<$BlogRSDUrl$>

terça-feira, junho 22, 2004

Amigos,
O último posting do Gustavo afirma haver três traços comuns a vanguardas artísticas e filosóficas: defesa da liberdade, iconoclasmo e monumentalidade. Acho que a afirmação procede. Também concordo que ambos os tipos de vanguarda possuam suas fragilidades, por vezes "pueris". Entretanto, não enxergo em Guatarri e Deleuze o amor ao choque por ele mesmo que se pode identificar no Dadaísmo, por exemplo. Talvez porque, para os artistas, o iconoclasmo seja um fim em si, enquanto que, para os filósofos, parece mais uma estratégia para atingir determinado objetivo. Não vejo provocação gratuita no ataque de "Mil Platôs" à Psicanálise e à Linguística, apesar de toda a agressividade com que esse ataque é realizado.

Aliás, se eu tivesse que apontar uma única caracterítica partilhada pelas vanguardas artísticas (tanto as do início quando as do meio do séc. XX) e a linhagem de pensamento fundada por Nietzsche, escolheria a combatividade - e, talvez mais do que isso, a destrutividade, da qual o principal sintoma é a "retórica da negação" de que já falei em postings anteriores. Está claro que tal destrutividade possui uma necessária contraparte edificadora. No entanto, como também já declarei anteriormente, é justamente nisso que, a meu ver, consiste a mais "pueril" das fragilidades vanguardísticas. Eis porque, apesar de considerar arriscada a tentativa de profetizar "destinos históricos", não consigo deixar de concordar com o Gustavo quando ele prevê um fim comum para Deleuze e amigos e para a arte de vanguarda. Entretanto, discordo que esse fim seja marcado "pela impossibilidade de dizer algo que sempre se lança furiosamente contra tudo e não aponta para nada - nem para si mesmo". Pelo contrário, é porque o discurso nietzcheano/deleuzeano aponta excessiva e enfaticamente para si mesmo que termina por se condenar a um fado inglório, algo, talvez, análogo ao experimentalismo institucionalizado da modernidade tardia.

Tanto Nietzsche quanto Deleuze desferem um golpe mortal contra a noção de Verdade para, em seguida, afirmarem suas próprias verdades particulares. Deleuze o faz de forma ainda mais sistemática do que seu mestre. E não estou me referindo apenas ao paradoxo de afirmar como verdade a inexistência da Verdade. Depois de impiedosamente exporem as mazelas da lógica e da linguagem, os dois se utilizam das mesmas para, respectivamente, confeccionar novos valores e revelar "o modo como a natureza realmente se comporta". E o tom furioso com que o fazem denota uma convicção e uma certeza de si que as suas próprias descobertas já haviam impossibilitado. É o "caráter de militância" que o amigo Fábio tão espirituosamente parodia: "Devemos inverter os paradigmas! Filosofia virtual: por um modo de pensar rizomático!" Qualquer semelhança com a dicção de certa "vã guarda" nossa velha conhecida não terá sido mera coincidência.

Quanto à questão da Psicanálise, não acho nada descabida a problematização da hierarquia analista/paciente. Entretanto, se quisermos levá-la às suas últimas consequências, a partir da noção de que "diagnóstico e tratamento (são) amplamente derivados do próprio sistema hermenêutico escolhido", terminaremos por estendê-la a toda a Medicina. Aliás, como o próprio Pedro ressalta, Freud era, antes de mais nada, um médico. Todas as suas especulações tinham como horizonte a elaboração de uma técnica, de uma metodologia que se pudesse traduzir num tratamento efetivo. Era, portanto, impossivel que o psicanalista não se contaminasse com a aura do médico. É verdade que o mito do "olhar translúcido" tem sido desmascarado, inclusive no campo das Ciências Exatas. E, no entanto, transplantes de coração continuam sendo realizados com sucesso; e, no entanto, a psicanálise sobrevive como prática clínica. Com efeito, acho que, no fim das contas, o que a Psicanálise tem a dizer em defesa própria é isto: pode até não se sustentar do ponto de vista filosófico, mas, como prática clínica, tem resistido ao teste do tempo.

sexta-feira, junho 11, 2004

O exercício sugerido pelo amigo Eduardo: estabelecer um paralelo entre vanguardas artísticas e (por assim dizer) vanguardas filosóficas, isto é, Deleuze, Nietzsche e sua turma, parece-me uma ótima estratégia para melhor definir tanto as potencilaidades quanto as limitações do pensamento que ora estudamos. Além do mais, poderá funcionar também como uma ponte entre a atual contenda e a sua predecessora, permitindo, talvez, a inclusão dos colegas que ainda não tiveram a honra duvidosa (brincadeirinha!) de entrar em contato com a obra deleuziana.

Obs.: Quando escrevi o parágrafo acima, minha intenção era realmente tentar levar a cabo o mencionado exercício, mas minha linha de raciocínio acabou me conduzindo por outros caminhos. Portanto, deixo o paralelo entre vanguardas para outro colega mais competente e mais inclinado nessa direção.

Enquanto isso, eu, do alto da minha vasta carga de leituras de, exatamente, vinte páginas da obra de Deleuze e Guatarri, vou tentar dar a minha versão de exegeta amador acerca da "visão de mundo", se é que a expressão é adequada, que se pode talvez desentranhar do cipoal rizômico. Perdoem a imodéstia. Trata-se mais de uma tentativa de compreensão, uma tática de aprendizado, por assim dizer, do que de uma opinião formada. Por favor, corrijam o que lhes parecer equívoco.

Lá vai: segundo Gilles e seu fiel companheiro Félix, tudo aquilo que existe se dá num mesmo plano ontológico e axiológico, o qual é, não habitado por entidades estanques e idênticas a si próprias, mas sim percorrido por incessantes fluxos de força que se entrecruzam de maneira desordenada. É assim que, ocasionalmente, verifica-se a confluência de alguns desses fluxos, o que dá origem aos chamados "acontecimentos", desprovidos (é importante ressaltar) de qualquer permanência ou caráter definitvo. Tal agenciamento de forças, por sua vez, não ocorre segundo relações de causa e efeito, mas unicamente em virtude da contigência mais estrita. A realidade é, portanto, fundamentalmente(?!) múltipla, dinâmica e superficial. Carece, dessa maneira, de um substrato transcendente que lhe imprima um sentido unidirecional e ordenador.

Entretanto, se, por um lado, é extirpada ao real a sua antiga raiz extraterrena, a qual terminava por cercear o potencial de dinamismo da imanência uma vez que a subjugava a um princípio unívoco e externo a ela mesma, não se lhe nega, por outro lado, uma certa maneira de se comportar, subjacente a tudo e comum a tudo (e, portanto, totalizante). Eis o que confere ao imanentismo de Deleuze sua dimensão metafísica, bem como, de alguma forma, totalitária. Neste ponto, o totalitarismo se me afigura como um efeito colateral inevitável da metafísica. Como preservar nosso raciocínio de um aspecto totalizante uma vez que admitamos que algo subjaza a todas as coisas, orientando seu funcionamento, ainda que essa orientação consista, paradoxalmente, na ausência de qualquer ordenamento prévio? Aliás, seria assim tão absurdo pensar os próprios princípios de multiplicidade, dinamismo e superficialidade como as diretrizes de um ordenamento prévio? Pois se são elas que regulam o "comportamento da natureza"!

Não tem jeito: quanto mais radicalmente se decrete a falência do Absoluto, mais se estará procedendo a absolutização do Relativo (segundo feliz expressão do colega André). Quanto mais convictamente postularmos a relatividade de tudo, mais absolutizante será esse nosso relativismo. Sofisma? Jogo de palavras? Armadilha lógica?

Diante dessas interrogações, devo dizer que o argumento: "não cabem mais análises sob a coação de pressupostos lógicos" não me convence. Que a relação entre a Lógica e o real, outrora estreita e aproblemática, tenha sido irremediavelmente abalada, não há discussão. Eis como eu enxergo a coisa: a clássica oposição entre dois modos de atingir (ou construir, vá lá) determinada "verdade", quais sejam, a Fé e a Lógica, não faz sentido no final das contas. Em última análise, só a partir da Fé chegamos às nossas concepções sobre a realidade. Pois não há nenhum dado lógico que nos permita crer numa equivalência perfeita entre um raciocínio perfeitamente lógico e uma verdade perfeitamente verdadeira (isso para não levantar a questão de quão ilusória seria a noção de "um raciocínio perfeitamente lógico": por mais perfeito que pareça, um raciocínio pode se ver abalado, a qualquer momento, pelo advento de uma variante até então desconhecida). Em última análise, a Lógica é incapaz de fundamentar a si mesma. É só mediante um depósito de fé na própria Lógica que esta se converte num instrumento funcional para a produção de "verdades".

Todavia, diante disso tudo, temo que, agora, seja a minha vez de perguntar: "E daí?" Sim, a Lógica é de uma precariedade patente, entretanto, qual é a alternativa à Lógica? Reparem como o próprio golpe mortal contra a Lógica só pode ser desferido mediante um raciocínio... lógico! A própria expressão "raciocínio lógico", na verdade, não passa de um pleonasmo. Qualquer utilização da linguagem que preserve o mínimo de comunicabilidade, qualquer exercício concreto do pensamento, portanto, que não se resuma à mera enunciação de incoerências desconexas, é, em algum grau, lógico, ainda que assistemático, multívoco, caótico ou, em um só proparoxítono: rizômico. Constatar as fragilidades da Lógica enquanto meio de obtenção da Verdade é como constatar as limitações de nossos sentidos quanto à apreensão do real: tal constatação não elide o fato de que nossos sentidos constituem nossa única e inescapável via de apreensão do real. Não é porque nossa visão é precária que deixamos de enxergar. Da mesma forma, não é porque a Lógica é falha que deixamos de raciocinar segundo seus pressupostos. Pelo contrário, estamos presos à Lógica como estamos presos a nós mesmos e, por mais que estejamos conscientes da falta de fundamento lógico da própria Lógica, somos como que fisiologicamente incapazes de deslogicizar nossa atividade mental de maneira plena. Até hoje, as melhores tentativas nesse sentido se restringiram à mera (e, por vezes, pueril) transgressão do princípio da não-contradição, a qual, obviamente, não significa uma superação da Lógica enquanto paradigma do pensamento, mesmo quando intencional.

É por isso que, apesar de toda a sua radicalidade, o pensamento de Deleuze não deixa de ser lógico e, por conseguinte, é passível de ser avaliavado tendo o princípio da não-contradição como parâmetro. Acuado por um ataque de natureza lógica, deveria ser capaz de se defender por conta própria, escudando-se na própria coerência, sem precisar apelar para um desmerecimento da Lógica puro e simples (e fácil, diga-se de passagem). Ademais, não se pode deixar de levar em conta o perigoso irracionalismo a que tal desmerecimento pode dar vazão quando abusado. Basta imaginar a seguinte situação absurda: dois deputados discutem determinado assunto no Congresso. Um defende que se tome a medida X; o outro, a medida Y. O primeiro expõe seus argumentos através de um raciocínio impecavelmente lógico. O segundo, entretanto, retruca: "Vossa Excelência tem toda a razão. Mas, como a razão está falida, tomemos a medida Y."

Agora, para fechar com chave de ouro esta mensagem ("finalmente!" - não pensem que não os ouço exclamar), uma breve anedota familiar. Minha mãe, que, como já lhes disse, estudou a obra de Deleuze e Guatarri há alguns anos, ficou curiosa com relação à este debate e resolveu ler os postings. À medida que ia lendo, ia concordando com Eduardo, Gustavo, etc., e, por extensão, discordando deste seu filho (filho único, diga-se de passagem, mas tudo bem: Deus está vendo. Ou não.). Numa espécie de psicanálise da minha argumentação, tentou relacioná-la com um suposto traço da minha personalidade, qual seja, uma certa resistência ao novo e ao diferente e um certo pendor para a abstração reducionista das coisas. Para fundamentar essa sua teoria, socorreu-se de um livro que já havia mencionado anteriormente por ocasião de outra discussão sobre o mesmo tema: "Deleuze e a Filosofia", de Roberto Machado (Editora Graal). E qual não foi sua surpresa ao se deparar com o seguinte trecho, à página 09 da obra desse respeitado exegeta brasileiro do Anti-Filósofo francês:

"(...) Considerando a filosofia de um ponto de vista filosófico, (Deleuze) estabelece dois tipos, dois estilos de filosofia, não apenas heterogêneos, mas sobretudo antagônicos. Neste sentido, isto é, no que diz respeito à constituição de uma geografia do pensamento, a filosofia de Deleuze é profundamente dualista (meu itálico, naturalmente).

Esse dualismo ou a posição de dois espaços antagônicos não se reduz evidentemnte ao pensamento filosófico; ele é uma propriedade do pensamento em geral. Não é meu objetivo aprofundar essa questão, mas pode ser elucidativo assinalar que Deleuze descobre ou estabelece essa dualidade antagônica nos mais variados saberes. Na literatura: é o que o faz, por exemplo, privilegiar em suas análises Artaud, Blanchot, Beckett, Michaux, Proust (...) 'Haverá sempre um Breton contra Artaud, um Goethe contra Lenz, um Schiler contra Hölderlin', diz L'anti-Oedipe. E segundo Mille plateaux os textos de Kleist 'se opõem, sob todos os aspectos, ao livro clássico e romântico, constituído pela interioridade de uma substância ou de um sujeito. O livro máquina de guerra contra o livro aparelho de Estado'. Mas o antagonismo existe até mesmo nas ciências. É assim que L'anti Oedipe opõe uma linguística do significante e uma linguística dos fluxos. (...) É assim também que L'anti-Oedipe (...) assinala um conflito 'libidinal' entre um elemento paranóico-edipizante e um elemento esquizo-revolucionário (...) É assim ainda que Milles Plateaux (...) opõe dois tipos de ciências rivais que interagem: as ciências legais, reais, imperiais, centradas, ligadas ao aparelho de Estado (...) as ciências menores, excêntricas, nômades, ambulantes, itinerantes, desterritorializantes, ligadas à máquina de guerra (...) É assim, finalmente, que Milles Plateaux chega mesmo a utilizar a expressão 'dualidade primordial' para situar a relação entre dois tipos de espaço: o espaço liso (vetorial, projetivo, topológico) e o espaço estriado (métrico)."

Prestem atenção que agora é que a coisa fica interessante:

"O próprio Deleuze se dá conta de uma incompatibilidade, para não dizer uma contradição, entre seu constante elogio da multiplicidade ou mesmo seu projeto de 'fazer o múltiplo', e a afirmação desse dualismo ou dessa dicotomia (outro glorioso itálico meu - de quem mais?) entre esses dois espaços do pensamento. Mas o que a argumentação elucida neste momento é apenas que a oposição não se dá entre dois modelos, mas entre um modelo transcendente e um processo imamente; o que significa reconhecer que o dualismo continua a existir. (...)

Mas Deleuze novamente se dá conta da dificuldade. É assim que (o camarada adora essa fórmula), para resolvê-la ou pelo mesos explicitá-la, formula uma hipótese bastante semelhante à posição de nietzsche, que, reconhecendo toda oposição de valores como sendo metafísica e interessado em superar as dicotomias, considera, no entanto, que, às vezes, é a natureza grosseira da linguagem que condena a falar em termos de oposição quando na verdade só existem graus e sutis transições. (...)

É difícil saber - e de todo modo é ainda bastante cedo para decidir - se essa crítica do dualismo, realizada em nome do pluralismo mas obrigada a criar novas dualidades, é uma quetão terminológica, um problema de escritura, ou se aponta para uma dificuldade conceitual constitutiva da filosfia de Deleuze proveniente da inadequação entre suas propostas e seu funcionamento ou da diferença entre gritar 'viva o múltiplo' e 'fazer o múltiplo'."

Mais uma vez, é por isso que eu digo e repito: "Esta vida é um pandeiro!"

quinta-feira, junho 10, 2004

Eduardo, os dados do Gustavo são os seguintes:

Endereço: R. Contendas, 677/102 (2ª paralela à Silva Lobo)
Telefone: 30823150
e-mail:gutosr@igbest.com.br

Dentro em breve, retorno à nossa acalorada discussão. Até daqui a pouco!

segunda-feira, junho 07, 2004

Esqueci de dizer uma coisa no meu último posting. Ao longo do debate, aventou-se a teoria de que o dualismo de "Rizoma", seria, na verdade, um arremedo de dualismo, uma "mockery", cujo propósito seria demonstrar as limitações do pensamento dicotômico através da ironia. Desconfio dessa hipótese. Não consigo identificar nenhum elemento no texto que nos permita encarar a oposição "Rizoma" x "Árvore" como irônica, nem percebo como tal oposição, em si, poderia contribuir para expor os limites do binarismo. Acho que, se ela expõe algum limite, é o do projeto deleuziano, afigurando-se não como recurso consciente, mas sim como cacoete involuntário, resquício do modo dual de pensar manifestando-se num texto cujo objetivo é superar esse mesmo modo. É claro que há ironia aí, mas esta não é intencional e nem depõe a favor dos autores.

Uma ironia do mesmo tipo, encontramos em Nietzsche. Verifique-se, a esse respeito, o acento profético, messiânico mesmo, de seus escritos (acento este parafrasticamente assimilado pelo colega Eduardo, em sua última mensagem), o qual não se harmoniza com a aspiração niestzschiana à superação da Verdade. A pregação evangélica de Zaratustra, o uso categórico dos verbos "dever" e "ser" (ex: "o homem deve ser superado!", "o sentido da terra é não-sei-quê!"), entre outras coisas, acabam deixando claro que, se Nietzche destrói catedrais, é porque quer substituí-las por Templos do Anti-Cristo. Essa contraparte edificadora da destruição niestzschiana é justamente o que mais me incomoda nesse filósofo - e em toda a sua prole (Deleuze incluso). A confecção de "novíssimos valores" me parece um retrocesso, uma vez que se tenha descrido da própria possibilidade de valores absolutos. Muito mais interessante seria aprender a viver num mundo sem valores. Trocar o altar de Urano pelo de Gaia é sair do fogo para pular na fogueira.

Por ex.: por mais libertário que seja o Rizoma, ele não exclui uma certa obrigatoriedade, a qual se depreende de seu tom combativo, agressivo, excludente (rizoma = bom ; árvore = ruim). Qual certeza fundamenta essa destrutividade tão convicta? Para mim, o que a morte de Deus significa é a abolição definitiva da própria possibilidade da certeza. Não há chão para qualquer tipo de valor: nem novo, nem velho, nem rizomático e nem arbóreo. Nietzche quer trocar a moral dos fracos pela dos fortes; Deleuze quer substituir o modelo arbóreo por outro que melhor descreva o "modo como a natureza se comporta". Ora, isso não é superação da Verdade, mas meramente substituição de uma verdade por outra. Apenas mais um episódio na longa e cansativa história do pensamento ocidental.

Evidentemente, poder-se-ia argumentar que o raciocínio acima tem razão, mas só o que ele tem é a Razão. Tudo o que ele faz é encurralar Deleuze e Nietzsche numa "armadilha lógica", o que não tem nenhuma importância, uma vez que a Lógica, falida, já não pode mais servir como fiel da balança. Tentarei rebater esse argumento dentro em breve.

domingo, junho 06, 2004

Demorei mais do que havia previsto, mas o importante é que voltei. E quero manifestar desde já meu apoio à idéia do Gustavo de aplicar ao Eduardo, nosso colega faltão, uma "prenda teórico/crítica". Agora, só falta inventar uma. Vamos colocar nossas imaginações sádicas para funcionar.

A despeito de tudo o que vem sendo dito aqui (e na sala de aula) contra a hipótese de um Deleuze ainda preso a alguma forma de binarismo, há um argumento a favor dessa mesma hipótese que me parece incontornável. Foi o André quem o formulou, referindo-se à estratégia argumentativa de "Rizoma":

"O que se opõe ao uno? O múltiplo. O que se opõe ao linear? O caótico. O que se opõe ao ponto? A linha. O que se opõe ao idêntico? A diferença. O que se opõe à raiz? O rizoma. O que se opõe à mentira da metafísica tradicional? A verdade da metafísica deleuziana. O que se opõe à prepotência da razão socrática - ou melhor, platônica? O retorno (eterno?) à filosofia pré-socrática - ou 'anti'-platônica."

É certo que não se pode encarar o Rizoma como a "antítese" da Árvore, uma vez que uma reconciliação sintética entre os dois seria impossível. De fato, Deleuze e Guatarri não fazem dialética. O que propõem é o abandono integral de uma maneira de conceber um livro (a natureza, a sociedade, o cosmos..) e sua consequente substituição por uma outra - aliás, radicalmente outra. Percebam, entretanto, como, nessa proposição ela mesma, é possível detectar algum resquício de binarismo. Trata-se de substituir uma maneira por outra. E, por mais revolucionária e "outra" que seja a segunda, ela só se define por contraste com a primeira ("primeira", "segunda" - notem como o número 2 ainda preside esse raciocínio). É assim que, filiando-se a Nietzsche, Deleuze adota como ferramenta discursiva o que poderíamos chamar de uma "retórica da negação": quem não entreouve, no "Anti-Édipo", um eco do "Anti-Cristo"? E o prefixo "anti" é, aqui, extremamente sintomático. Deleuze não se restringe a defender as próprias idéias de maneira direta e frontal, mas fá-lo (cacófato intencional) também obliquamente, através do ataque a idéias alheias - o que, diga-se de passagem, não deixa de ser coerente com um projeto que tem como propóstio colocar em xeque a própria noção de Verdade. De um modo ou de outro, é só a partir da demolição da Árvore que o perfil do Rizoma se delineia. Repito: não se trata de dialética nem tampouco de dialogismo, já que qualquer comunicação com "o inimigo" é uma impossibilidade. Contudo, qualquer pensamento que se estabeleça a partir da contraposição (não obstante, agressiva) a um determinado inimigo me parece, inegavelmente, dual. Por outro lado, a qual pensamento, em toda a história da filosofia, não seria possível atribuir o predicado acima?

Por isso é que eu tenho a impressão de que um certo dualismo é inescapável a qualquer esforço intelectual, como que inerente à própria essência (perdoem o linguajar obsceno) do pensar. Atribuir a "autoria", por assim dizer, do pensamento dual a Descartes, Sócrates ou mesmo Parmênides é simplesmente uma ficção histórica. É difícl imaginar uma cultura, por menos ocidental que seja, que não pense o mundo em termos de Luz e Trevas, Noite e Dia, Verão/Primavera e Iverno/Outono, Bem e Mal, Morte e Vida, etc. O dualismo está intrincadamente relacionado à nossa maneira de perceber as coisas, até fisiologicamente mesmo. Só somos capazes de perceber um determinado cheiro em contraste com algum outro. O mesmo vale para sons, formas e sabores. E, aparentemente, idéias.

sábado, junho 05, 2004

Senhores,
Negócio de "vias de fato", não contem comigo. Não sou afeito a tais práticas exóticas, ao contrário do que possa indicar a infamante alcunha imposta à minha pessoa pelas ações insidiosas de certos indivíduos. Indivíduos estes, aliás, que, apesar de haverem prometido retomar a célebre contenda sobre vanguardas, recolhem-se, em vez disso, ao mais esfíngico dos silêncios, confrontando-nos com uma angústia desconhecida de Mallarmé: a angústia da tela branca. Mal sabem eles, entretanto, que, por detrás do seu silêncio, podemos entreouvir suas risadinhsas prazenteiras... Só não se sabe se o que os faz rir é a canonização ostensiva dos apelidos por eles cunhados ou se alguma piadinha indigna de menção, assistida a indizíveis horas da tarde, em humorísticos mexicanos inconfessáveis, em ainda menos confessáveis canais abertos de televisão.
P.S.: Não se entristeçam: volto daqui a algumas horas.

sexta-feira, junho 04, 2004

Cavalheiros,
Em primeiro lugar, gostaria de dizer que "Rafito" são as senhoras vossas genitoras, principalmente a do Matheus. Em segundo lugar, gostaria de dizer inúmeras outras coisas, mas, tristemente, vocês deixaram para postar justo no dia em que não disponho de nem um pouco desse recurso tão valioso quanto escasso que é o tempo. Porém, não suspirem aliviados ainda. Uma longa tarde nos espera amanhã, com muitas pedradas, cotoveladas, chutes em cachorros mortos e/ou vivos e outras coisinhas do tipo. Portanto, até lá!

quarta-feira, junho 02, 2004

Para parodiar o próprio Deleuze (e o Guatarri), não basta gritar: "Morte à Dicotomia!" É óbvio que ele contrapõe o modelo arbóreo ao rizoma para atacar o primeiro e defender o segundo; por isso mesmo é que estabelece, sim, uma dicotomia. Está claro que o que ele propõe é um rompimento radical e definitivo com o pensamento dicotômico. O problema é que, pelo menos no texto em questão, ele próprio falha em concretizar essa proposta de maneira tão integral quanto pretendia. Embora defenda furiosamente a abolição do binarismo no plano do conteúdo, simplesmente não consegue levá-la a cabo no plano da forma: para expressar suas idéias revolucionárias e subversivas, vê-se forçado a recorrer à boa e velha oposição binária.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?