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domingo, maio 16, 2004

André,
A morte do Haroldo é recente; ainda podemos “cotovelá-lo” um pouco! Você se pergunta pela razão dessa hostilidade. Fico pensando o seguinte: por mais que as vanguardas sejam (ou tenham sido) um fenômeno internacional, é difícil pensar em alguma figura estrangeira que encarne em si, de forma tão acabada quanto os Irmãos, os aspectos mais antipáticos desse fenômeno. Os Irmãos e o agregado, é claro. Talvez isso se deva à militância incansável a que os três se entregaram desde o início da coisa, aproveitando cada oportunidade para manifestar bombasticamente o quanto eles eram o supra-sumo da Literatura Ocidental, e que tudo que fora feito até então (tudo de “bom” e de “importante”, obviamente) não passava de estágios intermediários conduzindo àquela hiperculminação definitiva: eles mesmos. É a crença no “triunfante fim”, como você bem coloca. Acho que essa arrogância de atitude dos concretistas irritou e irrita mais do que a Poesia Concreta em si, com todas as suas rupturas, detonações e estilhaçamentos.

Estou começando a me repetir, mas, para mim, o grande problema é o aspecto valorativo, a crítica intolerante mais do que o “esfacelamento do verso”. Temos que concordar que o Concretismo e demais vanguardas de meados do séc. XX representam, de fato, uma espécie de “ponto de chegada” para um movimento de autonomização e auto-centramento da linguagem poética, iniciado, talvez, no Barroco (daí Gregório de Mattos). As figuras de proa desse movimento compõem o Paideuma concreto, e identificá-las não deixa de constituir uma contribuição interessante, como você ressalta. Nesse sentido, a “noção linear dos valores estéticos” tem alguma lógica: a dissolução do referente progride linearmente ao longo da Era Moderna e culmina na “linguagem explodida” do experimentalismo recente. O que não tem lógica alguma é atribuir a tais valores o caráter de “verdade única”, como pretendem tantos manifestos e planos-piloto. A partir dessa atribuição, encontra-se justificado o conceito reducionista de “presente” que entroniza o experimental e afirma que “todo o resto contemporâneo é ultrapassado, é ‘couraça medieval’, é realismo ingênuo”. É evidente que a poesia de Drummond é mais discursiva que a de José Lino Grünnewald. Entretanto, a partir dessa constatação, será legítimo afirmar a precedência do segundo sobre o primeiro, em termos de qualidade e de valor artístico? Excluindo-se o mais estrito voluntarismo, não me parece haver nada que nos conduza a uma reposta afirmativa para essa pergunta.

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