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sexta-feira, maio 14, 2004

Caro Anselmo,
Agradeço pela parte dos elogios que me toca. Concordo com você quanto à seriedade e ao nível dos nossos colegas. Já a questão da adesão me preocupa um pouco. Tenho a impressão de que alguns dos convidados estão tendo problemas técnicos para consumar sua entrada no Blog, semelhantes aos que o Gustavo enfrentou a princípio. De qualquer forma, amanhã, na aula do Pedro, esse assunto será esclarecido, e talvez alguma providência possa ser tomada.

Retomando a referida “contenda” e respondendo à sua pergunta, acho que o destino da vanguarda é, sim, transformar-se em clássico – no mínimo, no sentido institucional do termo, isto é, exatamente da maneira como você descreveu: integrando-se à anterioridade que ela, inicialmente, combatia. Trata-se da boa e velha (mais velha que boa, a meu ver) “tradição da ruptura”, motivada pela “pequena ilusão temporal” a que você se refere. Só não acredito que a separação entre joio e trigo possa acontecer “naturalmente”, ou melhor, temo o convite à passividade, por assim dizer, que essa crença enseja. Cabe a nós estabelecer conscientemente os critérios para tal separação, bem como levá-la a cabo de maneira pró-ativa. Entretanto, o mais importante de tudo é fazê-lo de modo a não recair na ingenuidade absolutista de nossos predecessores modernos. Isso significa que, a partir de agora, não será rejeitada esta ou aquela estética porque “ultrapassada”, nem tampouco esta ou aquela ideologia porque “perversa” ou o que o valha. Repare que, em nenhum momento, minha objeção à vanguarda se dirige à sua produção literária ou aos princípios por que esta se pauta, mas sim à atitude autoritária com que a crítica vanguardista decreta a invalidade de tudo quanto não seja espelho de seus credos. Essa atitude é que deve ser o “joio” do nosso tempo. É dela que devemos nos livrar de uma vez por todas, pondo fim ao ciclo vicioso da “tradição da ruptura” e, junto com ele, à Modernidade.

“É um abuso a autoproclamação das vanguardas, ao desvalorizarem automaticamente toda sua anterioridade.” – De fato. Contudo, abuso maior encontramos na raiz do próprio conceito vanguardístico de “anterioridade”. A vanguarda coroa a si mesma como representante por excelência de seu momento presente. Tudo o mais que se produza contemporaneamente a ela é rechaçado sob a acusação de “passadismo”. Essa prática intolerante se fundamenta na seguinte falácia formalista: o advento de um novo proceder estético acarreta a “ultrapassagem” de todos os demais, em outras palavras: quando se avança um passo no movimento de auto-centramento da linguagem, tudo o que vinha sendo feito até então (e que continua a ser feito, veja bem) torna-se, imediatamente, “ultrapassado”. Todo julgamento valorativo da vanguarda remonta ao seguinte princípio: quanto mais experimental, quanto mais auto-referencial o uso da linguagem, melhor. Para reconhecer a necessidade de um novo paradigma crítico para a contemporaneidade, basta constatar a arbitrariedade flagrante de tal equação.

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