sábado, fevereiro 05, 2005
Eduardo,
Sou forçado a admitir: não procede a idéia de que os parcos 14 versos do soneto o condenariam necessariamente a uma banalidade reflexiva. Você tem toda a razão ao afirmar que "é exatamente no apuro formal que o espaço para a reflexão se alarga. O espaço de um soneto não deve ser compreendido fisicamente apenas. Há que se levar em conta que o trabalho artístico sobre a linguagem proporciona - também - a abertura de um espaço expressivo/comunicacional não acessível à linguagem discursiva". Eu, às vezes, tenho certa tendência a negligenciar essa dimensão propriamente comunicativa do texto, já que, em geral, procuro me concentrar em seus aspectos mais imanentes.
Entretanto, penso que, ao opor Logopéia/Ética a Forma/Arte (ainda que, em seu texto, essa oposição sirva à superação de si mesma), você confunde duas coisas distintas: Logopéia e Conteúdo (este sim a legítima contraparte da Forma). A Logopéia acontece justamente quando o Conteúdo, em função de certas especificidades de sua formalização, deixa de importar enquanto tal e passa a valer exclusivamente enquanto elemento de sugestão estética. Assim, a Logopéia não pode se contrapor à Forma. Daí minha afirmação de que, no soneto de Camões, são, em parte, as anáforas que fazem com que o jogo de idéias mereça o nome de Logopéia (esse texto, aliás, ainda aguarda a devida demonização). Um comentário lateral à sua argumentação, na verdade, com a essência da qual estou em pleno acordo. O soneto do Gregório é bem legal. Também não conhecia.
Agora, sobre o poema do Rimbaud e sua, por vezes, grunewáldica tradução. De fato, verter o "indiscrets" da primeira e última estrofe por "muito esperto" é enormidade que se esperaria do nada saudoso José Lino ("Que lástima!"), e não de Ivo Barroso. Já o "maldosamente" do verso 4 me parece meritório. Diz muito mais sobre o ânimo voiyeurístico das árvores que batem na janela do que um possível "malignamente", primeira tentação de qualquer tradutor diante do advérbio "malinement", imagino eu. Na verdade, a tradução com um todo não faz feio senão por alguns momentos bastante pontuais; o problema é que, nesses pontos, também não faz feio; faz grotesco. É o caso do "muito esperto", já mencionado, mas também da estrofe 4, com os "ritornelos" (pobres em potencial interpretativo se comparados ao trinado) e a cena burlesca do "grito inatural", em vez de "doce riso brutal"(!), que, ainda por cima, atropela a repetição anafórica da palavra "rire". A estrofe 3, por outro lado, me agrada bastante, mesmo com a supressão do "cire" tão tipicamente simbolista. Vale a pena em função das aliterações em S e Z, que fazem jus ao original.
Sua leitura do poema é aguda. Só lamento que tenha vindo aos pedaços, ainda que longa. Evidentemente, como tudo na vida, aliás, é passível de demonização em certos pontos - e eu, como bom espírito-de-porco, não me furtarei à tarefa. Na verdade, pretendo lançar-me a ela no próximo posting. Até lá.
Sou forçado a admitir: não procede a idéia de que os parcos 14 versos do soneto o condenariam necessariamente a uma banalidade reflexiva. Você tem toda a razão ao afirmar que "é exatamente no apuro formal que o espaço para a reflexão se alarga. O espaço de um soneto não deve ser compreendido fisicamente apenas. Há que se levar em conta que o trabalho artístico sobre a linguagem proporciona - também - a abertura de um espaço expressivo/comunicacional não acessível à linguagem discursiva". Eu, às vezes, tenho certa tendência a negligenciar essa dimensão propriamente comunicativa do texto, já que, em geral, procuro me concentrar em seus aspectos mais imanentes.
Entretanto, penso que, ao opor Logopéia/Ética a Forma/Arte (ainda que, em seu texto, essa oposição sirva à superação de si mesma), você confunde duas coisas distintas: Logopéia e Conteúdo (este sim a legítima contraparte da Forma). A Logopéia acontece justamente quando o Conteúdo, em função de certas especificidades de sua formalização, deixa de importar enquanto tal e passa a valer exclusivamente enquanto elemento de sugestão estética. Assim, a Logopéia não pode se contrapor à Forma. Daí minha afirmação de que, no soneto de Camões, são, em parte, as anáforas que fazem com que o jogo de idéias mereça o nome de Logopéia (esse texto, aliás, ainda aguarda a devida demonização). Um comentário lateral à sua argumentação, na verdade, com a essência da qual estou em pleno acordo. O soneto do Gregório é bem legal. Também não conhecia.
Agora, sobre o poema do Rimbaud e sua, por vezes, grunewáldica tradução. De fato, verter o "indiscrets" da primeira e última estrofe por "muito esperto" é enormidade que se esperaria do nada saudoso José Lino ("Que lástima!"), e não de Ivo Barroso. Já o "maldosamente" do verso 4 me parece meritório. Diz muito mais sobre o ânimo voiyeurístico das árvores que batem na janela do que um possível "malignamente", primeira tentação de qualquer tradutor diante do advérbio "malinement", imagino eu. Na verdade, a tradução com um todo não faz feio senão por alguns momentos bastante pontuais; o problema é que, nesses pontos, também não faz feio; faz grotesco. É o caso do "muito esperto", já mencionado, mas também da estrofe 4, com os "ritornelos" (pobres em potencial interpretativo se comparados ao trinado) e a cena burlesca do "grito inatural", em vez de "doce riso brutal"(!), que, ainda por cima, atropela a repetição anafórica da palavra "rire". A estrofe 3, por outro lado, me agrada bastante, mesmo com a supressão do "cire" tão tipicamente simbolista. Vale a pena em função das aliterações em S e Z, que fazem jus ao original.
Sua leitura do poema é aguda. Só lamento que tenha vindo aos pedaços, ainda que longa. Evidentemente, como tudo na vida, aliás, é passível de demonização em certos pontos - e eu, como bom espírito-de-porco, não me furtarei à tarefa. Na verdade, pretendo lançar-me a ela no próximo posting. Até lá.
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