sexta-feira, abril 01, 2005
Gustavo,
Antes de mais nada, como já lhe disse pessoalmente, não creio que, em Manoel de Barros, as palavras tenham por objetivo "criar coisas novas" ou ganhar "autonomia ao referirem-se a imagens apenas existentes na linguagem poética". Pelo contrário, citando um meu posting anterior, acredito que a poesia do pantaneiro seja "dotada de uma nítida intenção de exprimir. Sua opacidade não pode ser confundida com a do experimentalismo moderno mais radical, no qual o verbo ambicionou se emancipar por completo. Ela é telúrica demais para tanto; seu objetivo último são as 'coisas', e é à mudez misteriosa (mas prenhe de sentido) das 'coisas' que a sua opacidade tende."
Por outro lado, é verdade que Alberto Caeiro e Manoel de Barros possuem como que um "mesmo objetivo, perseguido por caminhos opostos". Ambos os poetas pretendem reformar a linguagem, seja poetizando-a ao máximo, seja prosificando-a ao máximo. E é justamente nesse ponto que a relutante e "profunda vertente metafísica" de Caeiro mais ostensivamente se denuncia, a meu ver. A negatividade que, subjacente, impulsiona todo e qualquer desejo de reforma inviabiliza a conformidade absoluta com a natureza à qual Caeiro aspira. Pois é este o seu ideal estético e existencial, fundamentalmente anti-metafísico: a aceitação, ou mais, a exaltação do aqui-e-agora, na forma exata em que se apresenta aos sentidos. Na verdade, sua poesia se resume quase que inteiramente à pregação de tal ideal; ocorre que, ao fazê-lo, assume um caráter prescritivo e, portanto, negativo. Toda prescrição é negativa porque, ao afirmar a si mesma, tácita ou explicitamente, nega o seu contrário. A prescrição é, por natureza, seletiva (isto, sim; aquilo, não), enquanto que uma conformidade com o imanente que se queira verdadeiramente absoluta, de forma incondicional e sem qualquer discriminação, simplesmente afirma tudo o quanto exista. Afirma, inclusive, a metáfora, o engajamento, a filosofia, bem como todos os demais sintomas da "estupidez de sentidos" repudiada por Caeiro. Toda negatividade é metafísica porque, no exato momento em que recusa um determinado dado do real, institui, por contrapartida, um ideal superior e supra-real, que passa a servir como telos; no caso de Caeiro, a conformação integral ao mundo físico.
Entretanto, quando esse telos se vê forçado a ser pregado de maneira prescritiva, em detrimento das disposições em contrário, a impossibilidade de sua concretização se faz evidente. Caeiro se revela, assim, não um genuíno "poeta inocente", como quis Octavio Paz, mas sim um neoclassicista moderno, para quem a ingenuidade autêntica está irremediavelmente perdida. Tal ingenuidade é prerrogativa exclusiva de um certo paganismo (ademais, fantasmático e mítico, inventado em Jena e outras localidades da Alemanha, entre finais do século XVIII e meados do XIX), em cujo regime a "doença" (ou o "Mal", para falar com o mito bílbico) simplesmente não existe enquanto alternativa a ser negada. Fora de tal regime, o pretenso neopagão se vê eternamente condenado a traçar uma linha arbitrária entre a verdade e a mentira, o natural e o artificial, categorias de que se vale para entronizar ou rejeitar as coisas do mundo - as quais, todavia, segundo o que se propõe, deveria aceitar incondicionalmente. É assim que a desigualdade social se legitima como dado da natureza (pois se as pedras também não são redondas!), enquanto que o misticismo, pelo contrário, é rechaçado por sua reprovável anti-naturalidade. Está claro que o critério a fundamentar tais juízos é puramente subjetivo, por mais "voluteantes" que sejam os "malabarismos mentais" que se esforçam por justificá-los.
Contudo, Caeiro talvez se salve, assim como Manoel de Barros (e, por que não dizê-lo?, assim como Gilles véi de guerra, pois omnes viae R(iz)omam ducunt), em virtude de sua consciência com relação aos próprios limites. Os três autores, em especial os dois poetas, em certos momentos de suas obras, chamam a atenção do leitor para a falibilidade dos projetos que sustentam. Embora nem sempre seja assim, em certos momentos, o ideal do olhar límpido e puro chega a ser confessado como tal, isto é, como ideal, em última instância, inatingível. Em todo caso, o poeta intelectualizado e filosofante não o poderá atingir. Eis o que leva Caeiro, em seus "Poemas Inconjuntos", a invejar o humilde "pastor do monte", que o sol aquece sem ofuscar; eis também o que faz com que Manoel de Barros admire à distância o homem-árvore Bernardo, em seu silêncio que atrai os pássaros. Assim sendo, não acho que sua crítica final chegue a surtir efeito contra seus alvos, uma vez que eles a antecipam e a ela respondem com seus próprios versos. (Com efeito, é o próprio Ricardo Reis quem diz de Alberto Caeiro que, em sua própria obra, "prevê objeções, antevê críticas, explica defeitos" da mesma.) Sobretudo, o caráter não espontâneo da "desautomatização proposta pelos poetas" é admitido pelos mesmos. O curioso é que ambos se utilizam do mesmo neologismo para se referir a esse "exercício lógico/racional": desaprender. Na verdade, existe uma série de coincidências estilísticas desse tipo entre esses dois poetas, em tantos sentidos, opostos, por ex.: o gosto pelo paradoxo. Isso me intriga bastante e ainda está por ser investigado.
Entretanto, apesar de tais pontos de contato, ainda não me abandonou a idéia de que, entre as poéticas de Alberto Caeiro e Manoel de Barros, existe uma oposição profunda, ligada principalmente à postura que cada uma delas assume diante da chamada lógica ocidental e seu patrono de Eléia. Senão, vejamos: enquanto que, na obra do heterônimo, a operação poética fulcral é a reiteração redundante do nome próprio, claramente debitária do estilo pleonástico de Parmênides (e, por consequência, de suas concepções filosóficas), no "Livro das Ignorãças", o que se verifica é a refração do vocábulo unitário em múltiplas imagens metafóricas, procedimento anti-parmenidiano por excelência, segundo o qual "isto" se identifica com "aquilo", subvertendo o Princípio de Identidade. Princípio este que Caeiro, por sua vez, parafraseia, quando diz: "Cada coisa é o que é", verso que difere da fórmula do pensador grego por nada mais do que uma sílaba. Em sua paráfrase, Caeiro intensifica a singularidade ontológica que o Princípio impõe às coisas, esvaziando-o da dimensão totalizadora que lhe emprestava o termo original "toda". A palavra "cada", pelo contrário, enfatiza a individualidade radical e intransponível com que as coisas se defrontam umas às outras, em absoluta incomunicabilidade, "linguagem nenhuma". Emparedadas em seus próprios nomes, não pode haver entre elas o intercâmbio necessário à produção de metáforas. Em Manoel de Barros, passa-se o inverso: a "enseada", por exemplo, não é apenas "o que é", mas também "cobra" e "vidro". E assim por diante, etc.
Eduardo, aguarde para logo comentários sobre seu texto. Abraços a todos e até breve.
Antes de mais nada, como já lhe disse pessoalmente, não creio que, em Manoel de Barros, as palavras tenham por objetivo "criar coisas novas" ou ganhar "autonomia ao referirem-se a imagens apenas existentes na linguagem poética". Pelo contrário, citando um meu posting anterior, acredito que a poesia do pantaneiro seja "dotada de uma nítida intenção de exprimir. Sua opacidade não pode ser confundida com a do experimentalismo moderno mais radical, no qual o verbo ambicionou se emancipar por completo. Ela é telúrica demais para tanto; seu objetivo último são as 'coisas', e é à mudez misteriosa (mas prenhe de sentido) das 'coisas' que a sua opacidade tende."
Por outro lado, é verdade que Alberto Caeiro e Manoel de Barros possuem como que um "mesmo objetivo, perseguido por caminhos opostos". Ambos os poetas pretendem reformar a linguagem, seja poetizando-a ao máximo, seja prosificando-a ao máximo. E é justamente nesse ponto que a relutante e "profunda vertente metafísica" de Caeiro mais ostensivamente se denuncia, a meu ver. A negatividade que, subjacente, impulsiona todo e qualquer desejo de reforma inviabiliza a conformidade absoluta com a natureza à qual Caeiro aspira. Pois é este o seu ideal estético e existencial, fundamentalmente anti-metafísico: a aceitação, ou mais, a exaltação do aqui-e-agora, na forma exata em que se apresenta aos sentidos. Na verdade, sua poesia se resume quase que inteiramente à pregação de tal ideal; ocorre que, ao fazê-lo, assume um caráter prescritivo e, portanto, negativo. Toda prescrição é negativa porque, ao afirmar a si mesma, tácita ou explicitamente, nega o seu contrário. A prescrição é, por natureza, seletiva (isto, sim; aquilo, não), enquanto que uma conformidade com o imanente que se queira verdadeiramente absoluta, de forma incondicional e sem qualquer discriminação, simplesmente afirma tudo o quanto exista. Afirma, inclusive, a metáfora, o engajamento, a filosofia, bem como todos os demais sintomas da "estupidez de sentidos" repudiada por Caeiro. Toda negatividade é metafísica porque, no exato momento em que recusa um determinado dado do real, institui, por contrapartida, um ideal superior e supra-real, que passa a servir como telos; no caso de Caeiro, a conformação integral ao mundo físico.
Entretanto, quando esse telos se vê forçado a ser pregado de maneira prescritiva, em detrimento das disposições em contrário, a impossibilidade de sua concretização se faz evidente. Caeiro se revela, assim, não um genuíno "poeta inocente", como quis Octavio Paz, mas sim um neoclassicista moderno, para quem a ingenuidade autêntica está irremediavelmente perdida. Tal ingenuidade é prerrogativa exclusiva de um certo paganismo (ademais, fantasmático e mítico, inventado em Jena e outras localidades da Alemanha, entre finais do século XVIII e meados do XIX), em cujo regime a "doença" (ou o "Mal", para falar com o mito bílbico) simplesmente não existe enquanto alternativa a ser negada. Fora de tal regime, o pretenso neopagão se vê eternamente condenado a traçar uma linha arbitrária entre a verdade e a mentira, o natural e o artificial, categorias de que se vale para entronizar ou rejeitar as coisas do mundo - as quais, todavia, segundo o que se propõe, deveria aceitar incondicionalmente. É assim que a desigualdade social se legitima como dado da natureza (pois se as pedras também não são redondas!), enquanto que o misticismo, pelo contrário, é rechaçado por sua reprovável anti-naturalidade. Está claro que o critério a fundamentar tais juízos é puramente subjetivo, por mais "voluteantes" que sejam os "malabarismos mentais" que se esforçam por justificá-los.
Contudo, Caeiro talvez se salve, assim como Manoel de Barros (e, por que não dizê-lo?, assim como Gilles véi de guerra, pois omnes viae R(iz)omam ducunt), em virtude de sua consciência com relação aos próprios limites. Os três autores, em especial os dois poetas, em certos momentos de suas obras, chamam a atenção do leitor para a falibilidade dos projetos que sustentam. Embora nem sempre seja assim, em certos momentos, o ideal do olhar límpido e puro chega a ser confessado como tal, isto é, como ideal, em última instância, inatingível. Em todo caso, o poeta intelectualizado e filosofante não o poderá atingir. Eis o que leva Caeiro, em seus "Poemas Inconjuntos", a invejar o humilde "pastor do monte", que o sol aquece sem ofuscar; eis também o que faz com que Manoel de Barros admire à distância o homem-árvore Bernardo, em seu silêncio que atrai os pássaros. Assim sendo, não acho que sua crítica final chegue a surtir efeito contra seus alvos, uma vez que eles a antecipam e a ela respondem com seus próprios versos. (Com efeito, é o próprio Ricardo Reis quem diz de Alberto Caeiro que, em sua própria obra, "prevê objeções, antevê críticas, explica defeitos" da mesma.) Sobretudo, o caráter não espontâneo da "desautomatização proposta pelos poetas" é admitido pelos mesmos. O curioso é que ambos se utilizam do mesmo neologismo para se referir a esse "exercício lógico/racional": desaprender. Na verdade, existe uma série de coincidências estilísticas desse tipo entre esses dois poetas, em tantos sentidos, opostos, por ex.: o gosto pelo paradoxo. Isso me intriga bastante e ainda está por ser investigado.
Entretanto, apesar de tais pontos de contato, ainda não me abandonou a idéia de que, entre as poéticas de Alberto Caeiro e Manoel de Barros, existe uma oposição profunda, ligada principalmente à postura que cada uma delas assume diante da chamada lógica ocidental e seu patrono de Eléia. Senão, vejamos: enquanto que, na obra do heterônimo, a operação poética fulcral é a reiteração redundante do nome próprio, claramente debitária do estilo pleonástico de Parmênides (e, por consequência, de suas concepções filosóficas), no "Livro das Ignorãças", o que se verifica é a refração do vocábulo unitário em múltiplas imagens metafóricas, procedimento anti-parmenidiano por excelência, segundo o qual "isto" se identifica com "aquilo", subvertendo o Princípio de Identidade. Princípio este que Caeiro, por sua vez, parafraseia, quando diz: "Cada coisa é o que é", verso que difere da fórmula do pensador grego por nada mais do que uma sílaba. Em sua paráfrase, Caeiro intensifica a singularidade ontológica que o Princípio impõe às coisas, esvaziando-o da dimensão totalizadora que lhe emprestava o termo original "toda". A palavra "cada", pelo contrário, enfatiza a individualidade radical e intransponível com que as coisas se defrontam umas às outras, em absoluta incomunicabilidade, "linguagem nenhuma". Emparedadas em seus próprios nomes, não pode haver entre elas o intercâmbio necessário à produção de metáforas. Em Manoel de Barros, passa-se o inverso: a "enseada", por exemplo, não é apenas "o que é", mas também "cobra" e "vidro". E assim por diante, etc.
Eduardo, aguarde para logo comentários sobre seu texto. Abraços a todos e até breve.
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