<$BlogRSDUrl$>

sexta-feira, março 25, 2005

Caros grilos e bolas de feno errantes (meus fiéis interlocutores),

Prossigo em minhas investigações sobre o "Livro das Ignorãnças". Apesar de não ser ruim, o livro me interessa sobretudo enquanto problema literário. Manoel de Barros, em seus piores momentos, é de uma inépcia no trato com a palavra que chega a assustar. Um exemplo disso é o poema XIX da primeira parte da obra. Divisão de versos exótica, desprovida de qualquer lógica rítimica ou semântica, claramente orientada por um desejo pueril de originalidade. O último verso é simplesmente obsceno. Diante disso (não sem alguma arrogância), resolvi fazer alguns ajustes no poema, ver se conseguia melhorá-lo um pouco, porque a idéia é muito interessante, apesar da execução duvidosa. O resultado final (ver abaixo) me lembrou o estilo de Alberto Caeiro, o que é curioso, porque, outro dia, eu comentava com o Eduardo sobre as semelhanças entre esses dois poetas. Surpreendentemente, refletindo um pouco mais sobre o assunto, acabei chegando a mais divergências do que afinidades entre eles. Senão, vejamos:

Manoel de Barros considera redentora a possibilidade de as coisas se multiplicarem em metáforas a partir de suas semelhanças mútuas, uma vez que, apenas através de tal propriedade, seriam capazes de superar a singularidade ontológica (expressa pelo nome próprio) a que o pensamento lógico as obriga. Alberto Caeiro, por sua vez, toma por mistificação idealista e, portanto, doentia (num sentido quase(?) nietzscheano do termo, curiosamente) a idéia de que uma coisa possa se identificar a qualquer outra que não ela mesma, o que é o pressuposto básico de qualquer metáfora. Essa convicção termina por se traduzir numa espécie de "estética do nome próprio" (nesse sentido, diametralmente oposta à de Manoel de Barros), em que o pleonasmo se substitui à metáfora para se converter num verdadeiro princípio composicional, ex.: "(...) as estrelas não são senão estrelas / Nem as flores senão flores. / Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores." (poema XXIV d'O Guardador de Rebanhos). Ao nome próprio, credita-se o poder de evocar a presença mesma da coisa nomeada, sem lhe impor um traço sequer que não seja próprio de seu ser, conforme verificável pelos sentidos.

É evidente que tal presentificação se dá pela via da metonímia, o que afasta qualquer suspeita de pensamento mágico. O pensamento mágico, pelo contrário, concebe o universo como um sistema linguístico em que tudo se comunica com tudo pela via da analogia. Já em Caeiro, não há qualquer via de comunicação entre os elementos do mundo, alienados uns dos outros em suas molduras individuais e intransitivas. Os nomes próprios sãos os correlatos linguísticos de tais molduras, e é a incomunicabilidade acima mencionada que suscita sua reiteração redundante, ao mesmo tempo em que oblitera a promiscuidade entre as coisas que é o pré-requisito para a geração de metáforas. Com efeito, é somente por indulgir à "estupidez de sentidos" de seu hipotético leitor que o poeta se permite falar por imagens, dissolvendo os limites entre as coisas e possibilitando que elas se refundam umas nas outras. Na verdade, raramente chega a ocorrer essa refusão completa, o que só se opera pelas virtudes de uma metáfora autêntica. Mais comumente, o que se verifica é a aproximação modesta levada a cabo pelo logocêntrico símile.

Ao lado da cosmovisão imagética, a poética de Caeiro elege como antagonista a reflexão filosófica, ambas deturpadoras da realidade empírica e, portanto, obstáculos na relação entre homem e mundo. Contudo, o que me parece extremamente surpreendente é que, em seu anti-lirismo e em seu irracionalismo radicais, cuja função teórica seria proteger o real sensível contra as violências do pensamento analógico e da razão abstrata, tal poética termine por se associar àquele, que, na história do pensamento ocidental, inaugura uma longa tradição de desrespeito à imanência em prol do dedutível: o filósofo Parmênides. Essa aliança inusitada se torna, por vezes, flagrante na obra do poeta, como em "A espantosa realidade das coisas" (Poemas Inconjuntos), que afirma: "Cada coisa é o que é", numa paráfrase talvez involuntária (não obstante, óbvia) do Princípio de Identidade: "Toda coisa é o que é". Com efeito, ao atestar reiteradamente "que as pedras são só pedras / E que os rios não são senão rios / E que as flores são apenas flores", esse imanentista militante aparenta estranhamente confirmar a pedra fundamental da Metafísica: a idéia de que as coisas são idênticas a si mesmas, e a nada mais.

Manoel de Barros se contrapõe a essa posição de maneira frontal. A sua é, por excelência, uma poética da metáfora. O grande projeto do "Livro das Ignorãnças" é talvez a subversão da lógica ocidental, de que Parmênides é o pai. Às tautologias realistas de Caeiro, a obra responde com a sinestesia, o absurdo e o paradoxo (não no sentido zenoniano do termo, naturalmente), e, ao rigor do Princípio de Identidade, opõe a preguiça ingênua do matuto Adaleço: "Se houvesse de escolher entre uma coisa e outra / ficasse deitado sobre nenhuma. / A doce independência de não escolher!" Que me dizem?

A seguir, os poemas:

XIX
(original sofrível)

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a
imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás
de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o
rio faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

XIX
(Versão pretensamente melhorada)

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era uma cobra de vidro mole
que fazia uma volta atrás de nossa casa.

Passou um homem depois e disse:
Essa volta que o rio faz por trás de sua casa
se chama enseada.

Não era mais uma cobra de vidro mole
que fazia uma volta atrás de nossa casa.
Era uma enseada.

Comments: Postar um comentário

This page is powered by Blogger. Isn't yours?