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terça-feira, abril 26, 2005

Gustavo,

Eu sabia que você se renderia ao "Esquecemos". Esse é o poema que Drummond escreveria se sobrevivesse à Modernidade. Curioso que você tenha enxergado ali reminiscências de Mário Faustino. Minha pouca intimidade com a obra dele não me permite fazer o mesmo, mas sei que Mariana é sua grande admiradora. De um modo ou de outro, é esta a fonte em que ela bebe: a tradição do grande verso modernista. O que não deixa de ser uma maneira não-explícita de se engajar naquele movimento mencionado por você, qual seja: a reação contra a herança empobrecedora de certa vertente das vanguardas nacionais, da qual Leminsky é talvez a mais significativa metonímia. Afora os "filhos diretos" que você cita, duas figuras me parecem emblemáticas de tal reação: uma é a própria Mariana Ianelli, que, com a sensibilidade aguda ao próprio tempo que é característica da juventude, recusa a Verbicovisualidade em fase fim-de-carreira, que alguns ainda insistem em galvanizar, para investir no trabalho cuidadoso com o verbo tradicional. A imagem bem achada, o vocábulo escolhido com inteligência, o ritmo elaborado de forma criteriosa, entre outras coisas, são os carros-chefes de sua poesia. Nada de pirotecnias experimentais. A outra é o Glauco Mattoso, ex-turma-do-Leminsky, que busca uma alternativa à epigonia tentando aliar "sensibilidade clássica" a "estética do desbunde" através do soneto fescenino à maneira de Bocage. É também uma solução legítima. Esses dois me parecem os mais contemporâneos dos nossos poetas atuais.

Aproveito este posting para finalmente realizar algo que há muito venho prometendo. De agora em diante, todas as minhas mensagens serão concluídas com um poema, verso, aforismo memorável, etc. Convido os colegas a fazerem o mesmo. Digam-me o que acham de...

MINHA SOMBRA
(Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros)

Esta minha implacável companheira,
Que em si me reproduz a vã figura,
Numa expressão de morte prematura,
Caminhando comigo a vida inteira;

Sempre muda, se fez a mensageira
Dos silêncios da minha desventura;
Convertendo-me o corpo em nódoa escura,
À força de ser muda é verdadeira.

Em vão procuro aprofundar-lhe o arcano.
Sombra... Visão de uma outra vida ausente.
Toco-a. Dissolve-a o meu contato humano.

Mas, se esqueço quem sou, surge-me à frente
E, quanto mais ao sol me aprumo e ufano,
Mais ao chão me reduz humildemente.

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