quarta-feira, fevereiro 09, 2005
Cumprindo minha promessa e voltando ao Rimbaud:
(ou Rimbaud II - A demonização. "André, onde estás que não respondes?")
O ponto em que a tradução de Ivo Barroso é, talvez, mais infeliz (com a possível exceção do bathológico "grito inatural" da quarta estrofe) se encontra no verso de número 25: trata-se da supressão do vocábulo "deux". É certo que a construção "tenho duas palavras a dizer-te" não constitui expressão idiomática da língua portuguesa, ao contrário da expressão em Francês, a qual, no texto original, intensifica a coloquialidade que marca a conversa entre os amantes(?). O tradutor, cheio de boas intenções, optou por tentar reproduzir esse tom coloquial, sacrificando, para tanto, a palavra "duas". Muito embora a solução seja legítima, penso que a análise do Eduardo deixa bastante evidente o quanto se perde com tal sacrifício.
Eduardo lê o poema com extrema argúcia. Sem violentá-lo em momento algum, imprime ao seu sistema imagético uma coerência notável, surpreendendo, sob cada metáfora, a idéia da dualidade. De fato, embora isso pareça ter escapado à sensibilidade de Ivo Barroso, o número dois preside à construção de "Première Soirée". É o que nos revelam os seguintes elementos: a imagem dos "vidros" (primeira/última estrofe), tão resistentes quanto translúcidos, correlatos objetivos do "riso de cristal" (4ª estrofe) com que "ela" confunde seu pretendente - e a nós, leitores; a metáfora dos "trinados" (4ª estrofe), indecisão melódica entre duas notas distintas, que também reflete o "borboletear" do sol sobre o colo da personagem feminina (3ª estrofe); o jogo dos tempos verbais; a repetição da primeira estrofe, fechando o poema; a própria atitude ambígua da moça, com suas reticências, sua ironia suave ("c'est encor mieux!") e sua resistência suspeita ("Veux-tu finir!" Tradução: "Páaara...").
Há também o fato de que o poema tem dois personagens; a mulher está entre nua e vestida; as duas primeiras estrofes terminam com repetições duplas; o riso da moça, além de cristalino, é oximórico: "doce" e "brutal"; além do quê, nunca ficamos sabendo ao certo se o eu-lírico sedutor chega a lograr êxito em sua empreitada, ou se vai dormir chupando o dedo e, mais tarde, entrega-se à prática célebre pela qual Onan arde no segundo círculo do Inferno. Enfim... de cada verso do poema, parece emanar uma sugestão de duplicidade. Mais do que isso, na verdade, o que se verifica é a simultaneidade dos contrários, que já não se excluem, mas coexistem numa espécie estranha de harmonia.
A partir dessa constatação, está preparado o terreno para o salto interpretativo (muito bem executado, não questiono): à ambiguidade identificada tanto no plano dos recursos poéticos quanto no da própria "trama", corresponde uma visão de mundo neoplatônica e mística, típica do Simbolismo, segundo a qual as contradições particulares se resolveriam - sem, no entanto, se suprimir, como quer o racionalismo dialético mutilador - em alguma instância universalizante. A pequena cena amorosa do poema não passaria, portanto, de uma espécie de alegoria para as núpcias entre o Arco e a Lira, celebradas no seio totalitário do Uno original. Reparem como, aproveitando o clima geral, Plotino e Heráclito também parecem se consubstanciar nesta minha síntese talvez fajuta e demonizável.
Enfim... interpretação inspirada; quanto a isso, não há dúvida. O problema é que ela não se assuma enquanto tal. "Na verdade, esta é uma escolha de leitura, a qual talvez chamaríamos de anti-interpretiva, pois preserva e privilegia a abertura e a pluralidade do texto." Anti-interpretativa?! Give me a break, Gilles! "A imagem do vidro continua a sugerir a ambigüidade do comportamento da moça, a ambigüidade do poema, que se edifica enquanto total das possibilidades, numa espécie de quarta dimensão do texto. E as reticências da sétima estrofe, tão otimistas e triunfais? Teria finalmente cedido, a donzela? Sim e não. "E". A ambigüidade sem solução do poema é extraordinariamente condizente com a filosofia do simbolismo." Se isso não se chama interpretação, Guattari não se chama Félix. "Tudo ao mesmo tempo agora" é uma interpretação como qualquer outra; não nutramos ilusões pós-modernas (em que pese a cacofonia). Demonização número um.
"(...) o poema como um todo se funda sobre e funda, a partir de seus recursos estilísticos, a dualidade, ou melhor ainda, a pluralidade da existência e da realidade." Melhor ainda para quem, meu caro Gilles? Aqui, sim, temo dizer que se sente o odor deletério da violência. Depois de nos convencer com tanta agudeza e propriedade de que "Première Soirée" é um poema dual por excelência, vir com essa sutil, quase imperceptível malandragem argumentativa: "ou melhor ainda, a pluralidade"... Oras, s'il vous plait, mon cher Gilles! Rimbaud: - "Dualidade." Gilles: - "O quê? Pluralidade?" Demonização número dois.
A número três é mais uma dúvida que uma demonização. "(...) o poema pinta um quadro capaz de superar plano e profundidade, rumo à simultaneidade simbólica." Essa última expressão é que me suscitou estranheza. Sempre tive a impressão de que a idéia de "símbolo" pressupusesse justamente o contrário, isto é, a distinção entre plano e profundidade. Na superfície, a imagem conotativa, a figura; no fundo, o significado, o conteúdo abstrato. Gostaria de aprender mais sobre a "simultaneidade simbólica".
Três é um bom número, portanto, fico nisso. Aguardo o contra-ataque - e convido os demais confrades à contenda (quatro significantes seguidos começando em "con": um prato cheio para um psicanalista lacaniano). Abraços.
(ou Rimbaud II - A demonização. "André, onde estás que não respondes?")
O ponto em que a tradução de Ivo Barroso é, talvez, mais infeliz (com a possível exceção do bathológico "grito inatural" da quarta estrofe) se encontra no verso de número 25: trata-se da supressão do vocábulo "deux". É certo que a construção "tenho duas palavras a dizer-te" não constitui expressão idiomática da língua portuguesa, ao contrário da expressão em Francês, a qual, no texto original, intensifica a coloquialidade que marca a conversa entre os amantes(?). O tradutor, cheio de boas intenções, optou por tentar reproduzir esse tom coloquial, sacrificando, para tanto, a palavra "duas". Muito embora a solução seja legítima, penso que a análise do Eduardo deixa bastante evidente o quanto se perde com tal sacrifício.
Eduardo lê o poema com extrema argúcia. Sem violentá-lo em momento algum, imprime ao seu sistema imagético uma coerência notável, surpreendendo, sob cada metáfora, a idéia da dualidade. De fato, embora isso pareça ter escapado à sensibilidade de Ivo Barroso, o número dois preside à construção de "Première Soirée". É o que nos revelam os seguintes elementos: a imagem dos "vidros" (primeira/última estrofe), tão resistentes quanto translúcidos, correlatos objetivos do "riso de cristal" (4ª estrofe) com que "ela" confunde seu pretendente - e a nós, leitores; a metáfora dos "trinados" (4ª estrofe), indecisão melódica entre duas notas distintas, que também reflete o "borboletear" do sol sobre o colo da personagem feminina (3ª estrofe); o jogo dos tempos verbais; a repetição da primeira estrofe, fechando o poema; a própria atitude ambígua da moça, com suas reticências, sua ironia suave ("c'est encor mieux!") e sua resistência suspeita ("Veux-tu finir!" Tradução: "Páaara...").
Há também o fato de que o poema tem dois personagens; a mulher está entre nua e vestida; as duas primeiras estrofes terminam com repetições duplas; o riso da moça, além de cristalino, é oximórico: "doce" e "brutal"; além do quê, nunca ficamos sabendo ao certo se o eu-lírico sedutor chega a lograr êxito em sua empreitada, ou se vai dormir chupando o dedo e, mais tarde, entrega-se à prática célebre pela qual Onan arde no segundo círculo do Inferno. Enfim... de cada verso do poema, parece emanar uma sugestão de duplicidade. Mais do que isso, na verdade, o que se verifica é a simultaneidade dos contrários, que já não se excluem, mas coexistem numa espécie estranha de harmonia.
A partir dessa constatação, está preparado o terreno para o salto interpretativo (muito bem executado, não questiono): à ambiguidade identificada tanto no plano dos recursos poéticos quanto no da própria "trama", corresponde uma visão de mundo neoplatônica e mística, típica do Simbolismo, segundo a qual as contradições particulares se resolveriam - sem, no entanto, se suprimir, como quer o racionalismo dialético mutilador - em alguma instância universalizante. A pequena cena amorosa do poema não passaria, portanto, de uma espécie de alegoria para as núpcias entre o Arco e a Lira, celebradas no seio totalitário do Uno original. Reparem como, aproveitando o clima geral, Plotino e Heráclito também parecem se consubstanciar nesta minha síntese talvez fajuta e demonizável.
Enfim... interpretação inspirada; quanto a isso, não há dúvida. O problema é que ela não se assuma enquanto tal. "Na verdade, esta é uma escolha de leitura, a qual talvez chamaríamos de anti-interpretiva, pois preserva e privilegia a abertura e a pluralidade do texto." Anti-interpretativa?! Give me a break, Gilles! "A imagem do vidro continua a sugerir a ambigüidade do comportamento da moça, a ambigüidade do poema, que se edifica enquanto total das possibilidades, numa espécie de quarta dimensão do texto. E as reticências da sétima estrofe, tão otimistas e triunfais? Teria finalmente cedido, a donzela? Sim e não. "E". A ambigüidade sem solução do poema é extraordinariamente condizente com a filosofia do simbolismo." Se isso não se chama interpretação, Guattari não se chama Félix. "Tudo ao mesmo tempo agora" é uma interpretação como qualquer outra; não nutramos ilusões pós-modernas (em que pese a cacofonia). Demonização número um.
"(...) o poema como um todo se funda sobre e funda, a partir de seus recursos estilísticos, a dualidade, ou melhor ainda, a pluralidade da existência e da realidade." Melhor ainda para quem, meu caro Gilles? Aqui, sim, temo dizer que se sente o odor deletério da violência. Depois de nos convencer com tanta agudeza e propriedade de que "Première Soirée" é um poema dual por excelência, vir com essa sutil, quase imperceptível malandragem argumentativa: "ou melhor ainda, a pluralidade"... Oras, s'il vous plait, mon cher Gilles! Rimbaud: - "Dualidade." Gilles: - "O quê? Pluralidade?" Demonização número dois.
A número três é mais uma dúvida que uma demonização. "(...) o poema pinta um quadro capaz de superar plano e profundidade, rumo à simultaneidade simbólica." Essa última expressão é que me suscitou estranheza. Sempre tive a impressão de que a idéia de "símbolo" pressupusesse justamente o contrário, isto é, a distinção entre plano e profundidade. Na superfície, a imagem conotativa, a figura; no fundo, o significado, o conteúdo abstrato. Gostaria de aprender mais sobre a "simultaneidade simbólica".
Três é um bom número, portanto, fico nisso. Aguardo o contra-ataque - e convido os demais confrades à contenda (quatro significantes seguidos começando em "con": um prato cheio para um psicanalista lacaniano). Abraços.
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