abraços" são "letais". Na terceira estrofe, estamos interiamente no domínio da carne e do pecado, muito embora retornem os "Braços nervosos" da primeira. Na última, a carne se opõe ao mármore e, o Amor, à Morte.
A repetição é a Lei Geral da poética cruz-e-souziana. Ela se dá nos mais variados níveis: no dos vocábulos, no dos sintagmas, das estruturas sintáticas, dos campos semânticos, dos ritmos, etc... Tudo se reduplica e se espelha. E o interessante, como ficou dito, é que, no plano do conteúdo, isso vem frequentemente associado a uma suposta dualidade do ser humano ou da existência. Mas Eros e Tânatos se identificam na repetição. A repetição é o eterno retorno do Mesmo, que suprime o múltiplo e, por isso, tende para o Uno. Pois bem: tanto o amor quanto a morte servem à reinstauração do Uno, com a consequente superação dos limites individuais, seja pela refusão erótica no corpo do outro, seja pela reintegração ao "Corpo ubiquitário do Criador", a que conduz a morte. Talvez resida aí uma nova chave interpretativa para a compulsão repetitiva de Cruz e Souza, para além da leitura ortodoxamente cristã, que tenderia a simplesmente opôr Amor e Morte. Enfim, espero que a discussão não termine aqui.
NOSTALGIA PANTEÍSTA
(Augusto de Lima)
Um dia interrogando o níveo seio
De uma concha voltada contra o ouvido,
Um longínquo rumor, como um gemido
Ouvi plangente e de saudades cheio.
Esse rumor tristíssimo escutei-o;
É a música das ondas, é o bramido
Que ele guarda por tempo indefinido
Das solidões marinhas donde veio.
Homem, concha exilada, igual lamento
Em ti mesmo ouvirás, se ouvido atento
Aos recessos do espírito volveres.
É de saudade esse lamento humano,
De uma vida anterior, pátrio oceano
Da unidade concêntrica dos seres.
P.S.: perdi o endereço eletrônico do Thiago. Será que um de vocês poderia enviá-lo ao meu e-mail?
Comments:
Postar um comentário