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domingo, março 06, 2005

Caríssimos confrades,

A seguir, algumas idéias que me assaltaram após nosso encontro de ontem:

Talvez seja possível pensar o Classicismo do século XVIII como uma tentativa, já de início fadada ao fracasso, de reação contra a Modernidade. A mentalidade a que poderíamos chamar pré-moderna, como observada na Antiguidade Clássica e, em menor medida, no Medievo, define-se por pressupor, entre as formas e seus conteúdos, uma correspondência estreita, absoluta e necessária. Verifica-se a vigência de uma tal mentalidade quando se imagina, por exemplo, a fórmula mágica como meio efetivo de intervenção no real; a organização presente da sociedade como tradução direta e inquestionável da vontade eterna de Deus(es); a elegia como caminho incontornável para a expressão poética da tristeza. Seja no plano da linguagem, seja no da arte ou no da sociedade, cada conteúdo possui sua respectiva forma, a que se liga por um vínculo supostamente apriorístico e indelével.

É justamente a partir da dissolução desse vínculo que a Era Moderna se inaugura, isto é, quando se surpreende o arbítrio humano lá onde se supunha uma predeterminação de natureza cósmica. O que é arbitrário é artificial, e o que é artificial pode ser demolido; daí a possibilidade da revolução, nos mais variados planos. No que tange à literatura e à poesia, o que se segue é a livre exploração das potencialidades do verbo, liberto de seus antigos grilhões miméticos, manuseado ao bel-prazer do artista, até os paroxismos do Maneirismo e do Barroco. A meta já não é mais a imitatio submissa da realidade, mas sim "la meraviglia" (segundo Marino), o arrebatamento dos sentidos. Em nome do efeito, a palavra justa, emanação direta da coisa que representa, é destronada pela inverossímil retórica do excesso. A forma se emancipa e soterra o conteúdo sob uma avalanche de sofismas, paradoxos, pirotecnia fônica e imagética, etc.

É nesse ponto que se insurge o Classicismo, nostálgico do regime antigo. Incapaz de fazê-lo de outra maneira, esforça-se por reforjar o elo entre formas e conteúdos pela via da convenção. Pensemos na sistematização do direito divino dos reis; na etiqueta aristocrática, coercitiva e codificada ao extremo; em Boileau e sua "Poética" normativa, simulacro da de Aristóteles, a receitar autoritariamente. O filósofo grego nada mais faz que diagnosticar o comportamento espontâneo da poesia de sua época, quando simplesmente não se concebia outro modo de poetar que não o tradicional. Essa ingenuidade está irremediavelmente perdida para o Classicismo moderno - eis por que precisa ser prescritivo, e eis por que, desde o princípio, está condenado a se frustrar. O normativismo falha em superar o hiato entre conteúdo e forma, no qual os barrocos celebram sua ruidosa orgia. Sua flagrante arbitrariedade antes coloca tal hiato em evidência.

A Filosofia da Estética, como levada a cabo por Kant e Schiller, talvez possa ser interpretada como uma resposta ao fracasso da Poética classicista. Boileau e os "estetas" têm um inimigo em comum: a estética do exagero e sua gratuidade sensualista. Enxergado a partir dessa perspectiva, o Barroco é, mais do que libertário, libertino, hedonista. A forma, por ele emancipada, já não se orienta por qualquer norte exterior a seus próprios códigos, nem mesmo pela moral cristã, reduzida a pretexto conteudístico para seus experimentos. Ao buscar imprimir à arte um lastro ético, não estariam os filósofos da Estética também visando à reinstituição do vínculo pré-moderno entre forma e conteúdo, ainda que através de uma estratégia mais eficiente do que a mera convenção? A necessidade de seus sistemas lógicos certamente se provaria mais eficaz onde a simples coerção arbitrária do Decoro se mostrara limitada. Poderia a Estética ser encarada como produto típico do Classicismo (como aqui entendido) e, nesse sentido, anti-moderna?

As perguntas acima não possuem natureza retórica, portanto, demonizem! Abraços.

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