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domingo, abril 03, 2005

Eduardo,

Antes tarde do que nunca, alguns pensamentos sobre o seu "textículo meditativo" (André, faça a festa). O que você nos apresenta é uma bela "teoria do Romantismo", por assim chamá-la. Incomoda-me um pouco o que ela possa ter de reflexológico, por ex.: quando atribui a circunstâncias da história do povo judeu a origem de sua crença num Mundo para além do mundo (um raciocínio que, se não me engano, já se encontra em gérmen no pensamento de Nietzsche). Mas isso também já é excesso de demonismo da minha parte. Achei uma grande sacada a idéia de que "o herói romântico está esmagado entre a vontade incontrolável e a total impossibilidade de sua satisfação na vida." A amada, a liberdade e a glória não podem ser atingidas porque, na verdade, nada mais são do que avatares de um Absoluto que transcende os limites da terra. O amor e os desejos terrenos, quando elevados, não passam de reflexos da nostalgia de um Infinito pré-natal. Derivadas de tal matriz, as expectativas românticas quanto à existência são incompatíveis com o limitado mundo das relações. Por isso, sua satisfação tem de ser projetada para além das fronteiras desta vida.

Seu texto está cheio de intuições interessantes como essa. Ao lado delas, algumas pequenas impropriedades. Por exemplo: a idéia do romântico como "herói trágico". Para se pensar dessa maneira, é preciso definir o trágico simplesmente pela presença de um conflito insolúvel, quando, na verdade, o termo implica em bem mais do que isso. Para começar, o conflito romântico (que, no fundo, é o conflito cristão) só é realmente insolúvel no âmbito da vida, uma vez que resulta da união tensa entre matéria e espírito instaurada pela vida. A morte não deixa de representar uma possibilidade de resolução para esse conflito, uma vez que desfaz aquela união. Além disso, a tragédia se fundamenta numa concepção do universo que já não é a do Romantismo, segundo suas próprias palavras, "incapaz totalmente de atracar no porto seguro de Deus ou de qualquer ordem superior e universal". É justamente por isso que os conceitos de "Destino" e "Moira" não se aplicam à sua situação. Pois o que é o Destino senão uma "ordem superior e universal"? Uma aresta de natureza talvez terminológica, mas que precisa ser aparada.

Outro problema: seu texto define os românticos como "os homens que não puderam escolher" entre Positivismo de ascendência iluminista e cristianismo. Essa asserção, embora brilhante, tem o efeito colateral indesejável de escamotear o caráter essencialmente cristão do Romantismo. Muito embora frequentemente tenha o cuidado de caracterizar o cristianismo a que se refere com adjetivos como "institucional" e "dogmático", não raro você solta frases do tipo: "O conflito do jovem Werther inexiste na alma de um cristão". Ora, o conflito do jovem Werther SÓ existe na alma de um cristão. Ele também espera ser correspondido quando habitar a eternidade; com efeito, é só então que espera ser correspondido. É isso o que o distingue, enquanto cristão místico, do cristão religioso que, ao sair da missa, acredita-se purificado e justificado em sua existência. Para o homem romântico, a existência é injustificável. Mas nem por isso, ele deixa de ser cristão. Na verdade, é justamente nisso que consiste o seu profundo cristianismo.

Como você mesmo demonstra ao ler o poema de Gonçalves Dias, o Romantismo nunca chega a perder a fé nas "maravilhas post mortem" profetizadas por Cristo. Pelo contrário, mais do que nunca, crê no caráter irremediavelmente "post mortem" de tais "maravilhas". O que rejeita é exatamente a promessa eclesiástica de implantar a "Cidade de Deus" no plano da vida (mais uma vez, o raciocínio é seu). O rito, outrora justificador e, por isso, mantenedor da existência, aparece agora como formalismo vazio. A confissão, a penitência e a comunhão, procedimentos de natureza mágica ou simbólica, já não bastam para atingir a pureza; é preciso imitar a Cristo de maneira literal... É assim que, ao afastar-se do catolicismo e demais formas de "cristianismo institucional", o Romantismo termina por aproximar-se de heresias medievais como a dos Cátaros, que buscavam uma leitura não-mediada e radical da palavra de Jesus. Lembremo-nos de que, para conquistar o Absoluto (que identifica na natureza e no amor por Charlotte), Werther comete suicídio, exatamente como pregavam os Albigenses (seita catárica).

Uma das conclusões interessantes a que seu texto me conduz é a nocão do Romantismo como uma espécie de filho bastardo das Luzes. O Romantismo como aporia: não uma solução alternativa ao Iluminismo, mas sim um estado problemático por excelência, advindo tanto do triunfo iluminista sobre as certezas antigas quanto do fracasso iluminista em substituí-las por certezas novas. Mais problemáticos do que os românticos, só os modernos, para quem até mesmo a morte se despoja de seu poder redentor.

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