sábado, maio 22, 2004
Senhores,
Antes de mais nada, vou fazer alguns esclarecimentos, conforme requisitado nos seus últimos postings. Matheus é um camarada de seus 20 e poucos anos, mestrando (oh, inveja) na nossa amada FALE, noivo, fã do Chaves, bom poeta e mau escolhedor de nomes para jornais literários que ameaçam e ameaçam, mas nunca transcendem a famigerada prancheta de planos. Fábio é um colega da Fale, um mísero graduando como eu; se é poeta ou prosador bom ou mau, ainda estamos por descobrir; sabe-se, contudo, que sua antiga militância concretista não o impede de reconhecer as fragilidades dos ex-ídolos, o que faz em ensaios formidáveis como o que foi postado aqui às 19:30:16 da sexta-feira, dia 21 de maio. Gustavo é outro que renega militâncias antigas, só que, no caso dele, de natureza política. Acaba de reingressar na FALE após um período de dois anos (se não me engano) em que esteve trabalhando num jornal no Rio de Janeiro. Trata-se de um indivíduo dotado de invejável carga de leituras, bem como da aguda capacidade de estabelecer relações entre as referências que possui, o que é o mais importante, a meu ver. Conheci os dois últimos num grupo de estudos sobre Teoria Literária organizado pelo Prof. Pedro Dolabella, para o qual fui chamado pelo João Eustáquio. Entusiasmados pela descoberta de interesses em comum, alguns dos membr... digo, participantes desse grupo decidiram criar um outro, para estudo da poesia brasileira, que se reúne uma hora antes e uma hoa depois das aulas do Pedro. Nem considerei a possibilidade de convidar meus colegas mestrandos para tais grupos, porque tenho consciência do grave problema de tempo enfrentado pelos três. Qualquer dia desses, devem aparecer por aqui Kaio, Jairo, Eduardo, Pollyanna e Fernando (se é que não estou me esquecendo de ninguém). Quando - e se - esse dia chegar, faço as devidas apresentações. Entre outras coisas, deixei de falar que o Matheus é orientado pelo monstruoso Murilo Marcondes (oh, inveja dupla, tripla, quádrupla, etc...!!!) Presumo que todos os outros também sejam fãs do Chaves, já que têm me dado provas de que sabem apreciar as coisas boas da vida.
Retomando nosso eterno assunto, concordo com o Fábio quando diz que o autoritarismo dos concretos é um comportamento recorrente na Modernidade. Inclusive, com terríveis repercussões extra-literárias. Na verdade, acho que ele é uma consequência direta de uma certa ilusão moderna: a de que seria possível atingir uma verdade universal e incontestável, a partir da qual seria legítimo passar por cima de toda e qualquer divergência. Vejam o que o Alexei Bueno diz sobre a questão, em entrevista ao Luís Antônio Cajazeira Ramos (não sei se concordo com tudo, mas o texto é divertido e vale, no mínimo, como provocação):
"O manifesto da poesia concreta, também conhecido como o AI-5 da poesia brasileira, foi lançado em 1956, declarando extinto o ciclo histórico do verso. É a mesma declaração de Mussolini nos anos 20 declarando extinto o tempo das democracias fracas. O que é o 'estado forte' para os fascistas é o 'rigor poético' para essas figuras, que jamais o exerceram. Enquanto os fascistas tomavam os sindicatos, os concretistas tomavam as universidades, gordos e felizes, no vácuo de um sem número de intelectuais presos ou exilados. O horror dos primeiros pela liberdade é o mesmo dos outros pelo indivíduo. Enquanto os fascistas surravam, davam purgantes ou matavam, esses tentam desmoralizar ou desempregar, através dos órgãos de imprensa que controlam. Como seita, criaram uma ficção genealógica e manias-senhas, compartilhadas por todos os seus asseclas. Ao se falar de cinema brasileiro, citarão Júlio Bressane. De Romantismo brasileiro, Sousândrade. De Modernismo, Oswald de Andrade. De música popular, Caetano Veloso. Qualquer outra citação seria heterodoxia ou blasfêmia. O mais curioso é declarar extinto o 'ciclo histórico do verso' em 1956, quando em 1951 foi lançado Claro enigma, em 1952 a Invenção de Orfeu, em 1953 o Romanceiro da Inconfidência, etc., ou seja, não depois de qualquer estagnação do verso, mas num óbvio apogeu. Além de tudo, são os responsáveis pela má ou nula divulgação no Brasil de uma série de poetas admiráveis fora do eixo Rio-São Paulo, muitos deles no Nordeste, enquanto os epígonos mais ordinários das mesmas correntes - metástases malcheirosas de um notório câncer obeso - são arremessados por todo o país."
Também estou de acordo que o calcanhar de Aquiles dos concretos "não reside na poesia em si", mas sim, como já disse e repeti, no paradigma crítico intolerante perpetuado por eles. O que nos conduz a um ponto crucial, indicado por você, Matheus. Você aponta a contradição de uma proposta que se pretende irrestritamente tolerante, mas se recusa a aceitar a intolerância ela mesma. O que eu acho é o seguinte: diante da impossibilidade de se fixar um critério valorativo absoluto, toda e qualquer estética deve ser tolerada. O mesmo não vale para toda e qualquer crítica. Para a crítica, há um critério valorativo passível de ser absolutamente fixado: a tolerância. Dizer que "o sujeito tem o direito de fazer uma má crítica se ele assim quiser", desde que se entenda "má crítica" por "crítica intolerante", é como defender o direito ao racismo. O limite da tolerância é a própria intolerância; esta não poderá ser tolerada nunca, sob pena de implodir-se o princípio da não-contradição, fazendo com que o cadáver de Parmênides se revolva dentro de seu túmulo. Por outro lado, é possível tentar viabilizar o projeto de uma crítica tolerante de uma maneira mais pró-ativa do que simplesmente tentando concretizá-lo em nossa própria produção crítica pessoal, qual seja, afirmando-o reiteradamente, defendendo-o com argumentos e desenvolvendo-o sob a forma de conceitos, em discussões como esta. E trata-se de uma coisa urgente, porque pode até ser verdade que "ninguém deixa de (...) fazer boa poesia porque fulano ou beltrano falou mal dele no Mais! ou na Cult", mas muita gente deixa de ler boa poesia por causa disso.
O preconceito contra a poesia metrificada e rimada está tão vivo quanto o cachorro do nosso debate, e pode ser identificado em "camaradas" do mais alto gabarito - apesar da guinada clássica de Claro Enigma e tudo o mais. Acho inegável a existência de uma presunção tácita de que o Modernismo e seus sucessores estão num patamar de qualidade superior a tudo que veio antes, principlamente o Parnasianismo. E quem retoma metro e rima nos dias de hoje é taxado de passadista, prolixo, verboso, discursivo e, é claro, parnasiano, bem como todos os demais palavrões do arsenal minimalista-pós-cabralino. Mesmo que logre algum sucesso de público, até porque, como você bem exemplifica com o Concurso do Vinicius de Moraes, a aversão à estética pré-modernista nunca chegou a extrapolar os círculos mais eruditos. E você me entendeu mal: não acho em absoluto que a descrença na tradição tenda a se fortalecer. Pelo contrário, acho que ela tem se enfraquecido sensivelmente nos últimos tempos, e pretendo contribuir para esse processo de todas as formas que puder.
No mais, agradeço pelos vário trechos lisongeiros da sua última mensagem.
Antes de mais nada, vou fazer alguns esclarecimentos, conforme requisitado nos seus últimos postings. Matheus é um camarada de seus 20 e poucos anos, mestrando (oh, inveja) na nossa amada FALE, noivo, fã do Chaves, bom poeta e mau escolhedor de nomes para jornais literários que ameaçam e ameaçam, mas nunca transcendem a famigerada prancheta de planos. Fábio é um colega da Fale, um mísero graduando como eu; se é poeta ou prosador bom ou mau, ainda estamos por descobrir; sabe-se, contudo, que sua antiga militância concretista não o impede de reconhecer as fragilidades dos ex-ídolos, o que faz em ensaios formidáveis como o que foi postado aqui às 19:30:16 da sexta-feira, dia 21 de maio. Gustavo é outro que renega militâncias antigas, só que, no caso dele, de natureza política. Acaba de reingressar na FALE após um período de dois anos (se não me engano) em que esteve trabalhando num jornal no Rio de Janeiro. Trata-se de um indivíduo dotado de invejável carga de leituras, bem como da aguda capacidade de estabelecer relações entre as referências que possui, o que é o mais importante, a meu ver. Conheci os dois últimos num grupo de estudos sobre Teoria Literária organizado pelo Prof. Pedro Dolabella, para o qual fui chamado pelo João Eustáquio. Entusiasmados pela descoberta de interesses em comum, alguns dos membr... digo, participantes desse grupo decidiram criar um outro, para estudo da poesia brasileira, que se reúne uma hora antes e uma hoa depois das aulas do Pedro. Nem considerei a possibilidade de convidar meus colegas mestrandos para tais grupos, porque tenho consciência do grave problema de tempo enfrentado pelos três. Qualquer dia desses, devem aparecer por aqui Kaio, Jairo, Eduardo, Pollyanna e Fernando (se é que não estou me esquecendo de ninguém). Quando - e se - esse dia chegar, faço as devidas apresentações. Entre outras coisas, deixei de falar que o Matheus é orientado pelo monstruoso Murilo Marcondes (oh, inveja dupla, tripla, quádrupla, etc...!!!) Presumo que todos os outros também sejam fãs do Chaves, já que têm me dado provas de que sabem apreciar as coisas boas da vida.
Retomando nosso eterno assunto, concordo com o Fábio quando diz que o autoritarismo dos concretos é um comportamento recorrente na Modernidade. Inclusive, com terríveis repercussões extra-literárias. Na verdade, acho que ele é uma consequência direta de uma certa ilusão moderna: a de que seria possível atingir uma verdade universal e incontestável, a partir da qual seria legítimo passar por cima de toda e qualquer divergência. Vejam o que o Alexei Bueno diz sobre a questão, em entrevista ao Luís Antônio Cajazeira Ramos (não sei se concordo com tudo, mas o texto é divertido e vale, no mínimo, como provocação):
"O manifesto da poesia concreta, também conhecido como o AI-5 da poesia brasileira, foi lançado em 1956, declarando extinto o ciclo histórico do verso. É a mesma declaração de Mussolini nos anos 20 declarando extinto o tempo das democracias fracas. O que é o 'estado forte' para os fascistas é o 'rigor poético' para essas figuras, que jamais o exerceram. Enquanto os fascistas tomavam os sindicatos, os concretistas tomavam as universidades, gordos e felizes, no vácuo de um sem número de intelectuais presos ou exilados. O horror dos primeiros pela liberdade é o mesmo dos outros pelo indivíduo. Enquanto os fascistas surravam, davam purgantes ou matavam, esses tentam desmoralizar ou desempregar, através dos órgãos de imprensa que controlam. Como seita, criaram uma ficção genealógica e manias-senhas, compartilhadas por todos os seus asseclas. Ao se falar de cinema brasileiro, citarão Júlio Bressane. De Romantismo brasileiro, Sousândrade. De Modernismo, Oswald de Andrade. De música popular, Caetano Veloso. Qualquer outra citação seria heterodoxia ou blasfêmia. O mais curioso é declarar extinto o 'ciclo histórico do verso' em 1956, quando em 1951 foi lançado Claro enigma, em 1952 a Invenção de Orfeu, em 1953 o Romanceiro da Inconfidência, etc., ou seja, não depois de qualquer estagnação do verso, mas num óbvio apogeu. Além de tudo, são os responsáveis pela má ou nula divulgação no Brasil de uma série de poetas admiráveis fora do eixo Rio-São Paulo, muitos deles no Nordeste, enquanto os epígonos mais ordinários das mesmas correntes - metástases malcheirosas de um notório câncer obeso - são arremessados por todo o país."
Também estou de acordo que o calcanhar de Aquiles dos concretos "não reside na poesia em si", mas sim, como já disse e repeti, no paradigma crítico intolerante perpetuado por eles. O que nos conduz a um ponto crucial, indicado por você, Matheus. Você aponta a contradição de uma proposta que se pretende irrestritamente tolerante, mas se recusa a aceitar a intolerância ela mesma. O que eu acho é o seguinte: diante da impossibilidade de se fixar um critério valorativo absoluto, toda e qualquer estética deve ser tolerada. O mesmo não vale para toda e qualquer crítica. Para a crítica, há um critério valorativo passível de ser absolutamente fixado: a tolerância. Dizer que "o sujeito tem o direito de fazer uma má crítica se ele assim quiser", desde que se entenda "má crítica" por "crítica intolerante", é como defender o direito ao racismo. O limite da tolerância é a própria intolerância; esta não poderá ser tolerada nunca, sob pena de implodir-se o princípio da não-contradição, fazendo com que o cadáver de Parmênides se revolva dentro de seu túmulo. Por outro lado, é possível tentar viabilizar o projeto de uma crítica tolerante de uma maneira mais pró-ativa do que simplesmente tentando concretizá-lo em nossa própria produção crítica pessoal, qual seja, afirmando-o reiteradamente, defendendo-o com argumentos e desenvolvendo-o sob a forma de conceitos, em discussões como esta. E trata-se de uma coisa urgente, porque pode até ser verdade que "ninguém deixa de (...) fazer boa poesia porque fulano ou beltrano falou mal dele no Mais! ou na Cult", mas muita gente deixa de ler boa poesia por causa disso.
O preconceito contra a poesia metrificada e rimada está tão vivo quanto o cachorro do nosso debate, e pode ser identificado em "camaradas" do mais alto gabarito - apesar da guinada clássica de Claro Enigma e tudo o mais. Acho inegável a existência de uma presunção tácita de que o Modernismo e seus sucessores estão num patamar de qualidade superior a tudo que veio antes, principlamente o Parnasianismo. E quem retoma metro e rima nos dias de hoje é taxado de passadista, prolixo, verboso, discursivo e, é claro, parnasiano, bem como todos os demais palavrões do arsenal minimalista-pós-cabralino. Mesmo que logre algum sucesso de público, até porque, como você bem exemplifica com o Concurso do Vinicius de Moraes, a aversão à estética pré-modernista nunca chegou a extrapolar os círculos mais eruditos. E você me entendeu mal: não acho em absoluto que a descrença na tradição tenda a se fortalecer. Pelo contrário, acho que ela tem se enfraquecido sensivelmente nos últimos tempos, e pretendo contribuir para esse processo de todas as formas que puder.
No mais, agradeço pelos vário trechos lisongeiros da sua última mensagem.
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