<$BlogRSDUrl$>

sexta-feira, maio 21, 2004

Seja bem-vindo, cabeludo colega. Estamos à espera dos seus veneráveis pitacos.

Agora, voltando à vaca fria (ou ao cachorro morto(?), como queiram): você, Matheus, tem toda a razão quando diz que "o que o modernismo deixou de interessante e produtivo (...) é a abertura de campo à produção literária que não existia antes dele". Se "o que havia de autoritário em suas propostas 'libertárias' ficou no tempo", já não tenho tanta certeza. A possibilidade, instarurada pela "revolução", de se fazer literatura de uma determinada maneira, antes proibida, terminou por implicar a impossibilidade (oficial, é claro) de se fazer literatura de qualquer outra maneira, especialmente da maneira como se vinha fazendo até então. E essa atitude preconceituosa não foi superada pelas revisões de 30 e 45, mas sobreviveu e se perpetuou, transformando-se em verdadeiro ponto pacífico acadêmico e crítico. Repare como, desde a consolidação do Modernismo até os dias de hoje, o adjetivo "parnasiano" nunca deixou de ser um palavrão. Digo isso literalmente: não é incomum topar com resenhas críticas em que se acusa (e o termo é esse) determinada obra de "parnasianismo". A própria crítica que se começa a fazer atualmente ao Concretismo, por vezes, o aproxima do condenável formalismo "parnasiano".

Ao longo do século, cristalizou-se a noção de que a literatura séria começa no Modernismo, e o que se salva em períodos anteriores são justamente aquelas obras excepcionais em que, de um modo ou de outro, já se entrevê algum tipo de "modernidade avant la lètre". E quem não reconhece nessa idéia uma manifestação da ideologia do progresso, tipicamente moderna, da qual também provém a concepção concretista de história literária mencionada alguns postings atrás? Não, meu caro: infelizmente, o cachorro está bem vivo, ladrando e mordendo os outros por aí. A obviedade da obrigação de "deixar sobretudo falar a obra que está sendo analisada (...) sem usá-la como pretexto para a confirmação ou a demolição de uma idéia" não a impede de ser negligenciada por uma parcela vultuosa da produção crítica atualmente veiculada na academia, em suplementos literários e em publicações especializadas. Daí o caráter imperioso da "batalha" por uma crítica lúcida e livre de pré-noções.

Quanto à possibilidade ou não de uma consumação plena de tal proposta, penso o seguinte: em primeiro lugar, uma utópica auto-anulação integral não seria necessária para levá-la a cabo. Sim, "estamos sempre vinculados (...) a um tipo de abordagem do material literário" - pelo menos no momento específico em que abordamos tal material - mas não a uma determinada ideologia, seja ela estética, existencial, etc. Calma: não sugiro que seja possível prescindir de toda e qualquer ideologia, abordando a obra a partir de uma perspectiva puramente externa e objetiva. Nossa ideologia, mais do que os óculos através dos quais olhamos para as coisas, são os próprios olhos com que as enxergamos, parte fisiológica de nosso aparato conoscente e condição mesma de qualquer conhecimento. Entretanto, tão ingênua quanto o objetivismo é a pressuposição de que, a cada indivíduo, corresponde uma única ideologia específica, a "sua", como que inscrita a priori no mámore da sua personalidade. Se fosse assim, não teria sido possível ao Antonio Candido afirmar que, quando critica um romance naturalista, torna-se darwinista; quando critica uma obra sócio-realista, torna-se marxista; etc. Esse princípio, ampliado às esferas estética, existencial, filosófica e quantas mais, constitui a operação central da "minha" proposta crítica: a substituição momentânea da ideologia do analista pela que se manifesta no texto analisado.

É claro que, para substituir sua própria ideologia pela do texto, o analista precisará, antes, identificar a ideolgia do texto, o que sempre será feito a partir de um determinado ponto de vista. Entretanto, por mais precariamente que se dê a substituição, eu tendo a acreditar que o que quer que dela advenha já será melhor que rechaçar ou entronizar obras literárias de maneira automática e sistemática, unicamente em função da presença ou da ausência de determinados valores.

Comments: Postar um comentário

This page is powered by Blogger. Isn't yours?