segunda-feira, junho 07, 2004
Esqueci de dizer uma coisa no meu último posting. Ao longo do debate, aventou-se a teoria de que o dualismo de "Rizoma", seria, na verdade, um arremedo de dualismo, uma "mockery", cujo propósito seria demonstrar as limitações do pensamento dicotômico através da ironia. Desconfio dessa hipótese. Não consigo identificar nenhum elemento no texto que nos permita encarar a oposição "Rizoma" x "Árvore" como irônica, nem percebo como tal oposição, em si, poderia contribuir para expor os limites do binarismo. Acho que, se ela expõe algum limite, é o do projeto deleuziano, afigurando-se não como recurso consciente, mas sim como cacoete involuntário, resquício do modo dual de pensar manifestando-se num texto cujo objetivo é superar esse mesmo modo. É claro que há ironia aí, mas esta não é intencional e nem depõe a favor dos autores.
Uma ironia do mesmo tipo, encontramos em Nietzsche. Verifique-se, a esse respeito, o acento profético, messiânico mesmo, de seus escritos (acento este parafrasticamente assimilado pelo colega Eduardo, em sua última mensagem), o qual não se harmoniza com a aspiração niestzschiana à superação da Verdade. A pregação evangélica de Zaratustra, o uso categórico dos verbos "dever" e "ser" (ex: "o homem deve ser superado!", "o sentido da terra é não-sei-quê!"), entre outras coisas, acabam deixando claro que, se Nietzche destrói catedrais, é porque quer substituí-las por Templos do Anti-Cristo. Essa contraparte edificadora da destruição niestzschiana é justamente o que mais me incomoda nesse filósofo - e em toda a sua prole (Deleuze incluso). A confecção de "novíssimos valores" me parece um retrocesso, uma vez que se tenha descrido da própria possibilidade de valores absolutos. Muito mais interessante seria aprender a viver num mundo sem valores. Trocar o altar de Urano pelo de Gaia é sair do fogo para pular na fogueira.
Por ex.: por mais libertário que seja o Rizoma, ele não exclui uma certa obrigatoriedade, a qual se depreende de seu tom combativo, agressivo, excludente (rizoma = bom ; árvore = ruim). Qual certeza fundamenta essa destrutividade tão convicta? Para mim, o que a morte de Deus significa é a abolição definitiva da própria possibilidade da certeza. Não há chão para qualquer tipo de valor: nem novo, nem velho, nem rizomático e nem arbóreo. Nietzche quer trocar a moral dos fracos pela dos fortes; Deleuze quer substituir o modelo arbóreo por outro que melhor descreva o "modo como a natureza se comporta". Ora, isso não é superação da Verdade, mas meramente substituição de uma verdade por outra. Apenas mais um episódio na longa e cansativa história do pensamento ocidental.
Evidentemente, poder-se-ia argumentar que o raciocínio acima tem razão, mas só o que ele tem é a Razão. Tudo o que ele faz é encurralar Deleuze e Nietzsche numa "armadilha lógica", o que não tem nenhuma importância, uma vez que a Lógica, falida, já não pode mais servir como fiel da balança. Tentarei rebater esse argumento dentro em breve.
Uma ironia do mesmo tipo, encontramos em Nietzsche. Verifique-se, a esse respeito, o acento profético, messiânico mesmo, de seus escritos (acento este parafrasticamente assimilado pelo colega Eduardo, em sua última mensagem), o qual não se harmoniza com a aspiração niestzschiana à superação da Verdade. A pregação evangélica de Zaratustra, o uso categórico dos verbos "dever" e "ser" (ex: "o homem deve ser superado!", "o sentido da terra é não-sei-quê!"), entre outras coisas, acabam deixando claro que, se Nietzche destrói catedrais, é porque quer substituí-las por Templos do Anti-Cristo. Essa contraparte edificadora da destruição niestzschiana é justamente o que mais me incomoda nesse filósofo - e em toda a sua prole (Deleuze incluso). A confecção de "novíssimos valores" me parece um retrocesso, uma vez que se tenha descrido da própria possibilidade de valores absolutos. Muito mais interessante seria aprender a viver num mundo sem valores. Trocar o altar de Urano pelo de Gaia é sair do fogo para pular na fogueira.
Por ex.: por mais libertário que seja o Rizoma, ele não exclui uma certa obrigatoriedade, a qual se depreende de seu tom combativo, agressivo, excludente (rizoma = bom ; árvore = ruim). Qual certeza fundamenta essa destrutividade tão convicta? Para mim, o que a morte de Deus significa é a abolição definitiva da própria possibilidade da certeza. Não há chão para qualquer tipo de valor: nem novo, nem velho, nem rizomático e nem arbóreo. Nietzche quer trocar a moral dos fracos pela dos fortes; Deleuze quer substituir o modelo arbóreo por outro que melhor descreva o "modo como a natureza se comporta". Ora, isso não é superação da Verdade, mas meramente substituição de uma verdade por outra. Apenas mais um episódio na longa e cansativa história do pensamento ocidental.
Evidentemente, poder-se-ia argumentar que o raciocínio acima tem razão, mas só o que ele tem é a Razão. Tudo o que ele faz é encurralar Deleuze e Nietzsche numa "armadilha lógica", o que não tem nenhuma importância, uma vez que a Lógica, falida, já não pode mais servir como fiel da balança. Tentarei rebater esse argumento dentro em breve.
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