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sexta-feira, junho 11, 2004

O exercício sugerido pelo amigo Eduardo: estabelecer um paralelo entre vanguardas artísticas e (por assim dizer) vanguardas filosóficas, isto é, Deleuze, Nietzsche e sua turma, parece-me uma ótima estratégia para melhor definir tanto as potencilaidades quanto as limitações do pensamento que ora estudamos. Além do mais, poderá funcionar também como uma ponte entre a atual contenda e a sua predecessora, permitindo, talvez, a inclusão dos colegas que ainda não tiveram a honra duvidosa (brincadeirinha!) de entrar em contato com a obra deleuziana.

Obs.: Quando escrevi o parágrafo acima, minha intenção era realmente tentar levar a cabo o mencionado exercício, mas minha linha de raciocínio acabou me conduzindo por outros caminhos. Portanto, deixo o paralelo entre vanguardas para outro colega mais competente e mais inclinado nessa direção.

Enquanto isso, eu, do alto da minha vasta carga de leituras de, exatamente, vinte páginas da obra de Deleuze e Guatarri, vou tentar dar a minha versão de exegeta amador acerca da "visão de mundo", se é que a expressão é adequada, que se pode talvez desentranhar do cipoal rizômico. Perdoem a imodéstia. Trata-se mais de uma tentativa de compreensão, uma tática de aprendizado, por assim dizer, do que de uma opinião formada. Por favor, corrijam o que lhes parecer equívoco.

Lá vai: segundo Gilles e seu fiel companheiro Félix, tudo aquilo que existe se dá num mesmo plano ontológico e axiológico, o qual é, não habitado por entidades estanques e idênticas a si próprias, mas sim percorrido por incessantes fluxos de força que se entrecruzam de maneira desordenada. É assim que, ocasionalmente, verifica-se a confluência de alguns desses fluxos, o que dá origem aos chamados "acontecimentos", desprovidos (é importante ressaltar) de qualquer permanência ou caráter definitvo. Tal agenciamento de forças, por sua vez, não ocorre segundo relações de causa e efeito, mas unicamente em virtude da contigência mais estrita. A realidade é, portanto, fundamentalmente(?!) múltipla, dinâmica e superficial. Carece, dessa maneira, de um substrato transcendente que lhe imprima um sentido unidirecional e ordenador.

Entretanto, se, por um lado, é extirpada ao real a sua antiga raiz extraterrena, a qual terminava por cercear o potencial de dinamismo da imanência uma vez que a subjugava a um princípio unívoco e externo a ela mesma, não se lhe nega, por outro lado, uma certa maneira de se comportar, subjacente a tudo e comum a tudo (e, portanto, totalizante). Eis o que confere ao imanentismo de Deleuze sua dimensão metafísica, bem como, de alguma forma, totalitária. Neste ponto, o totalitarismo se me afigura como um efeito colateral inevitável da metafísica. Como preservar nosso raciocínio de um aspecto totalizante uma vez que admitamos que algo subjaza a todas as coisas, orientando seu funcionamento, ainda que essa orientação consista, paradoxalmente, na ausência de qualquer ordenamento prévio? Aliás, seria assim tão absurdo pensar os próprios princípios de multiplicidade, dinamismo e superficialidade como as diretrizes de um ordenamento prévio? Pois se são elas que regulam o "comportamento da natureza"!

Não tem jeito: quanto mais radicalmente se decrete a falência do Absoluto, mais se estará procedendo a absolutização do Relativo (segundo feliz expressão do colega André). Quanto mais convictamente postularmos a relatividade de tudo, mais absolutizante será esse nosso relativismo. Sofisma? Jogo de palavras? Armadilha lógica?

Diante dessas interrogações, devo dizer que o argumento: "não cabem mais análises sob a coação de pressupostos lógicos" não me convence. Que a relação entre a Lógica e o real, outrora estreita e aproblemática, tenha sido irremediavelmente abalada, não há discussão. Eis como eu enxergo a coisa: a clássica oposição entre dois modos de atingir (ou construir, vá lá) determinada "verdade", quais sejam, a Fé e a Lógica, não faz sentido no final das contas. Em última análise, só a partir da Fé chegamos às nossas concepções sobre a realidade. Pois não há nenhum dado lógico que nos permita crer numa equivalência perfeita entre um raciocínio perfeitamente lógico e uma verdade perfeitamente verdadeira (isso para não levantar a questão de quão ilusória seria a noção de "um raciocínio perfeitamente lógico": por mais perfeito que pareça, um raciocínio pode se ver abalado, a qualquer momento, pelo advento de uma variante até então desconhecida). Em última análise, a Lógica é incapaz de fundamentar a si mesma. É só mediante um depósito de fé na própria Lógica que esta se converte num instrumento funcional para a produção de "verdades".

Todavia, diante disso tudo, temo que, agora, seja a minha vez de perguntar: "E daí?" Sim, a Lógica é de uma precariedade patente, entretanto, qual é a alternativa à Lógica? Reparem como o próprio golpe mortal contra a Lógica só pode ser desferido mediante um raciocínio... lógico! A própria expressão "raciocínio lógico", na verdade, não passa de um pleonasmo. Qualquer utilização da linguagem que preserve o mínimo de comunicabilidade, qualquer exercício concreto do pensamento, portanto, que não se resuma à mera enunciação de incoerências desconexas, é, em algum grau, lógico, ainda que assistemático, multívoco, caótico ou, em um só proparoxítono: rizômico. Constatar as fragilidades da Lógica enquanto meio de obtenção da Verdade é como constatar as limitações de nossos sentidos quanto à apreensão do real: tal constatação não elide o fato de que nossos sentidos constituem nossa única e inescapável via de apreensão do real. Não é porque nossa visão é precária que deixamos de enxergar. Da mesma forma, não é porque a Lógica é falha que deixamos de raciocinar segundo seus pressupostos. Pelo contrário, estamos presos à Lógica como estamos presos a nós mesmos e, por mais que estejamos conscientes da falta de fundamento lógico da própria Lógica, somos como que fisiologicamente incapazes de deslogicizar nossa atividade mental de maneira plena. Até hoje, as melhores tentativas nesse sentido se restringiram à mera (e, por vezes, pueril) transgressão do princípio da não-contradição, a qual, obviamente, não significa uma superação da Lógica enquanto paradigma do pensamento, mesmo quando intencional.

É por isso que, apesar de toda a sua radicalidade, o pensamento de Deleuze não deixa de ser lógico e, por conseguinte, é passível de ser avaliavado tendo o princípio da não-contradição como parâmetro. Acuado por um ataque de natureza lógica, deveria ser capaz de se defender por conta própria, escudando-se na própria coerência, sem precisar apelar para um desmerecimento da Lógica puro e simples (e fácil, diga-se de passagem). Ademais, não se pode deixar de levar em conta o perigoso irracionalismo a que tal desmerecimento pode dar vazão quando abusado. Basta imaginar a seguinte situação absurda: dois deputados discutem determinado assunto no Congresso. Um defende que se tome a medida X; o outro, a medida Y. O primeiro expõe seus argumentos através de um raciocínio impecavelmente lógico. O segundo, entretanto, retruca: "Vossa Excelência tem toda a razão. Mas, como a razão está falida, tomemos a medida Y."

Agora, para fechar com chave de ouro esta mensagem ("finalmente!" - não pensem que não os ouço exclamar), uma breve anedota familiar. Minha mãe, que, como já lhes disse, estudou a obra de Deleuze e Guatarri há alguns anos, ficou curiosa com relação à este debate e resolveu ler os postings. À medida que ia lendo, ia concordando com Eduardo, Gustavo, etc., e, por extensão, discordando deste seu filho (filho único, diga-se de passagem, mas tudo bem: Deus está vendo. Ou não.). Numa espécie de psicanálise da minha argumentação, tentou relacioná-la com um suposto traço da minha personalidade, qual seja, uma certa resistência ao novo e ao diferente e um certo pendor para a abstração reducionista das coisas. Para fundamentar essa sua teoria, socorreu-se de um livro que já havia mencionado anteriormente por ocasião de outra discussão sobre o mesmo tema: "Deleuze e a Filosofia", de Roberto Machado (Editora Graal). E qual não foi sua surpresa ao se deparar com o seguinte trecho, à página 09 da obra desse respeitado exegeta brasileiro do Anti-Filósofo francês:

"(...) Considerando a filosofia de um ponto de vista filosófico, (Deleuze) estabelece dois tipos, dois estilos de filosofia, não apenas heterogêneos, mas sobretudo antagônicos. Neste sentido, isto é, no que diz respeito à constituição de uma geografia do pensamento, a filosofia de Deleuze é profundamente dualista (meu itálico, naturalmente).

Esse dualismo ou a posição de dois espaços antagônicos não se reduz evidentemnte ao pensamento filosófico; ele é uma propriedade do pensamento em geral. Não é meu objetivo aprofundar essa questão, mas pode ser elucidativo assinalar que Deleuze descobre ou estabelece essa dualidade antagônica nos mais variados saberes. Na literatura: é o que o faz, por exemplo, privilegiar em suas análises Artaud, Blanchot, Beckett, Michaux, Proust (...) 'Haverá sempre um Breton contra Artaud, um Goethe contra Lenz, um Schiler contra Hölderlin', diz L'anti-Oedipe. E segundo Mille plateaux os textos de Kleist 'se opõem, sob todos os aspectos, ao livro clássico e romântico, constituído pela interioridade de uma substância ou de um sujeito. O livro máquina de guerra contra o livro aparelho de Estado'. Mas o antagonismo existe até mesmo nas ciências. É assim que L'anti Oedipe opõe uma linguística do significante e uma linguística dos fluxos. (...) É assim também que L'anti-Oedipe (...) assinala um conflito 'libidinal' entre um elemento paranóico-edipizante e um elemento esquizo-revolucionário (...) É assim ainda que Milles Plateaux (...) opõe dois tipos de ciências rivais que interagem: as ciências legais, reais, imperiais, centradas, ligadas ao aparelho de Estado (...) as ciências menores, excêntricas, nômades, ambulantes, itinerantes, desterritorializantes, ligadas à máquina de guerra (...) É assim, finalmente, que Milles Plateaux chega mesmo a utilizar a expressão 'dualidade primordial' para situar a relação entre dois tipos de espaço: o espaço liso (vetorial, projetivo, topológico) e o espaço estriado (métrico)."

Prestem atenção que agora é que a coisa fica interessante:

"O próprio Deleuze se dá conta de uma incompatibilidade, para não dizer uma contradição, entre seu constante elogio da multiplicidade ou mesmo seu projeto de 'fazer o múltiplo', e a afirmação desse dualismo ou dessa dicotomia (outro glorioso itálico meu - de quem mais?) entre esses dois espaços do pensamento. Mas o que a argumentação elucida neste momento é apenas que a oposição não se dá entre dois modelos, mas entre um modelo transcendente e um processo imamente; o que significa reconhecer que o dualismo continua a existir. (...)

Mas Deleuze novamente se dá conta da dificuldade. É assim que (o camarada adora essa fórmula), para resolvê-la ou pelo mesos explicitá-la, formula uma hipótese bastante semelhante à posição de nietzsche, que, reconhecendo toda oposição de valores como sendo metafísica e interessado em superar as dicotomias, considera, no entanto, que, às vezes, é a natureza grosseira da linguagem que condena a falar em termos de oposição quando na verdade só existem graus e sutis transições. (...)

É difícil saber - e de todo modo é ainda bastante cedo para decidir - se essa crítica do dualismo, realizada em nome do pluralismo mas obrigada a criar novas dualidades, é uma quetão terminológica, um problema de escritura, ou se aponta para uma dificuldade conceitual constitutiva da filosfia de Deleuze proveniente da inadequação entre suas propostas e seu funcionamento ou da diferença entre gritar 'viva o múltiplo' e 'fazer o múltiplo'."

Mais uma vez, é por isso que eu digo e repito: "Esta vida é um pandeiro!"

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