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terça-feira, junho 22, 2004

Amigos,
O último posting do Gustavo afirma haver três traços comuns a vanguardas artísticas e filosóficas: defesa da liberdade, iconoclasmo e monumentalidade. Acho que a afirmação procede. Também concordo que ambos os tipos de vanguarda possuam suas fragilidades, por vezes "pueris". Entretanto, não enxergo em Guatarri e Deleuze o amor ao choque por ele mesmo que se pode identificar no Dadaísmo, por exemplo. Talvez porque, para os artistas, o iconoclasmo seja um fim em si, enquanto que, para os filósofos, parece mais uma estratégia para atingir determinado objetivo. Não vejo provocação gratuita no ataque de "Mil Platôs" à Psicanálise e à Linguística, apesar de toda a agressividade com que esse ataque é realizado.

Aliás, se eu tivesse que apontar uma única caracterítica partilhada pelas vanguardas artísticas (tanto as do início quando as do meio do séc. XX) e a linhagem de pensamento fundada por Nietzsche, escolheria a combatividade - e, talvez mais do que isso, a destrutividade, da qual o principal sintoma é a "retórica da negação" de que já falei em postings anteriores. Está claro que tal destrutividade possui uma necessária contraparte edificadora. No entanto, como também já declarei anteriormente, é justamente nisso que, a meu ver, consiste a mais "pueril" das fragilidades vanguardísticas. Eis porque, apesar de considerar arriscada a tentativa de profetizar "destinos históricos", não consigo deixar de concordar com o Gustavo quando ele prevê um fim comum para Deleuze e amigos e para a arte de vanguarda. Entretanto, discordo que esse fim seja marcado "pela impossibilidade de dizer algo que sempre se lança furiosamente contra tudo e não aponta para nada - nem para si mesmo". Pelo contrário, é porque o discurso nietzcheano/deleuzeano aponta excessiva e enfaticamente para si mesmo que termina por se condenar a um fado inglório, algo, talvez, análogo ao experimentalismo institucionalizado da modernidade tardia.

Tanto Nietzsche quanto Deleuze desferem um golpe mortal contra a noção de Verdade para, em seguida, afirmarem suas próprias verdades particulares. Deleuze o faz de forma ainda mais sistemática do que seu mestre. E não estou me referindo apenas ao paradoxo de afirmar como verdade a inexistência da Verdade. Depois de impiedosamente exporem as mazelas da lógica e da linguagem, os dois se utilizam das mesmas para, respectivamente, confeccionar novos valores e revelar "o modo como a natureza realmente se comporta". E o tom furioso com que o fazem denota uma convicção e uma certeza de si que as suas próprias descobertas já haviam impossibilitado. É o "caráter de militância" que o amigo Fábio tão espirituosamente parodia: "Devemos inverter os paradigmas! Filosofia virtual: por um modo de pensar rizomático!" Qualquer semelhança com a dicção de certa "vã guarda" nossa velha conhecida não terá sido mera coincidência.

Quanto à questão da Psicanálise, não acho nada descabida a problematização da hierarquia analista/paciente. Entretanto, se quisermos levá-la às suas últimas consequências, a partir da noção de que "diagnóstico e tratamento (são) amplamente derivados do próprio sistema hermenêutico escolhido", terminaremos por estendê-la a toda a Medicina. Aliás, como o próprio Pedro ressalta, Freud era, antes de mais nada, um médico. Todas as suas especulações tinham como horizonte a elaboração de uma técnica, de uma metodologia que se pudesse traduzir num tratamento efetivo. Era, portanto, impossivel que o psicanalista não se contaminasse com a aura do médico. É verdade que o mito do "olhar translúcido" tem sido desmascarado, inclusive no campo das Ciências Exatas. E, no entanto, transplantes de coração continuam sendo realizados com sucesso; e, no entanto, a psicanálise sobrevive como prática clínica. Com efeito, acho que, no fim das contas, o que a Psicanálise tem a dizer em defesa própria é isto: pode até não se sustentar do ponto de vista filosófico, mas, como prática clínica, tem resistido ao teste do tempo.

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