<$BlogRSDUrl$>

terça-feira, maio 18, 2004

Paulo Valério... Quanta falta de noção, meu Deus. Já viu o "Livro dos Nossos Filhos", uma enciclopédia pré-histórica que traz resumos de clássicos da literatura? Trata-se de um tesouro de nomes de autores traduzidos. É lá que se encontra o campeão deles todos, a meu ver: o grande Guilherme Shakespeare, acompanhado de ninguém menos que Jônatas Swift, Henriqueta Breecher Stowe (autora da "Cabana do Pai Tomás"), Joaquim Rossini (xará do Lacan), Frederico Schiller (xará do Nietzsche), Carlos Dickens, Téofilo Gautier e - o mais surpreendente - Mark Twain! Depois disso tudo, só o Mark Twain os desgraçados não traduzem, sabe-se lá por que! Vai entender esse povo doido.

Mas você tem razão: o texto do Hansen tem mesmo alguns méritos inegáveis. Para além de qualquer polêmica, é simplesmente muito divertido assistir à deflação do Gregório "Herói Nacional Bahiano", esse gênio romântico erigido às custas de tanta instrumentalização ideológica. E os exageros do sincronismo têm que ser tolhidos, sim. Por outro lado, considero a vinculação genealógica (por assim dizer) do Barroco às vanguardas do séc. XX (ademais, levada a cabo pela primeira vez não por manifestistas como os Fields, mas sim por poetas modernistas como Frederico Garcia Lorca) uma constatação fundamental para a compreensão da literatura na Era Moderna.

Minha leitura sobre a compreensão renascentista da "Poética" é também bastante limitada, mas tenho a impressão de que a sua "tendência a encarar os tratados como propagadores da imitatio" tem fundamento. O que sei é que os tratadistas que sistematizaram a estética barroca no séc. XVII não enxergavam nela uma ruptura com o cânone classicista. Na verdade, eles se queriam mais clássicos do que os próprios clássicos, herdeiros dos valores da Renascença e seus continuadores, daí insistirem em defender a mímesis como finalidade da literatura e da arte. Entretanto, é importante perceber que isso se dava no plano da teoria. Na prática, a produção poética barroca dava claros sinais de que se havia operado uma transformação profunda na relação entre linguagem e mundo. Sem que os tratados dessem conta disto, já não se supunha mais um vínculo apriorístico e necessário entre palavra e coisa. Descobrira-se a maleabilidade da linguagem, isto é, a possibilidade de explorá-la artisticamente para além dos limites da representação mimética mais estrita. É o que se pode depreender das construções sintaticamente retorcidas dos textos barrocos; do aproveitamento estético do sofisma, que constitui o "conceito" agudo; da adjetivação altamente inusitada e inconcebível num regime clássico autêntico, em que a "água" é sempre "fria" e a "pedra" é sempre "dura"; etc. Todos esses procedimentos apontam para a então recém-descoberta autonomia da linguagem em relação à realidade. Descobrira-se o oxímoro. E, mais do que o oxímoro, a fusão de campos semânticos totalmente distintos, operação que produziu imagens como "Maio errante de sortidas cores", "Íris parlero, Abril organizado", etc. Se elevarmos esse afastamento do referente à sua enésima potência, chegaremos aos experimentos mais radicais do século passado, todos eles devedores daquelas primeiras liberdades que os barrocos, inconscientemente, tomaram em relação à mímesis enquanto valor artístico. É por isso que não acho a presença de Gregório de Mattos no Paideuma concreto tão absurda quanto o João Adolfo Hansen.

No mais, quem tem que agradecer pelo debate constante sou eu - e aproveito para exultar os demais colegas a tomarem parte nele. Abraços.

Comments: Postar um comentário

This page is powered by Blogger. Isn't yours?