segunda-feira, março 21, 2005
My fellow bloggers,
Abaixo, os primeiros dentre uma série de comentários que pretendo tecer sobre o "Livro das Ignorãças". Procurei traçar suas principais linhas de força e lugares comuns. Cheguei a 11 deles e tentei situar na obra os momentos em que se manifestam de maneira mais significante. Começo pelo que chamei de...
Reflexão sobre a linguagem e seus (des?)limites:
- Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma (p. 11):
Prenúncio de um recurso extremamente recorrente no livro, em especial na segunda parte: a confecção de neologismos. A linguagem convencional é insuficiente; faz-se necessário reinventá-la pela via da transgressão poética, a começar pelo nível lexical. As palavras que possuem idioma já não servem. Dissolvendo-se na boca "como cogumelos podres", parecem ter perdido sua antiga conexão com o real. Para re-estreitar o relacionamento entre verbo e coisas, é preciso recorrer ao vocábulo apátrida, inédito e inaugural, como os nomes com que Adão batizou o mundo.
- As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças. (p. 13):
Ignorante dos códigos do mundo adulto, isenta, portanto, dos condicionamentos linguísticos e perceptivos que deles decorrem, a criança é dotada de uma perspectiva privilegiada. Seu olhar ainda não se dessensibilizou àquilo que habita para além da linguagem convencional, as "coisas que não têm nome". Ao dizê-las, a criança engendra o poético. A inépcia no idioma automatizado dos adultos termina por possibilitar o advento do novo, traduzindo-se em sinestesias, paradoxos e metáforas. A partir deste verso, o poeta indiretamente reivindica para si a ingenuidade inaugural da visão de mundo infantil, a qual, mais tarde, atribuirá também ao louco e ao popular.
- Há certas frases que se iluminam pelo opaco. (p. 23):
Paradoxo que exemplifica a si mesmo. A opacidade das frases do poeta advém de sua divergência quanto à liguagem prosaica. Entretanto, é justamente essa divergência que permite à poesia superar o prosaísmo no que ele tem de precário e limitado - iluminado-se, portanto. Dessa maneira, não há como se furtar ao opaco, se o que se visa a exprimir é aquilo que se esquiva ao domínio do idioma cotidiano. Esta poética, aliás, é dotada de uma nítida intenção de exprimir. Sua opacidade não pode ser confundida com a do experimentalismo moderno mais radical, no qual o verbo ambicionou se emancipar por completo. Ela é telúrica demais para tanto; seu objetivo último são as "coisas", e é à mudez misteriosa (mas prenhe de sentido) das "coisas" que a sua opacidade tende.
- Acho que o nome empobreceu a imagem. (p. 25):
Concepção da linguagem convencional como mutiladora da realidade. Nomear um objeto ou fenômeno é extirpá-lo do "corpo geral do mundo", imerso no qual comungava e se confundia com tudo. Rompem-se os vasos comunicantes que, pela via da semelhança, permitiam à "enseada" ser também "cobra" e "vidro". Mumificada em seu nome próprio, ela agora é "enseada" e nada mais, como queria Parmênides. Elidida a ligação com o exterior, estanca-se o manancial das metáforas que a ignorância infantil multiplicava. Ademais, verso didádico, quase moralista, com a supressão do qual o poema lucraria imensamente.
- Preciso do desperdício das palavras para conter-me. (p. 41):
Seria exagero identificar aqui uma concepção romântica da relação entre linguagem e indivíduo? Para dar conta de um eu desmesurado e oblíquo, é preciso que a palavra extravase as medidas a ela impostas pelo bom senso utilitarista e pela razão, traduzindo-se em desperdício. A linguagem convencional está obviamente aquém dessa tarefa; seus limites devem ser transgredidos. Se se pretende dizer o eu, deve-se ultrapassar a barreira da norma em demanda de uma expressão original; "estandarte pessoal" em punho. Daí a invenção linguística, o neologismo e a imagem inusitada. Neste ponto, o romantismo se resolve em barroco. "O caminho do excesso conduz à perfeição": só o desperdício preenche o hiato entre a palavra e seu conteúdo.
- Do que não sei o nome eu guardo as semelhanças. (p. 45):
Espécie de "teoria da metáfora" que situa sua gênese na ignorância ingênua do tipo humilde, do louco ou da criança. A ignorância preserva contra o efeito empobrecedor exercido sobre a realidade pelo nome próprio (ver p. 25), palavra fria, barreira artificial que aparta o homem da natureza. Não sabê-lo implica na liberdade adâmica de batizar as coisas. Para tanto, apela-se para suas (das coisas) qualidades ou "semelhanças", o que estreita o relacionamento entre homem e coisas (bem como entre coisas e coisas). É a linguagem imagética superando as limitações do jargão técnico ou meramente logocêntrico. Pensemos no primitivo que, ignorando o termo "avião", cunha a metáfora do "pássaro de ferro".
- Falava em via de hinos (...) Gostava de desnomear (p. 79):
Aproximação entre a fala popular e a linguagem poética. Une-as a atitude de revolta contra a convenção linguística, calculada nesta, ingenuamente espontânea naquela. Em ambos os casos, contudo, tal atitude se concretiza no ato de "desnomear", isto é, recusar a pobreza univocabular do termo próprio, refratando-o numa miríade de imagens inusitadas. A metáfora liberta as coisas da solidão estática a que seus nomes as condenam, trazendo à baila as afinidades subreptícias que elas partilham entre si. Captar tais afinidades é prerrogativa do olhar ignorante, tal como se verifica na criança, no louco, no primitivo ingênuo ou no poeta.
- Há que apenas saber errar bem o seu idioma. (p. 87):
A transgressão poética não deve ser gratuita e nem tampouco conduzir a uma anomia pura e simples; deve sim instaurar um código de regras alternativo. No bojo da negatividade, repousa um gérmen de afirmação. Afirmação de algo outro, que ainda está por vir e que é, portanto, revolucionário, mas que amanhã se cristalizará em norma. O erro, que destrói a norma atual, possui também sua contraparte fecundante e construtiva. Com os destroços da antiga, erige-se uma norma nova, depurada - que nem por isso deixa de exigir disciplina. Há o modo certo e o modo errado de errar.
Não demonizem! (Psicologia reversa). Abraços.
P.S.: Gustavo, veja abaixo comentários sobre suas questões.
Abaixo, os primeiros dentre uma série de comentários que pretendo tecer sobre o "Livro das Ignorãças". Procurei traçar suas principais linhas de força e lugares comuns. Cheguei a 11 deles e tentei situar na obra os momentos em que se manifestam de maneira mais significante. Começo pelo que chamei de...
Reflexão sobre a linguagem e seus (des?)limites:
- Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma (p. 11):
Prenúncio de um recurso extremamente recorrente no livro, em especial na segunda parte: a confecção de neologismos. A linguagem convencional é insuficiente; faz-se necessário reinventá-la pela via da transgressão poética, a começar pelo nível lexical. As palavras que possuem idioma já não servem. Dissolvendo-se na boca "como cogumelos podres", parecem ter perdido sua antiga conexão com o real. Para re-estreitar o relacionamento entre verbo e coisas, é preciso recorrer ao vocábulo apátrida, inédito e inaugural, como os nomes com que Adão batizou o mundo.
- As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças. (p. 13):
Ignorante dos códigos do mundo adulto, isenta, portanto, dos condicionamentos linguísticos e perceptivos que deles decorrem, a criança é dotada de uma perspectiva privilegiada. Seu olhar ainda não se dessensibilizou àquilo que habita para além da linguagem convencional, as "coisas que não têm nome". Ao dizê-las, a criança engendra o poético. A inépcia no idioma automatizado dos adultos termina por possibilitar o advento do novo, traduzindo-se em sinestesias, paradoxos e metáforas. A partir deste verso, o poeta indiretamente reivindica para si a ingenuidade inaugural da visão de mundo infantil, a qual, mais tarde, atribuirá também ao louco e ao popular.
- Há certas frases que se iluminam pelo opaco. (p. 23):
Paradoxo que exemplifica a si mesmo. A opacidade das frases do poeta advém de sua divergência quanto à liguagem prosaica. Entretanto, é justamente essa divergência que permite à poesia superar o prosaísmo no que ele tem de precário e limitado - iluminado-se, portanto. Dessa maneira, não há como se furtar ao opaco, se o que se visa a exprimir é aquilo que se esquiva ao domínio do idioma cotidiano. Esta poética, aliás, é dotada de uma nítida intenção de exprimir. Sua opacidade não pode ser confundida com a do experimentalismo moderno mais radical, no qual o verbo ambicionou se emancipar por completo. Ela é telúrica demais para tanto; seu objetivo último são as "coisas", e é à mudez misteriosa (mas prenhe de sentido) das "coisas" que a sua opacidade tende.
- Acho que o nome empobreceu a imagem. (p. 25):
Concepção da linguagem convencional como mutiladora da realidade. Nomear um objeto ou fenômeno é extirpá-lo do "corpo geral do mundo", imerso no qual comungava e se confundia com tudo. Rompem-se os vasos comunicantes que, pela via da semelhança, permitiam à "enseada" ser também "cobra" e "vidro". Mumificada em seu nome próprio, ela agora é "enseada" e nada mais, como queria Parmênides. Elidida a ligação com o exterior, estanca-se o manancial das metáforas que a ignorância infantil multiplicava. Ademais, verso didádico, quase moralista, com a supressão do qual o poema lucraria imensamente.
- Preciso do desperdício das palavras para conter-me. (p. 41):
Seria exagero identificar aqui uma concepção romântica da relação entre linguagem e indivíduo? Para dar conta de um eu desmesurado e oblíquo, é preciso que a palavra extravase as medidas a ela impostas pelo bom senso utilitarista e pela razão, traduzindo-se em desperdício. A linguagem convencional está obviamente aquém dessa tarefa; seus limites devem ser transgredidos. Se se pretende dizer o eu, deve-se ultrapassar a barreira da norma em demanda de uma expressão original; "estandarte pessoal" em punho. Daí a invenção linguística, o neologismo e a imagem inusitada. Neste ponto, o romantismo se resolve em barroco. "O caminho do excesso conduz à perfeição": só o desperdício preenche o hiato entre a palavra e seu conteúdo.
- Do que não sei o nome eu guardo as semelhanças. (p. 45):
Espécie de "teoria da metáfora" que situa sua gênese na ignorância ingênua do tipo humilde, do louco ou da criança. A ignorância preserva contra o efeito empobrecedor exercido sobre a realidade pelo nome próprio (ver p. 25), palavra fria, barreira artificial que aparta o homem da natureza. Não sabê-lo implica na liberdade adâmica de batizar as coisas. Para tanto, apela-se para suas (das coisas) qualidades ou "semelhanças", o que estreita o relacionamento entre homem e coisas (bem como entre coisas e coisas). É a linguagem imagética superando as limitações do jargão técnico ou meramente logocêntrico. Pensemos no primitivo que, ignorando o termo "avião", cunha a metáfora do "pássaro de ferro".
- Falava em via de hinos (...) Gostava de desnomear (p. 79):
Aproximação entre a fala popular e a linguagem poética. Une-as a atitude de revolta contra a convenção linguística, calculada nesta, ingenuamente espontânea naquela. Em ambos os casos, contudo, tal atitude se concretiza no ato de "desnomear", isto é, recusar a pobreza univocabular do termo próprio, refratando-o numa miríade de imagens inusitadas. A metáfora liberta as coisas da solidão estática a que seus nomes as condenam, trazendo à baila as afinidades subreptícias que elas partilham entre si. Captar tais afinidades é prerrogativa do olhar ignorante, tal como se verifica na criança, no louco, no primitivo ingênuo ou no poeta.
- Há que apenas saber errar bem o seu idioma. (p. 87):
A transgressão poética não deve ser gratuita e nem tampouco conduzir a uma anomia pura e simples; deve sim instaurar um código de regras alternativo. No bojo da negatividade, repousa um gérmen de afirmação. Afirmação de algo outro, que ainda está por vir e que é, portanto, revolucionário, mas que amanhã se cristalizará em norma. O erro, que destrói a norma atual, possui também sua contraparte fecundante e construtiva. Com os destroços da antiga, erige-se uma norma nova, depurada - que nem por isso deixa de exigir disciplina. Há o modo certo e o modo errado de errar.
Não demonizem! (Psicologia reversa). Abraços.
P.S.: Gustavo, veja abaixo comentários sobre suas questões.
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